23 de dezembro de 2010

O Fim do Universo*

Quem lê com alguma frequência o blog e acompanha o cinetoscópio sabe que gosto dos filmes do Kevin Smith. Mas encontrar alguém que conheça bem sua filmografia por aqui é tarefa das complicadas, ainda que perfeitamente compreensível. Seus filmes são sobre absolutamente nada, e seus roteiros são basicamente sobre cultura pop, religião, sexo e algumas "dick and fart jokes", que estão mais para "dick and dick jokes". Ou seja, filmes cômicos, tragicômicos, romanticômicos ou religicômicos. Ele cria diálogos com a mesma preocupação que a minha agora em usar um termo que não existe. E assume isso muito naturalmente.

Eu costumo dizer que o Tim Burton sempre faz o mesmo filme, com os mesmos perfis de personagens, com a mesma direção de arte (principalmente figurino) com a mesma trilha sonora do Danny Elfman e com os mesmos atores, principalmente sua mulher e Johnny Depp, enquanto Tarantino usa os mesmos atores para os mesmos personagens em linhas narrativas alucinantes. Kevin Smith faz um pouco disso e um pouco daquilo. Usa os mesmos atores para os mesmos personagens e os mesmos atores para personagens diferentes, o que gera confusão para o olho destreinado, como nas piadas do Império do Besteirol Contra-ataca. Ele usa os personagens do View Askewniverse, ou o Universo da View Askew (nome de sua produtora), e tem como fio condutor Silent Bob (Bob Silencioso ou Bob Caladão) e Jay (Jay). Mas depois de Balconista II (Clerks II) essa porta praticamente se fechou.

Esse universo começou com o Balconista (Clerks), premiado por Cannes e Sundance, sobre dois trabalhadores de uma loja de conveniência e vídeo locadora. Depois veio Barrados no Shopping (Mallrats), insucesso de bilheteria, onde reaparecem Jay e Silent Bob para ajudar TS e Brodie a reconquistar suas namoradas. Segue para Procura-se Amy (Chasing Amy), em que a sabedoria de Bob ajuda Holden a entender seus sentimentos por uma lésbica, e passa por Dogma na tentativa de deter o Apocalipse. Depois vem o Império (Jay & Silent Bob Strike Back), onde nossos heróis procuram seus direitos de imagem depois de terem suas personas copiadas para gibis e filme e termina com Balconista 2 em que, para quem conhece a história do universo, há um ponto final na vida desses personagens. Mas de certa forma, também uma mudança de rumo na carreira do cara.

Talvez o filme mais conhecido dele por aqui seja "Pagando bem, que mal tem?", que é muito parecido com os do Askewniverse mas com personagens diferentes. O filme não garantiu um mercado maior para ele no Brasil, e o primeiro filme que ele dirigiu e não escreveu, Tiras em Apuros (Cop Out / A Couple of Dicks) mal passou pelo cinema, mesmo tendo no elenco Bruce Willis e Tracy Morgan. Mas a sensação que fica é que há uma rejeição enorme aos seus filmes, e isso acontece nos Estados Unidos também. Coisa que não tem nada a ver com elenco. Ele já colocou em seus filmes atores e comediantes do calibre de Alan Rickman, Ben Affleck, Matt Damon, Jason Lee, Chris Rock, George Carlin, Will Ferrell e o ignorante número de participações especiais para Impérido do Besteirol, entre elas Carrie Fisher e Mark Hamill (Hey kids! it's Luke Skywalker) (Aqui está a lista completa). Enfim, mesmo para o gênero "comédia", se ouve mais críticas que elogios. As pessoas acham que, pelo fato de o cara ter ganho o prêmio dos novos talentos em Sundance, viria a tona um novo gênio do cinema independente que fez um filme de 27 mil dólares render 3 milhões, e o que pensaram ter visto depois foi mais do mesmo

Mas a visão que existe para tudo que é independente na indústria do cinema e também da música é um pouco hipermétrope. As pessoas tem uma tendência incrível de achar que, exatamente por não seguir o mainstream, a coisa é mais difícil de realizar, e portanto o resultado final é melhor. É uma visão errada, preguiçosa e sem devida distância. Tudo que entra na categoria independente é bom para o processo criativo, porque sem dinheiro para investir o realizador se vê obrigado a procurar alternativas eficazes e inventivas, e que diversas vezes criam novas linguagens e efeitos, algo que no cinema toma maior efeito uma vez que não existe "hype" ou "modinha" e sim arrecadação em bilheteria. Isso, entretanto, não significa que o filme independente seja brilhante e excelente. Depois de um tempo assistindo filmes você aprende que existem filmes bons e ruins com recursos milionários e filmes bons e ruins com recursos escassos. Não é pelo orçamento ou pela (falta de) exposição na mídia que se deve julgar talento em entretenimento. E nisso a crítica falha monumentalmente. Quantos artigos alguém já não leu falando sobre tal filme e a "subjetiva inspiração baseada em filme/obra X de tal diretor"?.

Mesmo levando muita porrada, Kevin Smith foi vendo que o chão em que ele pisa hoje está bem além do lugar em que projetou estar na carreira. Começou a participar de Q&As sobre obra e vida. Palestras que viraram festivais de stand-up, onde ele fala de uma rixa com Tim Burton, sua história sobre um documentário com Prince, a fissura anal sem tratamento que ele sofreu e etc. Ele descobriu que tinha um número incontável (na época) de seguidores que gostariam de ouvir qualquer coisa que ele falasse, seja sobre bastidores do cinema, vida pessoal ou vida alheia, além dos projetos de quadrinhos para DC e Marvel.

O último de seus projetos "paralelos" parece ter se tornado o projeto principal. Uma rede de podcasts que tratam de diferentes assuntos, todos os dias da semana, todas as semanas (Smodcast Podcast Network). Ele sabe quem gosta e quem não gosta de seu trabalho, e depois de ouvir todo tipo de crítica resolveu mandar uma banana e voltar sua atenção para aqueles que se interessam em ouvi-lo. Dentro dessa rede, onde ele bate papo sobre notícias e atualidades com o produtor e amigo Scott Mosier, ou comenta as notícias do cinema com Ralph (Frank) Garman (faz algumas vozes no Family Guy e começou a carreira no Sexcetera), ou ainda faz incursões pelo mundo da reabilitação às drogas com Jason "Jay" Mewes, sobrou espaço para fazer um excelente e barato crossmedia para o lançamento de seu novo filme, de terror, "Red State", visando esse público milimetricamente definido.

O que Smith faz é abrir uma sessão de Q&A no Smodcastle, lugar em que ele grava os podcasts ao vivo, exibe um trecho do filme e sedia um debate entre ele, os presentes e algum membro da equipe de gravação, algo que ele define como escola de cinema de graça. Sem distribuidora para o novo longa, sua estratégia para lançar o filme é fazer um leilão, literalmente, assim que a projeção terminar no festival de Sundance em 2011. Quem pagar mais leva os direitos. Orçado em 5 milhões de dólares, o filme não participa da mostra competitiva, mas caso participasse, seria ainda mais bizarro. Já em seu twitter ele chegou a leiloar a exclusividade de pôsters do filme para quem quisesse hospedar a imagem em seu site e receber os devidos créditos dos outros sites. Os resultados foram arrecadações de quase 8 mil dólares para duas instituições. Metade dos sites que compraram os direitos (entre eles um site pornô), e outra metade dele próprio, igualando a oferta na doação.

Essa mudança de estilo vai fazer bem, e, tomara, mostrar que alguém com talento para escrever roteiros não precisa se limitar a gêneros. E para a crítica não limitar sua carreira só à comédia. Porque entre uma piada e outra existem ensinamentos de todo o tipo sobre como as pessoas se relacionam. Amizade, família, amor... "Existem milhões de mulheres bonitas no mundo, mas nem todas elas te levam lasanha no trabalho. A maioria só trai você".

Enfim, enquanto Janeiro não vem, fica a expectativa do que pode ser o penúltimo filme de Smith. Pelo fato de ser um filme de terror alguma distribuidora no Brasil talvez mostre um interesse maior que durante toda sua carreira. E por fim, em 2012, é a vez de "Hit Somebody", baseado em música homônima, chegar às telas. Kevin Smith completará 18 anos/10 filmes de carreira e provavelmente encerrará seu trabalho como roteirista/diretor por aí. Se espera que esses últimos filmes sejam um merecido ponto de exclamação em sua trajetória. Bem pouco depois do fim do universo.

*Em tempo, o teaser de Red State

5 de dezembro de 2010

Feliz natal, babaca.

Poderia muito bem escrever um texto sobre o término do campeonato brasileiro. Sobre a vitória do Fluminense e do Muricy e o insucesso do Corinthians em seu centenário. Mas assuntos de maior importância e interesse urgem e precisam ser expostos. Sobre o futebol, o tempo e a história dirão.

Mas a bola começa a rolar na última rodada do campeonato brasileiro para definir o título. Emoção garantida eeeeeeeee apiiiiita o árbitro, é fim de luz para um bairro inteiro. A energia elétrica foi expulsa de campo e cumpriu longa suspensão.

O serviço que a AES Eletropaulo oferece para o paulistano é uma merda e merece prêmio. Eu, como cidadão participativo que sou, logo tento entrar em contato com a empresa para avisar a falha, não só para meu interesse, mas também por toda uma região povoada em sua grande maioria por idosos, e sabe-se lá quantos deles não dependem de eletricidade para manter os aparelhos funcionando.

Primeira tentativa: Todas as linhas estão ocupadas. Segunda tentativa: Consigo, através do meu cadastro de número de instalação, avisar que estou sem luz. Mas não fui atendido por nenhum operador para informar/ser informado sobre a situação, mesmo depois de esperar 10 minutos na linha (ultrapassando o tempo limite determinado pelo PROCON). Terceira tentativa: informar via SMS a falta de luz. Nenhuma resposta também.

Aí surgem algumas questões, que precisamos reforçar, principalmente por se tratar de empresa privatizada. Quando eu fico sem eletricidade, a empresa abate a cobrança de ICMS? Os outros serviços que eu pago e dependem de eletricidade, como Internet e TV a Cabo, não deveriam ser compensados por este terceiro (AES), proporcinalmente ao tempo que eu não pude utilizar o serviço por falha dele? Os limites impostos pelas agências reguladoras não são tolerantes demais? Quer dizer, antes que a empresas seja multada, ela pode me cortar a energia de 2,52 a 4,59 horas por mês, 6,10 a 9,19 horas por trimestre e 12,20 a 18,38 horas por ano. Não é demais? Qualquer problema na rede elétrica não demora menos que uma hora para se resolver. Reduzir essa tolerância não significaria uma melhor manutenção preventiva da rede, e portanto menos falhas?

E a fiscalização? Cadê você, ANEEL / Governo Estadual de São Paulo / Municipal? E o reembolso do consumidor/contribuinte/otário aqui? Sempre falo uma coisa: Sabe onde essas empresas ganham a disputa com o consumidor? Dentro de sua própria burocracia. As pessoas pensam que se dar ao trabalho de reivindicar seus direitos é mais caro que pagar por um erro cometido pela empresa.

E enquanto eu estava sem luz por falha de distribuição na rede elétrica pude ver na janela enquanto a noite caia a decoração de natal que colocaram ali na Avenida. Êêêê Filhadaputagem, sempre você!!! Porra, racionamento de energia e horário de verão pra quê, se vão gastar energia com uma merda dessas? Deixa pra fazer isso quem quiser, deixa pros bancos na Av. Paulista que estão com o cu cheio de dinheiro! Montar palco na Paulista, iluminação na Ponte Estaiada, árvore no Ibirapuera? Porra, isso aí não só é um gasto desnecessário como também um belo aperitivo pros sádicos usuários de carro em São Paulo.

Bom trânsito pra você que gosta, seu merda. Enfia uma lâmpada no cu agora e sai pulando de vagalume o resto do ano.

29 de novembro de 2010

Sábado no Parque

O grande barato de ir a um festival de música é que você pode esperar que aconteça qualquer tipo de coisa e ainda assim você sairá satisfeito no final. Bandas que você não espera nada de repente fazem um puta show, bandas que tinham tudo pra destruir fazem a galera cochilar e bandas que podiam causar realmente acabam causando. É uma grande loteria, do tipo assistir a um jogo de futebol no estádio, inclusive com todos os seus problemas de infraestrutura e tal.

O festival Planeta Terra 2010 teve todos esses altos e baixos. Das apresentações que acompanhei, vi um pessoal pouco conhecido quebrando tudo, vi um cara levando ao delírio as mulheres (inclusive aquelas que tem um cromossomo Y), vi veteranos voltando à ativa em boa forma e vi superestrelas não honrando a camisa e ficando num vergonhoso zero a zero.

Primeiro ato
Logo que cheguei ao Playcenter, já dava pra ouvir lá fora o som do Of Montreal. O dia estava bom, não fazia um calor infernal tampouco fazia frio nem dava pinta de que iria chover, como constavam nas previsões. A uns 500 metros da entrada, estacionamos o carro e seguimos a pé por uma rua praticamente deserta. Atravessamos a avenida e já começamos a sentir que estávamos no caminho certo. De repente, uma aglomeração dos tipos mais clichês do rock alternativo surgiu nas nossas vistas. A camiseta do Goo era quase um uniforme por essas bandas, assim como as camisetas pretas Zero, do Smashing Pumpkins. Era como se a rua Augusta tivesse sido transplantada para a zona oeste.

Quando saquei que o Of Montreal já estava fazendo uma barulheira lá dentro, tocando Like a Tourist, nada mais lógico que apressar o passo e ir conferir lá de perto. Aqui é preciso abrir um adendo importante. A entrada foi tranquilíssima, muito bem organizada. Não demoramos um minuto pra pegar a fila e entrar, sendo que os seguranças estavam fazendo uma revista rigorosa. Mais tarde, já dentro do parque, encontrei com um amigo que relatou que quase confiscaram um frasco de perfume de sua namorada por acharem que era algum tipo de substância ilícita. O enrosco só se acalmou quando a autoridade decidiu conferir a procedência do produto e confirmou que o cheiro era de colônia.

Logo após ser revistado, acabei me perdendo da galera. Esse é um expediente normal, diga-se de passagem, mas não quando estou sóbrio. Apesar desse contratempo, fomos lá tomar uma cerveja para esquecer nossos problemas e acompanhar o show. Logo descobrimos que para pegar um veneno, teríamos que trocar a grana por umas fichas. O problema é que teríamos que pegar uma fila que não era das mais amistosas. Perto do guichê, não conseguíamos ver o final dela. Mas era se sujeitar a isso ou ficar sem cerveja, então partimos para o óbvio. Enquanto isso, acompanhava de longe, mas pelo menos acompanhava, a loucura que os caras do Of Montreal aprontavam lá no palco. Para quem estava a fim de ouvir um som dançante, os caras não decepcionaram e fizeram um show bem legal. Pelo telão, só vi uns caras travestidos e uma certa piração sem sentido no palco.

A noite cai
Cerca de meia depois, por volta das oito e meia, começou o show do Mika. Foi fácil perceber isso. Estávamos no fundo da pista, quando vimos homens, mulheres e homens-mulheres, todos ensandecidos, correndo e gritando histericamente em direção ao palco principal.

Mika vestia uma jaqueta preta sobre um conjunto completo de camisa e calça branca. Isso me remeteu ao Freddie Mercury. Por acaso, seus trejeitos e sua presença de palco também me remeteram a Freddie Mercury. Talvez não fosse um mero devaneio meu. O fato é que eu prestei atenção somente nas primeiras músicas do show e pelo que eu ouvi elas não eram ruins. Não chegam a ser um Queen, mas não incomodam. De qualquer forma, é preciso dizer que o cara tem uma baita presença de palco que, junto com o efeito de luzes, é capaz de incendiar qualquer show independente de sua qualidade sonora.

Mas Mika não era nada perto do que vinha a seguir. O Phoenix era uma das bandas mais esperadas, pelo menos pra mim. Ainda em meados de julho, quando soube que os caras iriam tocar no Brasil, não tive dúvidas e garanti meu ingresso. Wolfgang Amadeus Phoenix, o último CD deles, lançado em 2009, é uma das coisas mais legais que surgiram nos últimos anos, uma pequena pérola que ainda não foi descoberta. Como era óbvio que eles tocariam esse álbum inteiro, isso por si só já valeria a entrada.

Então, meia hora antes do show, tratamos de encher o caneco mais uma vez e partir pro meião. Um colega resolveu acender uma vela só para dar uma graça maior. Estava tudo pronto, só faltava a banda, que demorou quase quinze minutos para entrar no palco. Para quem esperou meses para ver eles ao vivo até que não era lá muita coisa, mas reclamar aos berros da pontualidade francesa também não faz mal a ninguém.

Até que um estranho barulho começou a sair das caixas de som e os primeiros acordes de Liztomania começam a tocar, ainda com as luzes apagadas. O público foi ao delírio. A luz finalmente se acendeu e o show começou. Quem não sabia a letra começou a cantar junto. Quem nunca tinha ouvido os caras começou a dançar. Foi um começo destruidor, com certeza.

Depois sacaram espertamente Lasso. Nessa hora me bateu uma sensação forte de dejà vú. Talvez porque essa sequência seja igualzinha do EP ao vivo gravado em Sidney. Inclusive em Liztomania, ele também diz “We are Phoenix from Paris, France. Clap your hands with us, come on”. Mas aí eles colocaram na roda o Long Distance Call e quebraram essa sequência, frustando minhas expectativas negativas.

O fato é que os caras mandam bem, sabem agitar o público. Mesmo Love Like a Sunset, uma música que sempre considerei mais fraca, por ser uma quebra muito longa dentro do disco, naquele momento do show ela ganhou um outro sentido. Talvez pela vibração ou pelo clima da galera, sei lá.

Estávamos próximos de uma hora de apresentação e o fim se aproximava. Isso se confirmou quando tocaram a fodástica 1901, com direito a um mosh gigante do vocalista Thomas Mars no final enquanto a banda continuava fazendo um som, com direito a samplers com loops insanos da música que davam uma atmosfera de festa e o caramba. Ele ainda subiu em uma torre que ficava a poucos metros (e muitos corpos) da gente, acenando para o público e depois voltando aos braços da galera – para o desespero dos seguranças, que naquele momento já tinham ligado o foda-se e queriam mais é que esse francês se quebrasse todo. Sem esse encerramento o show já seria bom. Depois dessa, ficou épico.

Em seguida, entrou Pavement. Legítimos representantes do rock noventista, eles se reuniram novamente este ano depois de um bom tempo sem tocar. E voltaram em grande estilo, mostrando que ainda estão em grande forma. Começaram logo com Gold Soundz, fazendo o público delirar. Aliás, musicalmente não houve problema algum. Os grandes hits do Pavement estavam lá: Unfair, Stereo, Conduit for Sale!, In The Mouth a Desert, Cut Your Hair, enfim uma porrada de canções boas. E o público cantava junto e vibrava. Na minha frente, dois caras estilo playboy bombado pareciam moleques da quinta-série veteranos em matinê de tanto que pulavam e faziam escândalo. Voltando ao show, senti uma diferença legal em comparação com os discos de estúdio. Ao vivo o som parece muito mais pesado, com o baixo marcando forte presença. Sem falar que os caras tocam bem, e isso fica perceptível ao vivo. E é curioso que embora Stephen Malkmus seja o vocalista da banda, ele não se porta como um frontman, dando espaço para todos se destacarem.

O fim
Depois do Pavement, entrou seu arquirrival Smashing Pumpkins, a banda mais conhecida da noite, sem dúvidas. Já que estava lá, não me importaria em assistir ao show deles, mas as duas apresentações anteriores realmente quebraram meu corpo e para piorar ainda tinha 20 reais em fichas pra gastar. Convertendo isso, seriam quatro cervejas Devassas de temperatura morna para engolir e não tomar um preju. Desafio aceito.

Não sei se foi a mistura de álcool e da minha raiva contra Billy Corgan que me fez achar o show uma bosta. Os caras colocaram poucos hits no setlist, preferindo tocar o som mais recente deles, e a palavra carisma certamente não consta no dicionário dos caras. Mas logo depois, soube que não foi somente eu que achei o show uma bosta. Minha timeline do Twitter e do Facebook não me deixam mentir. Quem foi ao Planeta Terra só para assistir os caras realmente tomou no cu nervoso. Mas quem conseguiu aproveitar ao máximo o festival certamente não tem muito do que reclamar.

A organização foi excelente, tirando por um ou outro problema. Por exemplo, quando fomos tentar entrar no estacionamento oficial e havia uma fila caótica de carros e ninguém pra dar uma orientação que seja. E só tinha um stand vendendo cerveja, o que logicamente lotou o lugar e fez com que a tarefa de se embebedar se tornasse um pouco mais complexa. Mas de resto, pela quantidade de gente que participou, até que o saldo foi positivo. Sem falar que aqueles que não estavam a fim de assistir a algum show poderiam ir nos brinquedos e tomar um sorvete como se estivessem num parque de diversões normal.

Já com tudo encerrado, lá pelas quatro da manhã, com o corpo doendo, peguei um dos busões que levavam até o metrô Barra Funda. No corredor que dá acesso às catracas, via-se uma corja caída sobre os cantos da estação. Pareciam zumbis que foram abatidos após uma tentativa frustada de comer cérebros frescos. Já eram quatro e meia e ainda faltava poucos minutos para abrir a estação. Em um ambiente normal, o pessoal já estaria tomado em fúria e se revoltado contra o establishment. Mas lá estavam todos em paz, anestesiados pela experiência que acabaram de presenciar. Certamente seus corpos estavam em um lugar, mas suas mentes vagavam pelo universo. Nos vagões, apesar de lotado, não havia pressa, empurra-empurra como em qualquer metrô às seis horas da tarde. Muitos, inclusive eu, se apoiavam de pé nos cantos do vagão e tentavam dormir enquanto a inércia fazia seu jogo sujo.

16 de novembro de 2010

Resenha semi-sóbria: Scott Pilgrim contra o Mundo

Scott Pilgrim contra o Mundo é um belo filme, cara, não deixe de assistir. Pode ser por torrent ou o que for, mas não deixe de assistir. Se você curte quadrinhos, rock alternativo, videogame, comédia non-sense, a merda que for, assista. Vai perder um dos filmes do ano, fácil.

O lance do Scott Pilgrim é que a história é do caralho. Quando um roteiro é bom, esqueça, o filme tem tudo para não ser ruim. É como já dizia o grande Lars Von Trier em seu Dogma 95. A pegada tem que ser a história, não os efeitos gráficos, aquele lance hollywoodiano de som surround 5.1 e cortes ultrarrápidos nas cenas, fazendo com que não se saiba o que está acontecendo, mas ao mesmo tempo não te deixando entediado pois todo aqueles estímulos sensoriais criam uma profusão de informações que não querem dizer nada, mas que para o seu cérebro parece um monte de coisa legal e o caramba. Apesar de que Scott Pilgrim tem tudo isso aí. Cortes, sons, cores, efeitos especiais e música no talo. Mas também tem uma puta história, como já dizia Lars Von Trier, então tá tudo numa boa.

Gastei um tempão elogiando a história, só que é importante dizer que tudo isso se deve graças ao gibi. Scott Pilgrim, o gibi, é tremendamente bem elaborado. Nele tem todos aqueles lances da juventude. A questão dos relacionamentos fracassados, do amor platônico, dos amigos que te chamam de perdedor, das jogatinas de videogame, da vontade de montar uma banda e sair por aí tocando e fazendo sucesso. Tema mais universal que esse não existe, é a jornada do herói pós-moderno. Mas ao mesmo tempo, a história é totalmente psicodélica. Basicamente, Scott Pilgrim é um cara que, pra ficar com uma mina misteriosa, Ramona Flowers, precisa derrotar seus sete ex-namorados do mal, que possuem poderes sobrenaturais e uma sede de vingança que sabe-se lá de onde tiraram. Some a isso diálogos bizarros e uma dose sagaz de referências nerds e temos aí um belo filme, segundo a cartilha de Kevin Smith.

Tendo uma base dessas, o filme só não ficaria bom se o diretor errasse muito na mão. Mas o lance é que Edgar Wright não só captou a essência do gibi, com seu realismo non-sense, como adaptou a linguagem dos quadrinhos pro cinema. Por exemplo, as onomatopeias são usadas pra valer. Assim, quando o telefone toca, além de ouvir o barulho do telefone tocando, você ainda pode ler o triiiiiim em letras estilizadas saindo do aparelho. Sem falar nos sinais visuais com comentários que aparecem de tempos em tempos, como se houvesse um narrador onisciente a zombar de tudo e de todos. E tem ainda as piadas que são tão rápidas e certeiras quanto nas tirinhas de três quadros.

Lógico que como em qualquer adaptação existem diferenças com o texto do gibi e do filme. Tanto que eles até fazem uma piada sobre isso. Tem uma hora em que um personagem hipster solta uma frase solta mais ou menos assim: “A HQ é muito melhor que o filme”. Esse personagem é tipo aquele crítico mongol que acha que tudo o que ele fala é supercool quando na verdade é um monte de merda em estado de putrefação, mas que muitos caras tão idiotas quanto acabam caindo no conto dele pois não percebem que ele está falando é merda, e das boas, não uma merda qualquer.

Essa crítica à crítica faz sentido, porque é óbvio que muitos fanboys ortodoxos vão reclamar dizendo que eles mudaram um monte de coisa da HQ. Lógico que sim, porra, a HQ é gigantesca e o filme tem duas horas. Você quer que os caras façam que nem no Sete Samurais ou no Dr. Jivago, que tem umas quatro horas de filme, com direito a intermission pra galera fazer uma pausa espiritual e depois voltar sem compromisso? Nada contra, porque são dois filmões, estão no meu top 10 de grande filmes. Mas isso não rola hoje em dia. Talvez se eles dividissem a história no meio, como no último Harry Potter, mas o risco parece ser muito alto, já que a produtora pode tanto lucrar em dobro quanto fracassar em dobro. O que foi até uma decisão acertada já que Scott Pilgrim não foi muito bem nas bilheterias americanas e correu o risco de não estrear no Brasil – embora, tecnicamente, tenha estreado só em São Paulo e, ainda por cima, em duas salas. Mas voltando ao tópico, penso que a história no cinema ficou bem amarrada, mesmo omitindo ou alterando o texto do gibi, fazendo com quem nunca tenha lido curta tanto o filme quanto quem já leu.

Tem ainda a trilha sonora. Tem Beck produzindo o som do Sex Bob-omb, a banda de garagem do Scott que tem o típico som sujo de banda de garagem. Tem Frank Black, do Pixies, tocando a excelente “I Heard Ramona Sing”. Tem o Metric fazendo a música do The Clash at Demonhead. Tem o Broken Social Scene como o Crash and The Boys. E tem o Plumtree, com a música que inspirou o nome do personagem-herói, pois o autor do gibi, Brian Lee O'Malley, além de ser um baita nerd também é fã de rock e chegou a conhecer de perto a cena alternativa de Toronto retratada na história.

Por fim, o espírito é esse. O filme é bom, a adaptação é boa, lógico que o gibi é melhor, mas não vamos cair nessa tolice de crítico de bosta que gosta de falar merda como se fosse um negócio legal pra cacete, a trilha sonora é do caralho, os atores são do caralho, com Michael Cera interpretando Michael Cera. De qualquer forma, cara, pode escrever: Scott Pilgrim certamente ainda será comentado e lembrado por muitos anos, seja dentro do circuito indie-cult, seja no mainstream (aposto mais no primeiro).

29 de outubro de 2010

Trololó parte 3

Desde que começou a campanha eleitoral, a oposição tem divulgado que o PT é contra a liberdade de imprensa. Até faz sentido, porque historicamente só a esquerda promoveu a censura. Mas há uma coisa nisso tudo que não se encaixa: a afirmação deles é baseada no relatório do PNDH-3, no qual um dos artigos traz a defesa ao controle social da mídia.

Ora, qualquer bixo casperiano sabe que controle social da mídia não tem nada a ver com censura. Para ficar mais claro, vamos por partes. A mídia em questão são os serviços públicos de radiodifusão que utilizam as concessões outorgadas pelo Estado. O que se pretende é regulamentar a utilização dessas concessões de rádios e emissoras de televisão por empresas privadas. Portanto, os jornais estão fora da parada.

A justificativa dos defensores dessa ideia, como Venício de Lima, é que a norma consta na Constituição de 1988, mas nunca foi promulgada. Na Constituição está escrito que o detentor das concessões deve promover a cultura regional, estimular a produção independente, regionalizar a produção cultural, artística e jornalística, e respeitar os valores éticos e sociais, além de proibir monopólios e oligopólios dos meios de comunicação, entre outras coisas.

Sem o controle social da mídia, a única alternativa ao cidadão que esteja insatisfeito com o que assiste é boicotar ou enviar um e-mail de reclamação à emissora e esperar que ela responda, medidas válidas mas que não resolvem totalmente a questão. Por outro lado, no Reino Unido, a agência reguladora Ofcom tem poder de punir as empresas midiáticas que veicularem conteúdo ofensivo ou que não estejam dentro das normas.

Nesse sentido, é de se pensar o que tem a temer as empresas que são contra a regulação da mídia, como as emissoras de direita e as igrejas evangélicas. Assim como é de se pensar porque quase a totalidade da imprensa está do lado de Serra.

Está registrado no Diário Oficial do Estado de São Paulo que o governo do PSDB fechou contratos milionários, sem licitação, de assinaturas de jornais e revistas para as escolas. O total dessa transação, desde 2004, foi R$ 250 milhões. Por curiosidade, a Carta Capital não foi agraciada nessa negociata. Já a Globo conseguiu uma bolada de R$ 58 milhões com contratos do Telecurso, da editora Globo e de otras cositas más.

De boa, se isso acontecesse na Venezuela, Hugo Chávez seria enforcado em praça pública. Como aconteceu em São Paulo, tá tudo bem.

28 de outubro de 2010

Trololó parte 2

Invariavelmente, sempre em época de eleição, o espírito intelectual do Pelé baixa no corpo da maioria das pessoas, que não tergiversam e vomitam com toda pompa e estilo que o brasileiro não sabe votar. Na verdade, na boca da classe média, isso soa mais como “pobres não sabem votar”, já que quando se trata de generalizações o autor automaticamente se torna exceção à regra.

Não que o brasileiro seja um ótimo votante, mas isso mostra o quão soberba é a nossa querida classe média. Por exemplo, não é incomum ouvir reclamações, com uma certa razão, da alta taxa de impostos no Brasil. Qualquer cidadão que pira num iPod ou mesmo em um simples Big Mac sabe que pagamos muito caro por esses produtos em comparação com outros países. Daí para acusar o governo de corrupto é um pulo. E sempre que sai uma matéria sobre tributos, o pessoal trata de repetir os mantras da imprensa como se fosse a liturgia da palavra, sendo o Impostômetro da Associação Comercial de São Paulo sua cruz.

O problema é que a questão central sobre o tributo não é debatida a sério nos meios de comunicação. Em geral, os jornalistas embarcam na ideia do empresariado de simplesmente abaixar o nível dos impostos, como se isso pudesse resolver tudo. Só que isso é inviável para o funcionamento da máquina estatal, que, com pouco dinheiro em caixa, não poderá atender a toda população e ficará à mercê dos próprios empresários.

O lance do imposto no Brasil é seu sistema injusto. Segundo um estudo do Sindifisco, os impostos indiretos representam 54,9% da carga tributária recolhida no país, enquanto que os impostos diretos são apenas 30,66% de tudo que o governo arrecada. Isso merece uma rápida explicação: impostos indiretos são atreladas ao consumo, portanto estão embutidos no preço de um produto. Dessa forma, uma pessoa que ganha R$ 100 paga o mesmo tanto de tributo em um saco de arroz que alguém que ganha R$ 100 mil. Já os impostos diretos são relativos ao patrimônio e à renda do cidadão. Assim, quanto mais rica é a pessoa, mais taxa ela paga. Só para efeito de comparação, nos EUA e no Canadá cerca de metade da carga tributária é de imposto direto, enquanto que 17% são de tributos sobre o consumo.

Como se tudo já não fosse ridículo demais, existem ainda algumas distorções. Por exemplo, jatinhos, helicópteros, iates e lanchas de luxo não pagam IPVA, já que o imposto incide somente sobre veículos terrestres. Além disso, o imposto sobre grandes fortunas (IGF) até hoje não foi regulamentado, apesar de constar na Constituição de 1988. A proposta mais concreta partiu dos deputados do PSOL em 2008, e está para ser votada na Câmara.

Isso se for colocada em pauta, porque qualquer tentativa de mudança mais justa no nosso sistema é um parto. Em 2003, o governo Lula enviou para o Congresso uma proposta de reforma tributária que alterava essas distorções. Porém, todas os artigos com mudanças nos impostos diretos foram retalhados ainda nas comissões temáticas pelos políticos conservadores e ricaços.

Depois disso, a única medida (que eu me lembre) que Lula conseguiu implementar foram as novas alíquotas no IR, que abaixou o imposto para quem ganha menos. Porém, ele não aumentou nossa alíquota máxima, de 27,5%, que ainda está longe da do Chile (40%) e da Argentina (35%).

Se o Lula fracassou em tornar nosso sistema tributário mais justo, FHC conseguiu ser pior. Ele mudou a legislação de maneira a atrair maior investimento estrangeiro, oferecendo isenção fiscal na remessa de lucros para o exterior e em aplicações do capital estrangeiro. Também ofereceu renúncia fiscal para distribuição de lucros entre sócios de pessoas juridicas. Dessa forma, um alto funcionário pode declarar ao Fisco que recebe R$ 1.000, quando na verdade ganha R$ 10 milhões por ano de lucros da empresa e, assim, não paga um centavo de imposto de renda.

Além disso, FHC cortou a alíquota de 35% do IR, fazendo com que os ricos paguem tanto quanto a classe média. Em contrapartida, durante a crise cambial de 1999, o então presidente, entre outras medidas, aumentou os impostos indiretos, fazendo a carga tributária saltar de 25% para 37% do PIB.

A proposta que o Sindifisco defende é simples: acabar com as isenções de imposto sobre pessoa jurídica e do capital financeiro, manutenção da correção da inflação na tabela do IR, taxar as grandes fortunas e os veículos de luxo e, aí sim, diminuir gradativamente os impostos sobre o consumo. Assim, o impacto sobre o orçamento nacional seria zero e a classe média pagaria menos imposto do que agora. Mas é preciso explicar tudo isso pra eles.

26 de outubro de 2010

Trololó

Se eu fosse um analista político ou alguma coisa séria do tipo, estudaria o fenômeno do anti-petismo em São Paulo. Como não sou, ficarei aqui somente com minhas teses de boteco.

Antes de mais nada, vamos aos fatos: o estado de São Paulo é governado há 16 anos pelo PSDB. De lá pra cá, muita coisa mudou – em alguns aspectos para melhor e outros para pior. Mas, no geral, é difícil encontrar algum paulista que esteja realmente satisfeito em morar aqui.

Lógico que é importante sermos justo, já que nem tudo que é negativo é por culpa exclusivamente do PSDB. Mas mesmo o pior dos analfabetos políticos sabe que tudo tem uma causa, motivo, razão e circunstância, como diz o outro.

São Paulo foi o estado que mais teve empresas estatais privatizadas do Brasil. Mais de vinte foram repassadas para o empresariado, cuja arrecadação rendeu R$ 77,5 bilhões de 1995 a 2006. Esse montante fora usado para o pagamento da dívida pública que, mesmo assim, cresceu 33% em dezembro de 2005. A última privatização no Estado, salvo engano, foi a venda do banco Nossa Caixa por R$ 5,386 bilhões para o Banco do Brasil, em 2008, quando o Serra ainda estava no comando. Só para constar, a Nossa Caixa não registrava prejuízos e em 2007 desembolsou R$ 2 bilhões para ter exclusividade no pagamento de salários de funcionários públicos estaduais.

O resultado disso é que com menos empresas estatais para servirem de fonte de financiamento, menos dinheiro o estado terá para gastar e, assim, menor serão suas despesas. Despesas menores significa serviços públicos piores para a população, principalmente para aqueles que dependem mais do Estado. Um exemplo disso acontece na educação, em que professores temporários representam 46% no quadro da rede pública estadual. Ganhando menos e sem um plano de carreira ou estabilidade, muitos desses docentes também não tem condições de dar aulas.

Há casos também em que todos são afetados, como na segurança pública. As remunerações dos policiais são modestas em comparação com outros estados com PIB per capita menor que o de São Paulo. O resultado disso é mais corrupção e menos sucesso no combate ao crime. Quer dizer, no fim todo mundo se fode.

Isso porque ainda não falamos nos preços e serviços oferecidos pelas empresas privatizadas. A telefonia e a internet no Brasil estão entre as mais caras do mundo, além da nossa banda larga ser uma das mais lentas. E também, graças à privatização, temos que desembolsar mais para pagar a conta de luz.

Isso tudo pode soar bastante óbvio, mas os adversários do PSDB foram tão rasos ao debater esse assunto durante a campanha que eles pareciam não fazer questão de ganhar a eleição. Ninguém mostrou como as coisas realmente acontecem em São Paulo. Pois é lógico que a privatização corre nas veias tucanas assim como o superfaturamento está no sangue malufista. É uma questão de ideologia dos caras, que mesmo se mostrando fracassada e contraditória, eles ainda insistem em seguir pelo mesmo rumo, tal qual os defensores do comunismo soviético. Mesmo assim ninguém, exceto o Plínio, tratou de colocar a ideologização no debate.

Mas a questão central é saber os motivos que levam os paulistas e 30% da população brasileira a darem ainda um voto de confiança a esse projeto político. Como eu falei, o problema do PSDB não é moral, ético ou coisa assim, mas puramente ideológico. Portanto, será que 51% da população de São Paulo realmente acha certo ficar privatizando aos montes nossas empresas estatais quando elas poderiam servir melhor à população se forem administradas corretamente? Se sim, os paulistas merecem estar no buraco em que se enfiaram.

É lógico que o PT também não é algo que se diga “minha nossa, como eles são esquerdistas”, mas eles conseguem ser muito melhores do que a direita-balcão-de-negócios. Só que, por alguma razão inexplicável, falar em PT em São Paulo é como falar de camisinha em uma igreja. Corre-se o risco de rolar uma malhação de Judas sem efeitos especiais. Cada um com seus dogmas.
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