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13 de novembro de 2013

Uma volta no Planeta Terra


Prometi a mim mesmo que não iria escrever sobre o Planeta Terra, primeiro porque certamente há textos por aí muito melhores e mais completos sobre o festival escrito por pessoas muito mais habilitadas para fazê-lo do que eu, e segundo porque não queria fazer qualquer coisa que soasse próxima daquilo que os malditos jornalistas ditos musicais gostam de fazer por aí, seguindo as regrinhas das conceituadas e endeusadas revistas gringas, batendo palmas para os favoritos do Pitchfork e abusando dos termos bizarros e da cretinice rebuscada nas resenhas ao invés de fazer o básico, o arroz e feijão da crítica musical.

Ok. Mas o fato é que as coisas foram além do combinado desde o começo. Os shows foram muito bons, o clima estava quente, mas deu uma amenizada, o local escolhido também ajudou, e ir e voltar de metrô de um show é sempre algo positivo. E ainda tivemos Blur e Beck quebrando tudo em cima do palco, fãs da Lana del Rey fazendo um alegre piquenique e deixando o ambiente mais bonito e a sempre velha desculpa para usar entorpecentes legais e ilegais, tudo isso enquanto rolava uma sonzera de fundo no momento em que você só quer saber se vai dar tempo para ir ao banheiro, voltar para pegar uma cerveja e ir para o outro palco ver o próximo show.

Tudo isso é o clima de um festival, acredite. É o tipo de experiência que faz sentido para quem quer sair para curtir uma música. Se por um lado shows individuais são melhores para quem é fã do artista, principalmente para um artista que sabe fazer shows, os festivais são legais como uma experiência em si mesma. Públicos se misturam e personagens loucos aparecem, tipo o cara que estava fazendo cosplay do Liam Gallagher circa 1995, ou o maluco que levou uma bandeira do Vasco e ficou levantando ela no meio das apresentações. E há lógico aquela galera que não sabe o que está fazendo lá, mas é aquela história: pagou o ingresso, faz o que quiser.

Mas vamos falar do que importa. Pisei dentro do evento e já dava para ouvir o Palma Violets fazendo uma barulho num dos palcos. O público ainda era escasso e estava mais curioso do que apreciando, mas a banda não estava nem aí. Mostraram que tem boas músicas na manga e uma bela qualidade sonora. Mas eles ainda são novos e se tem uma coisa em que a experiência ainda conta é para ter presença de palco e ser goleiro de time grande. Por isso esse tipo de show funciona melhor em espaços pequenos, tipo Cine Joia ou Beco, onde a banda tem mais chances de crescer e agitar mais o público.

Era um bom esquenta, até mesmo para o que ia rolar depois: Travis. Aí sim, uma galera experiente. Eles sabem como fazer um show, são simpáticos e amáveis com o público e certamente agradaram os fãs, que cantaram junto em diversos momentos. Mandaram algumas boas canções no começo e depois emendaram com alguns hits mais deprê, mas aí parei de prestar atenção e fui descansar em meio ao chão de pedregulhos, mas quem viu ficou feliz, segundo os relatos. Mas nada disso era minimamente próximo do que rolou em seguida.

Lana del Rey tem um público cativo e uma bela saúde. E a meninada ficou louca quando ela subiu ao palco, todo adornado com palmeiras. Entrou em estado de catarse quando ela se aproximou da grade e ficou uns bons minutos lá, sendo praticamente venerada. Era como uma estrela de cinema, ou algo do tipo, em meio a uma plateia ensandecida para tocar seu ídolo. Da minha parte, queria tocá-la de outro jeito, e como isso não era possível, fomos embora para ver o Beck.

Ainda estava na fila da cerveja quando Devils Haircut já soava no palco. Me pergunto que tipo de monstro faria algo desse tipo? Começar qualquer show com Devils Haircut é não ter compaixão com o coração fraco alheio. De qualquer maneira perdemos a música, mas a sequência foi arrebatadora com Novacane e One Foot In The Grave na gaita, e Loser, a canção-hino de uma geração bem
esquisita, sendo cantada em coro.

De novo bato na tecla do cara que tem experiência e sabe como conduzir seu público com maestria. Ele usa o palco para hipnotizar a plateia e fazer dela seu servo particular. Deitado sobre o palco, Beck conta histórias de como é sair dos EUA em turnê, chegar à América do Sul longe de tudo e todos, tocar no Chile, na Argentina e no Brasil, e depois emenda: “Alguém aqui quer ser meu amigo?”, no que todos respondem em uníssono: “Sim!”. Nada mal, seu loser. E em dado momento, ele lança a belíssima Lost Cause e saca da manga um Billie Jean, dele mesmo, o Michael Jackson, mas nessa hora estava de novo preso na fila da cerveja. E como se ainda precisasse finalizar em alto estilo rolou o What’s is At? só para quem acha que ele não tem bons hits para tirar da cartola e fazer a alegria da moçada. Tomara que ele tenha se divertido, porque me diverti pacas.

A verdade é que qualquer coisa depois disso seria lucro. O Blur poderia ter tocado três músicas e ido embora que ainda teria sido um dia bacana. Mas não, os caras acharam de bom tom entregar tudo aquilo que eles tinham, e isso realmente era o mais sensato a se fazer. Eles começaram com Girls & Boys, do Parklife. Maravilha. Eles só quiseram tirar o atraso de anos sem vir tocar no Brasil com a faixa que abre o melhor CD deles. Se isso não eleva a expectativa a níveis desnecessariamente altos, não sei o que mais faria.

Algumas canções, depois de Beetlebum, eles emendam duas obras primas do 13: Coffee and TV e Tender, e este foi um momento insano, senhoras e senhores. Uma sensação estranha sobe pela espinha só de lembrar. Os primeiros acordes de Tender estavam sendo tocados quando o público já cantava em alto e bom som: “Oh my baby, oh my baby, oh my”. Damon Albarn não tinha muito o que fazer nessa hora. Graham Coxon continuou tocando sua guitarra, daquele jeito como quem está alheio ao que está acontecendo à sua volta. Todos aguardavam o momento certo para entrar. Poderia ter demorado cinco, dez minutos, tanto faz, o tempo já não fazia mais sentido. Mas foi então que Albarn começou: “Tender is the night…” e aí não havia como parar.

Até que veio o refrão (“Come on, come on, come on, get through it...”) sendo entoado como um mantra que poderia ter sido ouvido até pelos confins da zona sul da cidade. Se a banda tivesse parado de cantar, é certo que ninguém notaria. E isso até aconteceu no finalzinho da canção, quando a parte instrumental continuava viva por um tempo e a galera mandava "Oh my baby" sem parar. Quem não curtiu esse momento pode ter certeza que não entendeu nada.

Se o show estivesse acabado ali, todos poderiam sair de lá contentes e realizados. Mas ainda tivemos Parklife, End of a Century e, claro, Song 2, no qual, por instinto, fui envolvido em uma bate-cabeça brit-pop hardcore que há anos não entrava. Pessoas ao redor não pareciam ter curtido essa explosão de irracionalidade sem sentido e sanguinária e começaram a se afastar da nossa roda. Mas todos sabem que a roda de pogo é o supra-sumo da violência pacífica, tanto que minha única sequela foi uma dor nas costas (que já me incomodava desde o começo do dia, importante ressaltar) e uma breve falta de ar. O tempo faz mal às pessoas, pelo menos no meu caso.

5 de dezembro de 2010

Feliz natal, babaca.

Poderia muito bem escrever um texto sobre o término do campeonato brasileiro. Sobre a vitória do Fluminense e do Muricy e o insucesso do Corinthians em seu centenário. Mas assuntos de maior importância e interesse urgem e precisam ser expostos. Sobre o futebol, o tempo e a história dirão.

Mas a bola começa a rolar na última rodada do campeonato brasileiro para definir o título. Emoção garantida eeeeeeeee apiiiiita o árbitro, é fim de luz para um bairro inteiro. A energia elétrica foi expulsa de campo e cumpriu longa suspensão.

O serviço que a AES Eletropaulo oferece para o paulistano é uma merda e merece prêmio. Eu, como cidadão participativo que sou, logo tento entrar em contato com a empresa para avisar a falha, não só para meu interesse, mas também por toda uma região povoada em sua grande maioria por idosos, e sabe-se lá quantos deles não dependem de eletricidade para manter os aparelhos funcionando.

Primeira tentativa: Todas as linhas estão ocupadas. Segunda tentativa: Consigo, através do meu cadastro de número de instalação, avisar que estou sem luz. Mas não fui atendido por nenhum operador para informar/ser informado sobre a situação, mesmo depois de esperar 10 minutos na linha (ultrapassando o tempo limite determinado pelo PROCON). Terceira tentativa: informar via SMS a falta de luz. Nenhuma resposta também.

Aí surgem algumas questões, que precisamos reforçar, principalmente por se tratar de empresa privatizada. Quando eu fico sem eletricidade, a empresa abate a cobrança de ICMS? Os outros serviços que eu pago e dependem de eletricidade, como Internet e TV a Cabo, não deveriam ser compensados por este terceiro (AES), proporcinalmente ao tempo que eu não pude utilizar o serviço por falha dele? Os limites impostos pelas agências reguladoras não são tolerantes demais? Quer dizer, antes que a empresas seja multada, ela pode me cortar a energia de 2,52 a 4,59 horas por mês, 6,10 a 9,19 horas por trimestre e 12,20 a 18,38 horas por ano. Não é demais? Qualquer problema na rede elétrica não demora menos que uma hora para se resolver. Reduzir essa tolerância não significaria uma melhor manutenção preventiva da rede, e portanto menos falhas?

E a fiscalização? Cadê você, ANEEL / Governo Estadual de São Paulo / Municipal? E o reembolso do consumidor/contribuinte/otário aqui? Sempre falo uma coisa: Sabe onde essas empresas ganham a disputa com o consumidor? Dentro de sua própria burocracia. As pessoas pensam que se dar ao trabalho de reivindicar seus direitos é mais caro que pagar por um erro cometido pela empresa.

E enquanto eu estava sem luz por falha de distribuição na rede elétrica pude ver na janela enquanto a noite caia a decoração de natal que colocaram ali na Avenida. Êêêê Filhadaputagem, sempre você!!! Porra, racionamento de energia e horário de verão pra quê, se vão gastar energia com uma merda dessas? Deixa pra fazer isso quem quiser, deixa pros bancos na Av. Paulista que estão com o cu cheio de dinheiro! Montar palco na Paulista, iluminação na Ponte Estaiada, árvore no Ibirapuera? Porra, isso aí não só é um gasto desnecessário como também um belo aperitivo pros sádicos usuários de carro em São Paulo.

Bom trânsito pra você que gosta, seu merda. Enfia uma lâmpada no cu agora e sai pulando de vagalume o resto do ano.

29 de novembro de 2010

Sábado no Parque

O grande barato de ir a um festival de música é que você pode esperar que aconteça qualquer tipo de coisa e ainda assim você sairá satisfeito no final. Bandas que você não espera nada de repente fazem um puta show, bandas que tinham tudo pra destruir fazem a galera cochilar e bandas que podiam causar realmente acabam causando. É uma grande loteria, do tipo assistir a um jogo de futebol no estádio, inclusive com todos os seus problemas de infraestrutura e tal.

O festival Planeta Terra 2010 teve todos esses altos e baixos. Das apresentações que acompanhei, vi um pessoal pouco conhecido quebrando tudo, vi um cara levando ao delírio as mulheres (inclusive aquelas que tem um cromossomo Y), vi veteranos voltando à ativa em boa forma e vi superestrelas não honrando a camisa e ficando num vergonhoso zero a zero.

Primeiro ato
Logo que cheguei ao Playcenter, já dava pra ouvir lá fora o som do Of Montreal. O dia estava bom, não fazia um calor infernal tampouco fazia frio nem dava pinta de que iria chover, como constavam nas previsões. A uns 500 metros da entrada, estacionamos o carro e seguimos a pé por uma rua praticamente deserta. Atravessamos a avenida e já começamos a sentir que estávamos no caminho certo. De repente, uma aglomeração dos tipos mais clichês do rock alternativo surgiu nas nossas vistas. A camiseta do Goo era quase um uniforme por essas bandas, assim como as camisetas pretas Zero, do Smashing Pumpkins. Era como se a rua Augusta tivesse sido transplantada para a zona oeste.

Quando saquei que o Of Montreal já estava fazendo uma barulheira lá dentro, tocando Like a Tourist, nada mais lógico que apressar o passo e ir conferir lá de perto. Aqui é preciso abrir um adendo importante. A entrada foi tranquilíssima, muito bem organizada. Não demoramos um minuto pra pegar a fila e entrar, sendo que os seguranças estavam fazendo uma revista rigorosa. Mais tarde, já dentro do parque, encontrei com um amigo que relatou que quase confiscaram um frasco de perfume de sua namorada por acharem que era algum tipo de substância ilícita. O enrosco só se acalmou quando a autoridade decidiu conferir a procedência do produto e confirmou que o cheiro era de colônia.

Logo após ser revistado, acabei me perdendo da galera. Esse é um expediente normal, diga-se de passagem, mas não quando estou sóbrio. Apesar desse contratempo, fomos lá tomar uma cerveja para esquecer nossos problemas e acompanhar o show. Logo descobrimos que para pegar um veneno, teríamos que trocar a grana por umas fichas. O problema é que teríamos que pegar uma fila que não era das mais amistosas. Perto do guichê, não conseguíamos ver o final dela. Mas era se sujeitar a isso ou ficar sem cerveja, então partimos para o óbvio. Enquanto isso, acompanhava de longe, mas pelo menos acompanhava, a loucura que os caras do Of Montreal aprontavam lá no palco. Para quem estava a fim de ouvir um som dançante, os caras não decepcionaram e fizeram um show bem legal. Pelo telão, só vi uns caras travestidos e uma certa piração sem sentido no palco.

A noite cai
Cerca de meia depois, por volta das oito e meia, começou o show do Mika. Foi fácil perceber isso. Estávamos no fundo da pista, quando vimos homens, mulheres e homens-mulheres, todos ensandecidos, correndo e gritando histericamente em direção ao palco principal.

Mika vestia uma jaqueta preta sobre um conjunto completo de camisa e calça branca. Isso me remeteu ao Freddie Mercury. Por acaso, seus trejeitos e sua presença de palco também me remeteram a Freddie Mercury. Talvez não fosse um mero devaneio meu. O fato é que eu prestei atenção somente nas primeiras músicas do show e pelo que eu ouvi elas não eram ruins. Não chegam a ser um Queen, mas não incomodam. De qualquer forma, é preciso dizer que o cara tem uma baita presença de palco que, junto com o efeito de luzes, é capaz de incendiar qualquer show independente de sua qualidade sonora.

Mas Mika não era nada perto do que vinha a seguir. O Phoenix era uma das bandas mais esperadas, pelo menos pra mim. Ainda em meados de julho, quando soube que os caras iriam tocar no Brasil, não tive dúvidas e garanti meu ingresso. Wolfgang Amadeus Phoenix, o último CD deles, lançado em 2009, é uma das coisas mais legais que surgiram nos últimos anos, uma pequena pérola que ainda não foi descoberta. Como era óbvio que eles tocariam esse álbum inteiro, isso por si só já valeria a entrada.

Então, meia hora antes do show, tratamos de encher o caneco mais uma vez e partir pro meião. Um colega resolveu acender uma vela só para dar uma graça maior. Estava tudo pronto, só faltava a banda, que demorou quase quinze minutos para entrar no palco. Para quem esperou meses para ver eles ao vivo até que não era lá muita coisa, mas reclamar aos berros da pontualidade francesa também não faz mal a ninguém.

Até que um estranho barulho começou a sair das caixas de som e os primeiros acordes de Liztomania começam a tocar, ainda com as luzes apagadas. O público foi ao delírio. A luz finalmente se acendeu e o show começou. Quem não sabia a letra começou a cantar junto. Quem nunca tinha ouvido os caras começou a dançar. Foi um começo destruidor, com certeza.

Depois sacaram espertamente Lasso. Nessa hora me bateu uma sensação forte de dejà vú. Talvez porque essa sequência seja igualzinha do EP ao vivo gravado em Sidney. Inclusive em Liztomania, ele também diz “We are Phoenix from Paris, France. Clap your hands with us, come on”. Mas aí eles colocaram na roda o Long Distance Call e quebraram essa sequência, frustando minhas expectativas negativas.

O fato é que os caras mandam bem, sabem agitar o público. Mesmo Love Like a Sunset, uma música que sempre considerei mais fraca, por ser uma quebra muito longa dentro do disco, naquele momento do show ela ganhou um outro sentido. Talvez pela vibração ou pelo clima da galera, sei lá.

Estávamos próximos de uma hora de apresentação e o fim se aproximava. Isso se confirmou quando tocaram a fodástica 1901, com direito a um mosh gigante do vocalista Thomas Mars no final enquanto a banda continuava fazendo um som, com direito a samplers com loops insanos da música que davam uma atmosfera de festa e o caramba. Ele ainda subiu em uma torre que ficava a poucos metros (e muitos corpos) da gente, acenando para o público e depois voltando aos braços da galera – para o desespero dos seguranças, que naquele momento já tinham ligado o foda-se e queriam mais é que esse francês se quebrasse todo. Sem esse encerramento o show já seria bom. Depois dessa, ficou épico.

Em seguida, entrou Pavement. Legítimos representantes do rock noventista, eles se reuniram novamente este ano depois de um bom tempo sem tocar. E voltaram em grande estilo, mostrando que ainda estão em grande forma. Começaram logo com Gold Soundz, fazendo o público delirar. Aliás, musicalmente não houve problema algum. Os grandes hits do Pavement estavam lá: Unfair, Stereo, Conduit for Sale!, In The Mouth a Desert, Cut Your Hair, enfim uma porrada de canções boas. E o público cantava junto e vibrava. Na minha frente, dois caras estilo playboy bombado pareciam moleques da quinta-série veteranos em matinê de tanto que pulavam e faziam escândalo. Voltando ao show, senti uma diferença legal em comparação com os discos de estúdio. Ao vivo o som parece muito mais pesado, com o baixo marcando forte presença. Sem falar que os caras tocam bem, e isso fica perceptível ao vivo. E é curioso que embora Stephen Malkmus seja o vocalista da banda, ele não se porta como um frontman, dando espaço para todos se destacarem.

O fim
Depois do Pavement, entrou seu arquirrival Smashing Pumpkins, a banda mais conhecida da noite, sem dúvidas. Já que estava lá, não me importaria em assistir ao show deles, mas as duas apresentações anteriores realmente quebraram meu corpo e para piorar ainda tinha 20 reais em fichas pra gastar. Convertendo isso, seriam quatro cervejas Devassas de temperatura morna para engolir e não tomar um preju. Desafio aceito.

Não sei se foi a mistura de álcool e da minha raiva contra Billy Corgan que me fez achar o show uma bosta. Os caras colocaram poucos hits no setlist, preferindo tocar o som mais recente deles, e a palavra carisma certamente não consta no dicionário dos caras. Mas logo depois, soube que não foi somente eu que achei o show uma bosta. Minha timeline do Twitter e do Facebook não me deixam mentir. Quem foi ao Planeta Terra só para assistir os caras realmente tomou no cu nervoso. Mas quem conseguiu aproveitar ao máximo o festival certamente não tem muito do que reclamar.

A organização foi excelente, tirando por um ou outro problema. Por exemplo, quando fomos tentar entrar no estacionamento oficial e havia uma fila caótica de carros e ninguém pra dar uma orientação que seja. E só tinha um stand vendendo cerveja, o que logicamente lotou o lugar e fez com que a tarefa de se embebedar se tornasse um pouco mais complexa. Mas de resto, pela quantidade de gente que participou, até que o saldo foi positivo. Sem falar que aqueles que não estavam a fim de assistir a algum show poderiam ir nos brinquedos e tomar um sorvete como se estivessem num parque de diversões normal.

Já com tudo encerrado, lá pelas quatro da manhã, com o corpo doendo, peguei um dos busões que levavam até o metrô Barra Funda. No corredor que dá acesso às catracas, via-se uma corja caída sobre os cantos da estação. Pareciam zumbis que foram abatidos após uma tentativa frustada de comer cérebros frescos. Já eram quatro e meia e ainda faltava poucos minutos para abrir a estação. Em um ambiente normal, o pessoal já estaria tomado em fúria e se revoltado contra o establishment. Mas lá estavam todos em paz, anestesiados pela experiência que acabaram de presenciar. Certamente seus corpos estavam em um lugar, mas suas mentes vagavam pelo universo. Nos vagões, apesar de lotado, não havia pressa, empurra-empurra como em qualquer metrô às seis horas da tarde. Muitos, inclusive eu, se apoiavam de pé nos cantos do vagão e tentavam dormir enquanto a inércia fazia seu jogo sujo.

10 de janeiro de 2010

Saudades do Charlie

4:25am. Estou tentando dormir há uma hora. Ainda não consegui. Não que eu não esteja cansado, mas um bando de filhos da puta fazendo festa do lado de casa como se fosse final de Copa do Mundo com o Bahia campeão tende a prejudicar o sono. Não vou comentar todo tipo de escrotice musical que ecoou no meu ouvido nas últimas horas, mas garanto que qualquer pessoa que leia esse blog nunca ouvirá (por vontade própria) essa merda.

Sabem aqueles caras nos filmes de ação fazendo justiça com as próprias mãos? Eu queria que eles conhecessem um pouco a burocracia do Brasil e depois disso saíssem arregaçando tudo, porque se eles conhecessem, ia ser o dobro de sangue, o triplo de cabeça rolando e eu particularmente torceria por cinco vezes mais empalações.

Mas Steven Segall não vai resolver o meu problema com o som na vizinhança, Lindomar Sub-Zero provavelmente aderiria à festa, e Charles Bronson já morreu. Mas piora. Porque quem também não vai resolver meu problema é o PSIU.

Para fazer uma denúncia eu preciso obrigatoriamente informar o endereço exato de onde vem o barulho, o nome da empresa que o fabrica, além da área de atuação da empresa (entre as opções estão Academia, Bar e Centro Espírita). Informações adicionais são bem-vindas: Qual a fonte geradora do barulho, em que dias funciona e se servem almoço.

Do que pude entender, portanto, o que o PSIU quer dos denunciantes (que fazem a fiscalização por eles) são indicações de lugares para bater um rango com música ao vivo. É uma escrotice como o sistema funciona. Para poder dormir de boa eu tenho que virar investigador, descobrir de onde vem o barulho, e avisar o PSIU em quantas vezes o cara comprou o som dele e se foi com ou sem juros. Mais um pouco e eu entro com uma câmera escondida, faço o flagrante e mando a reportagem pro Fantástico.

Ainda quando liguei me disseram que não poderiam atender a ocorrência pois ela deve ser feita com antecedência. Aí já é demais. Os caras querem que eu me infiltre no boteco, beba Glacial com a galera e descubra que horas da semana que vem começa a próxima sessão. Porra. Isso não é sala de cinema. Se eu soubesse o endereço, se soubesse que horas começa, e se servem a merda do almoço ou não, já teria resolvido o problema faz tempo com ferramentes mais competentes do Estado que a “Patrulha do Silêncio”.

Boas relações sociais no mundo nunca vão se resolver com religião. No Brasil com certeza não se resolverá com educação. E no meio da porra do bairro onde eu moro com certeza não vai se resolver com bom-senso.
Hoje eu não condenaria a violência. Hoje eu seria capaz de torcer por uma chacina.
Hoje eu estou com saudades do Charles Bronson.

28 de dezembro de 2009

Mapa astral

2009 foi o ano da morte do Michael Jackson, do Patrick Swayze e do Lombardi, da posse de Barack Obama, da gripe suína, dos escândalos no Senado, do mensalão do DEM, do fracasso da COP-15, da escolha do Rio como sede das Olimpíadas e de uma porrada de outras coisas que passaram reto pelo BcF. Mas nem tudo foi desinformação e inutilidade, pois em 25 textos (um recorde pessoal) tratamos de coisas bem interessantes (ou tentativas de) ao longo do ano.

Como estamos no Brasil, 2009 começou, no blog, só em fevereiro. E começou nervoso, com uma peleja insana envolvendo a divisão de ingressos entre times do Paulistinha. Opiniões parciais e argumentos enviesados esquentaram o pseudo-debate, como numa boa mesa redonda da televisão. Logo em seguida, rolou um texto que colocou no mesmo ringue Marcelo Camelo e Little Joy, mas que acabou em empate técnico graças ao meu relativismo cultural pós-kantiano.

Em março, em tom solene e piegas, saiu do forno uma homenagem tardia aos quatro anos de morte de Hunter Thompson – pessoa que é uma espécie de guru deste blog – com direito a considerações do jornalista André Pugliesi nos comentários. Falando no figura, surgiu depois a resenha de uma partida qualquer do Paulistinha que não valia nada e que ficou muito pior que as narrações empolgantes e acuradas do Jornalista de Merda. Em seguida, uma análise inicial sobre a temporada de F-1 apontou, com o dedo em riste, que essa história de nova F-1 que anunciam todo ano não passa de pura patifaria. Essa opinião seria complementada num texto posterior.

Em abril, foi postada uma crônica sobre o ócio que teve como ponto alto a citação de um livro de Lourenço Mutarelli. No mesmíssimo mês, apareceu uma corajosa resenha sobre o mítico CD do Ronaldo e os Impedidos, que foi massacrado pela crítica especializada e por mim também. E emendando o assunto, largaram por aqui um texto sobre o julgamento do Pirate Bay alinhada com uma trivial crítica à indústria fonográfica, dando corda à velha história que nunca termina.

Prova disso é que, em maio, um post que não era um post serviu para complementar o papo anterior sobre as gravadoras com um desenho do tinhoso no clássico estilão "soviet way of life". E mudando totalmente de assunto, repousou-se aqui uma peça acusadora sobre a novela da saída dos times mexicanos da Taça Libertadores da América de 2009, colocando todo o carma negativo nas costas da Conmebol. E para terminar o mês, uma resenha do álbum de estreia do Fleet Foxes, mais uma dessas boas bandas que surgem por aí de vez em quando.

Depois disso, o blog entrou em recesso e só voltou em agosto, com um texto ao estilo Seinfeld, sobre o nada. E ficou por isso mesmo.

No nono mês do ano, a pauta sobre F-1 ressurgiu em uma análise de meio de temporada com direito a uma abertura no melhor estilo kafkiano de escrever: "Hoje pela manhã, estava me desfazendo da janta e lendo o jornal". Depois, uma resenha da tão alardeada remasterização do catálogo dos Beatles, cheia de especulações e falsas certezas.

Em outubro, sobrevoou por aqui um estudo sobre a nova geração das animações em 3-D, tendo como pano de fundo o filme "Up! - Altas Aventuras". Depois, no melhor estilo David Letterman, mostramos as dez razões para não acreditar em listas. E ainda sapecaram um relato emocionante sobre os medos e delírios na Oktoberfest 2009, na qual estive de corpo presente e mentalmente nem tanto.

Em novembro, uma opinião polêmica sobre jogos adventures dividiu o blog. As divergências foram levadas às últimas consequências com um texto que atravessou os confins da web 2.0: começou no Twitter, continuou no Orkut e terminou aqui, sem vencedores ou perdedores. Depois de a paz ser selada em um bar, voltamos ao ritmo normal com uma análise fria, porém sincera, sobre as causas do São Paulo não ter sido campeão brasileiro este ano.

Por fim, em dezembro, um texto que mistura filosofia de banheiro, gatos tocando piano, duas garotas e um copo e Kevin Smith. E para finalizar, mais uma resenha de álbuns, desta vez da estranhíssima Susan Boyle, que fez uns covers à la Emmerson Nogueira só que ao estilo Andrea Bocelli. E tem também esta retrospectiva que você está lendo agora.

É isso aí, moçada. 2009 já era, agora só em 2010.

4 de setembro de 2009

Meio de Temporada.

Hoje pela manhã estava me desfazendo da janta e lendo o jornal. De praxe havia a coluna do Reginaldo Leme. Leme foi pivô de um assunto polêmico comentado mundialmente por seus companheiros seguidores do esporte motorizado, fica portanto desnecessário repeti-lo, até porque não é disso que eu vim falar.

Enquanto Reginaldo estava falando em sua coluna da apreensão e alegria que existe em dar o furo, pensei em reescrever o panorama da Fórmula 1 feito no começo da temporada. Quando o Rubinho venceu o GP da Europa eu só vi as voltas finais da corrida, mal podendo considerar essa a segunda corrida que vi no ano. Mas depois de uma vitória brasileira confesso ter me empolgado para assistir a corrida de Spa-Francochamps. Foi realmente engraçado, porque foi a segunda largada que vi na F1 2009 e a segunda vez que o carro do Rubens não saiu do lugar. Pelo que sei das outras corridas meu aproveitamento em ver largadas falhas de Barrichello está em 66%.

Mantenho meu discurso: O melhor carro será campeão. As montadoras que disputam o campeonato são, como sempre, Mercedes, Renault e Ferrari. É bem verdade que as duas primeiras estão representadas por Brawn e RBR respectivamente, mas não deixa de ser igual aos anos anteriores.

Por outro lado, se agora me perguntassem qual piloto terá maiores chances de ser campeão entre os quatro primeiros colocados (Button, Barrichello, Vettel e Webber) diria que tudo vai depender mesmo é da sorte de cada um. Ainda assim, vale lembrar que Button e Vettel usaram um motor a mais que seus companheiros de equipe. Com um número limitado de motores para a temporada, essa pode ser uma grande diferença de performance, especialmente nas últimas duas etapas. Portanto, como em todo esporte que não tem mata-mata, ganha quem for mais regular.

Meu destaque final vai para meu companheiro blogueiro de aventuras Igor, que disse a única verdade definitiva da Fórmula 1: “Ross Brawn é o Eric Clapton da F-1”, e também para a ótima piada que fiz do Reginaldo Leme. Um abraço para todos os jornalistas que, assim como ele, sabem como é difícil dar o furo, mas gratificante e recompensador.

12 de março de 2008

O estranho mundo dos seguidores de Aldebaran pt.3

Se aturar o tal de animekê parecia estorvo demais para o meu fígado, mal podia esperar para ver um certo concurso de cosplay. Na verdade, esse evento não estava programado para ser assistido por mim. Já estávamos indo embora, pois a minha razão de estar ali (se é que havia alguma) havia se esgotado, mas, no caminho, deparamos com um espaço que a gente não tinha ido ainda.

Era um terreno aberto, cheio de grades, pedregulhos e uma vegetação rasteira, como se estivéssemos um campo de treinamento de soldados vietcongues. Logo na entrada, em um canto à esquerda, havia uma arena com gladiadores lutando com espadas de borracha. Para participar da peleja, era só entrar na fila e sentar o pau no otaku. Apesar de ser tentador, resolvi deixar para a próxima.

No lado oposto, em uma espécie de tenda, estava rolando um campeonato de Pump It Up. Quem já freqüentou algum shopping ou uma casa de fliperamas talvez já tenha visto uma máquina dessas, normalmente rodeada por orientais tentando mostrar que manjam muito de dança – sendo que na prática, a única coisa que eles sabem mesmo é decorar o momento em que os quadrados no chão piscam (já cheguei a imaginar se não existem gangues de dançarinos de Pump It Up, devido ao fato de sempre encontrar grupos dançando nessas máquinas. Seria algo parecido com aquele episódio do South Park em que os moleques são desafiados por uma gangue de dançarinos). Tentei ver como estavam as coisas por lá, já que eles faziam um barulho enorme, mas o local estava lotado demais para qualquer tipo de aventura. Resolvi que, realmente, era melhor não insistir.

Mas, antes, topei com uma imagem que salvou aquela tarde. Foi quando vi a própria Mai Shiraniu, do King of Fighters, na minha frente, semi nua em pêlo, com seu traje sumário e libidinoso. Confesso que, apesar de gostar mais de Street Fighter e Mortal Kombat, aquele cosplay de fato conseguiu me hipnotizar por algum tempo. Naquele instante, minha missão era descobrir se ela estava usando um tipo de tapa-sexo ou algo do tipo, como manda o figurino. Até que ela se virou e me lançou um olhar repreensivo, como se eu estivesse fazendo algo muito errado. Aí, eu senti que era melhor dar uma volta – até porque o Iori Yagami estava por perto.

Naquele amplo terreno, nem tinha reparado que havia um nível inferior, que podia ser acessado por uma escada – ou descendo pela encosta da morte. Embaixo, seguindo à esquerda, havia um enorme palco. Não havia dúvidas: era ali que estava rolando o serelepe concurso de cosplay.

O público era gigantesco. Certamente, os organizadores estavam orgulhosos. Conseguimos ficar a cerca de 50 metros do palco, ainda tentando entender o que estava rolando. Havia dois apresentadores que anunciavam os participantes e faziam comentários supostamente engraçados. Ao fundo, tinha um pequeno cenário e no canto havia um DJ. Na primeira fileira da platéia, ficavam os jurados, alvejados por um canhão de luz na cara.

A informação que rolava é que eles estavam se preparando para começar o concurso da categoria livre. Eu sabia o significado disso. Oferecer tal liberdade para um bando de jovens vestidos de cosplayers pode ser ou muito ruim ou muito bom. Lembro que na última vez que assisti um concurso desses, um insano teve a notável idéia de se fantasiar de “Lindomar, o Sub Zero Brasileiro”, com direito à distribuição gratuita de voadoras em losango aberto invertido. Era impossível não se simpatizar com o rapaz.

Mas dessa vez, infelizmente, a meninada não estava inspirada o bastante. Poucos conseguiram realmente atiçar minha atenção. O esquema era mais ou menos o seguinte: o concorrente escolhia previamente uma música ou efeito sonoro e se apresentava. Alguns preferiam fazer a apresentação simplesmente dançando, como no caso da cosplayer da Haruhi, enquanto outros faziam um monólogo cheio de referências nerds – em geral, ruim demais até para os nerds.

Um casal resolveu fazer algo do tipo, inspirado no game de RPG Kingdom Hearts. O diálogo era deveras chato, eu não estava entendo patavinas. Para piorar, o cara tinha o sotaque carioca mais carregado que já ouvi, irritante como o do Felipe Dylon. Ao meu lado, um moleque gritou, com total razão: “Preferia ver o filme do Pelé!”.

A tosqueira era um convite tentador nesse concurso. Um grupo teve a infeliz idéia de interpretar uma cena do desenho Coragem, o Cão Covarde. De fato, algo difícil descrever em palavras. Só sei que uma criança do primário faria uma interpretação mais fidedigna do assunto.

Outro grupo, enfim, resolveu usar a criatividade. Eram cinco caras de terno e óculos escuros que interpretavam os Backstreet Boys em um estado máximo de homossexualismo, com direito a piadas de duplo sentido que eu costumava fazer na época do ginásio. Depois, eles começaram a dançar ao estilo boy band (inclusive era engraçado porque eles dançavam perfeitamente igual aos Backstreet Boys), até que aparecia um Seiya anão que mandava os caras para o inferno, usando socos e pontapés no melhor estilo Black Trunk.

Mais tarde, rolou um pouco de putaria para atiçar a meninada. Um casal encenou uma cena do Chobits, em que um cara estilo Luiz Boça interpretava o moleirão, enquanto uma mina de camisola era a ninfeta robótica desacordada. O esquema todo mundo já sabia: para ativar o funcionamento da ninfeta robótica desacordada era preciso tocar os países baixos dela. A questão era se o moleirão iria realmente fazer isso. E ele fez, com maestria. A platéia entrou em estado de apoteose como eu nunca tinha visto antes.

Mas o melhor, sem sombra de dúvidas, foi um cara que interpretou ninguém menos que Austin Powers, tendo como antagonista um personagem übersexual do Yu Yu Hakusho. Ambos encenaram uma peleja para saber quem tinha mais “mojo”, numa espécie de dança sexual hipnótica. Nem é preciso dizer que o britânico dos anos 60 levou a melhor com alguma facilidade. Mas, realmente, a semelhança do maluco que interpretou Powers com seu próprio personagem era deveras assustadora. Até suas gags eram idênticas.

Com o fim do concurso, nada mais natural do que puxar o carro e voltar merecidamente para casa. Tudo de mais estranho nesta terra já tinha sido visto.

17 de fevereiro de 2008

O estranho mundo dos seguidores de Aldebaran pt.2

Era hora de forrar o estômago. Cheguei na barraquinha de yakisoba e pedi um yakisoba. Recebi como resposta: "Estamos sem yakisoba". Dei uma checada no estabelecimento de novo e avistei uma plaquinha escrito "Yakisoba". Antes que eu questionasse, com razão, a atendente se prontificou: "Nós ainda estamos preparando. Se quiser, você tem que ir até a barraca lá de trás", disse ela, como se estivéssemos dentro de um jogo de RPG.

Segui o caminho indicado pela moça. Trespassei por uma selva de pessoas e cheguei até as barraquinhas. Mas quando me dei conta, aquele mundaréu de gente parada na verdade era a fila para pegar o tal macarrão chinês frito com legumes ao molho de gengibre. E lá fiquei, plantado por um bom tempo. Certamente, aquele era um dos yakisobas mais demorados do universo. Meia hora depois e já tinhamos dado três passos. "É bom que seja o melhor macarrão do mundo", falei para o meu irmão.

Encontramos um lugar para sentar e degustarmos do tão aguardado alimento. Do banco, avistamos mais figuras inusitadas. Um tiozão gordo barbudo, de boné e óculos, fazia filmagens das moças em trajes indecorosos. "Não parece o Michael Moore?", perguntou meu irmão. "Hmm... certamente ele está querendo mostrar os malefícios da televisão nas crianças", respondi. Depois, apareceu um cara vestido de sacerdotisa do Ragnarok na nossa frente. "Não lembro de ter visto homens travestidos desde meu último carnaval em Tupã", pensei comigo. Mentira, na Festa à Fantasia da Cásper do ano passado também havia.

Muitas outras figuras bizarras marcaram presença, mas não me lembro de todas. Lembro de um moleque vestido de Sonic, que estava toscamente mal feito, como se ele tivesse virado carne moída pelo Dr. Robotinik. Certamente, não faria sucesso nem em uma festa infantil na Uganda. A única coisa que achei interessante foi o tênis All-Star pintado de vermelho, simulando os velozes sapatos do porco-espinho azul.

Não estávamos nem uma hora dentro daquele lugar e eu já queria mesmo ir embora. Me sentia completamente deslocado do ambiente, como o Corinthians quando vai jogar a Libertadores. Passar o dia em casa jogando Winning Eleven seria, de fato, muito mais prazeroso.

Depois do grude, fomos a um dos prédios principais da universidade. Meus irmãos iriam encontrar uma amiga que eles conheceram na internet, enquanto eu fiquei perto da escada curtindo o movimento. Depois de encontros e desencontros, eles encontraram ela. Era uma menina estranha, de movimentos lentos, cara de joelho e com a empolgação de uma estátua do Madame Tussauds. Só ganhou meu respeito tecnológico porque vestia uma camiseta do Cowboy Bebop, um dos melhores desenhos que já assisti -- e o que me motivou a ouvir jazz.

Com alguma facilidade, ela nos convenceu a irmos para um tal de animekê. Só pelo nome já se saberia o que estava por vir. Se karaokê já é algo que irrita em um certo nível de sobriedade, imagine isso com otakus. Por uma questão de práxis, resolvi conferir de perto esse negócio aí.

O local era um enorme auditório tipo estádio, com um palco logo abaixo. Acima, havia um telão estático e hipnótico, avisando que haveria a final do animekê no outro fim de semana. Aparentemente, o local estava lotado, mas conseguimos arranjar três lugares lá na frente. Já a amiga deles ficou para trás e nunca mais a veríamos (não que eu tenha ficado com algum remorso disso).

De fato, todas as minhas expectativas haviam sido cumpridas. Era como assistir o inferno de camarote. A brincadeira era muito fácil: os calouros eram chamados e eles tinham que cantar as músicas em japonês, sem acompanhamento nem nada, só usando uma colinha. Não tinha como não concordar que a qualidade sonora era sofrível, assim como a visual. A maioria dos cantores eram caras barbudos de cabelo comprido e camisa de heavy metal, cantando músicas que abusam do agudo e da melo-dramaticidade. As poucas meninas que cantavam eram igualmente estranhas. O destaque é uma candidata chamada de Sakura, que interpretava a música de maneira graciosa enquanto cantava, dando vários rodopios no próprio eixo e levantando as mãos para cima.

Uma das poucas coisas legais a fazer no animekê era usar as plaquinhas para zoar com os cantores. Meu irmão, sob meu auxílio, fez horrores nessa hora, aproveitando que estávamos nas fileiras da frente. Rápido como uma flecha, ele escrevia os insultos e subitamente levantava com a mensagem virada para trás, levando a galera ao delírio. Um dos mais interessantes foi a de um cantor que usava uma espécie de pochete / cinto do Black Kamen Rider. Meu irmão não pestanejou e mandou: "Não é o cinto do Batman?". Ah rapaz, duvidaram até da masculinidade do pobre homem.

Continua...

11 de fevereiro de 2008

O estranho mundo dos seguidores de Aldebaran pt.1

(Há certos locais que não é recomendável voltar, nem mesmo para uma reportagem gonzo.)

Havíamos acabado de sair de casa quando minha irmã avista, em algum farol fechado do Ipiranga, um menino baixinho usando óculos escuros e uma camiseta verde marca-texto do Batman, sendo levado por um pastor alemão, que tinha quase o seu tamanho, para um singelo passeio na Praça do Monumento. Quando olhei para aquela imagem ridícula, fiz uma cara de decepção e disse: "Acho que podemos voltar. Já vi coisas bizarras o suficiente por hoje".

Na verdade, aquilo era somente uma prévia das imagens excêntricas que eu veria naquela tarde. Depois de muito insistir, com ameaças veladas de mortes, minha irmã me obrigou a acompanhá-la no Anime Dreams, um desses eventos de anime onde os tipos mais ridículos da sociedade nerd juvenil se encontram para aprontar altas confusões que até Deus duvida.

Não que eu tenha algo contra os animes. Inclusive, existem muitos desenhos japoneses bons por aí, que valem muito a pena serem assistidos. Mas como diz o Mané, o grande problema dessas coisas legais são os fãs ortodoxos, que não sabem onde começa o cafona e onde termina o ridículo.

Sei disso pois já tinha ido uma vez a um evento em 2006, mas achei tudo tão boçal que nunca mais cogitei pisar nesse tipo de recinto. Mas o pior é que, desde então, os chamados otakus passaram a ganhar um espaço gigantesco na mídia, como se fizessem algo realmente importante, e se tornaram um novo símbolo de identidade juvenil (ou coisa que o valha). É quase certo que os otakus serão os emos do futuro, se já não o são. Por isso, resolvi ver de perto como está a cena agora.

Quando chegamos perto de onde desembarcaríamos, na Unicsul da Anália Franco, já era possível sentir o vil aroma da anormalidade, com pessoas estranhas andando livremente por todos o cantos, sem serem reprimidas por olhares de desdém. E algo que realmente me preocupou: não havia bares ao redor da faculdade. Essa era uma péssima notícia, pois era quase certo que cerveja não seria vendida dentro do evento -- informação que depois eu confirmei, com enorme pesar. Uma jogada arriscada seria ir ao shopping me embriagar (junto com os famosos boêmios de praça de alimentação) e tentar entrar trançando as pernas, mas até lá o efeito do álcool já teria se dissipado e a mim só restaria uma cara vermelha e uma bexiga cheia.

Entramos no evento. Já era possível ver dezenas de pessoas de bobeira, nos cantos das escadas e no gramado do campus, como em qualquer universidade normal, mas trocando os universitários fazendo algazarra por jovens criados a leite com pêra usando trajes bizarros.

Aliás, essa é uma faceta comum desses eventos. Especialistas dizem que os otakus encontram-se nesse tipo de manifestação para procriar, pois os otakus são o tipo de nerd que se relacionam afetivamente com outras pessoas -- o que invalida qualquer tese darwinista da evolução da espécie. Para isso, eles usam a mesma tática de conquista dos pavões, que enfeitam suas plumas para atrair o sexo oposto. No caso deles, o costume trivial é usar roupas e adereços que não fariam sentido nem em uma festa junina no interior, estranhos até mesmo para um show do Rogério Skylab. O lado bom é que não é difícil encontrar menininhas graciosas vestidas de colegiais. O lado ruim é que eu nunca atrairia a atenção das divinas damas com meu figurino (uniforme nº2 da Inglaterra de 2006, bermuda e meias pretas) -- a menos que eu usasse como adorno uma bandana do Naruto ou uma mochila cheia de chaveiros.

Naquela altura, meu estômago pegava fogo de tanta fome. Logo detectei as barraquinhas de quitutes na parte lateral do prédio. O espaço era ridiculamente pequeno, mas quebrava o galho. Segui então até o caixa, onde trocaria dinheiro de verdade por dinheiro fictício. A minha sorte é que o câmbio estava 1 para 1, mostrando que o neo-liberalismo ainda não havia chegado por aqui. "Chupa, Consenso de Washington", pensei.

Enquanto esperava minha vez na fila, ocorreu uma cena típica de abordagem usando plaquinhas como meio de comunicação, bastante comum por essas bandas. Uma menina gordinha de cara bizonha (mas com olhos verdes penetrantes) e de toquinha de otaku apareceu ao lado dos dois caras que estavam na nossa frente e levantou uma plaquinha que perguntava: "Eu sou kawaii*"? Um dos caras olhou para ela, analisou a pergunta da placa e respondeu: "Não. Desculpa", e deu uns tapinhas carinhosos na cabeça dela. Desapontada ao extremo, ela voltou para onde nunca deveria ter saído.

Continua...

*Kawaii significa, na tradução literal, algo bonitinho, gracioso. É bastante conhecido pelos otakus porque é costumeiramente dito nos animes, e os malditos fãs não teimam em repeti-lo ad eternum.

6 de dezembro de 2007

A primeira noite no Inferno - pt.3 (ou Como dizer a coisa certa na hora errada)

Com o fim do show do Vanguart, o espaço em frente ao palco voltou a ser uma enorme pista de dança, onde a meninada exibia toda sua saúde ao som de Kiss e Nirvana porém, sem estragar o penteado meticulosamente bem alinhado e os vestidos lascivos, que eram incompatíveis com o frio que fazia lá fora. "Bendito seja o Inferno", pensei.

Naquela altura, já passava das 4h e meu corpo estava em cacos. Talvez porque a cerveja long-neck de cinco mangos finalmente começou a bater dentro do meu organismo. Ou talvez porque estávamos bebendo ininterruptamente desde às 19h. Em condições assim, é natural que o cérebro funcione através de lapsos de consciência, e faça com que o corpo pare de responder por algum tempo.

Acho que meu cansaço era evidente. Enquanto os meus amigos saíram para tirar mais fotos do público, fiquei encostado em uma parede do lugar onde me tornei alvo de garrafadas no tornozelo. Em dado momento, aquela garota da foto surgiu novamente do nada e veio em minha direção. Ela me deu um chacoalhão e fez uma pausa, talvez esperando algum tipo de reação. Mas o fracasso era evidente: mal conseguia lembrar seu rosto, ainda mais assimilar o que estava acontecendo. Visivelmente abatida, ela foi em direção ao banheiro, de onde nunca mais voltou.

A segunda banda subiu ao palco. Seu nome era Identidade, do Rio Grande Sul, falou ao microfone o vocalista. A verdade é que eu já não estava com mais pique de acompanhar o show. Meus pensamentos voavam para longe daquele lugar acho que aqueles chacoalhões me fizeram mal. Mas digo que o som não é de todo o ruim, tem algo de dançante que lembra Franz Ferdinand porém com letras ruins, bem ao estilo anos 80. Mas nada que empolgasse tanto, já que foram poucos aqueles que permaneceram até o fim do show. Nós, por exemplo.

Pensava que a noite se encerrara ali, mas estava bastante equivocado. O último ato dessa tragicomédia ocorreu em um outro bar da Augusta, alcunhado Bar Bahia. O local era visivelmente insalubre, mas isso pouco importava. A minha fome estava insustentável, e logo pedi um x-salada. O fotógrafo me acompanhou e o outro elemento pediu uma cerveja.

O recinto onde estávamos não era dos piores já pisei em locais muito mais insanos do que aquele. Mas luxo certamente era um artigo dispensável. Ao fundo do bar, uma mesa de sinuca e um jukebox faziam a alegria de alguns. Lá também se encontrava uma máquina de karaokê, aparentemente desativada. A televisão, sintonizada no campeonato mundial masculino de vôlei, era o nosso único atrativo. Isso até ela chegar.

Vanessa apareceu de repente, querendo cigarro e alguma atenção. Era loira, estatura baixa, olhos claros e tinha uma voz embriagada. Ela exalava líbido pelos seus poros, e de sua boca saía as mais absurdas histórias. Dizia ela que era casada com um australiano e que suas amigas seguiram rumo semelhante, viajando com a gringalhada. Foi a única coisa com algum sentido lógico que consegui pescar na conversa.

Mas era o óbvio ululante: Vanessa é uma meretriz (o popular, mulher do pala aberto). Se não é, eu a aconselharia a mudar alguns trejeitos. Para começar, ela parecia ter uma fixação pelo Gilmar, um dos funcionários do local, que compreensivelmente tentava se esconder atrás do balcão. Além disso, ela se entrosava com qualquer homem que olhasse acidentalmente em sua direção. Foi o nosso caso.

Já estávamos na terceira garrafa de cerveja quando Vanessa começou a se abrir para a gente. No início, ela só repetia insistentemente "quero cantar, quero cantar", e balbuciava palavras aparentemente sem ligação sintáxica, como um Riobaldo da grande metrópole. Ela se esquivava de perguntas, como "com o que trabalhava?" e "o que gosta de fazer?", com uma divina retórica malufista. Beber e dançar foi o que ela respondeu, respectivamente.

Mas alguns copos depois, ela quase fez uma performance instantânea para a gente. Após ouvir uma música no jukebox que lhe assanhou, Vanessa ameaçou tirar sua camisa branca, toda surrada e muito larga para o seu corpo, e tentou realizar um legítimo slap dance, ao sentar no colo do nosso amigo. Logo senti que a coisa estava esquentando. Restava saber qual dos dois daria o bote.

Já passava das 5h30 e precisávamos ir embora. Me levantei para pagar a conta, enquanto os dois ficaram lá conversando com Vanessa. Esse movimento me custou caro. Isso porque, enquanto eu assistia o Gilmar lutando ferozmente contra a máquina do Visa Electron, um diálogo digno de filme B hollywoodiano rolava na mesa:
- E aí, tá a fim de dar uns pegas? - perguntou nosso seduzido parceiro à divina dama.
- Claro, isso é o que eu mais quero - disse ela, com cara de safada.
- E quantos que é?

Essa frase doeu em Vanessa.
- Tá me achando com cara de puta? - disse histérica.
- Não. Estou falando da grana para o motel - argumentou ele, tentando consertar a cagada.
- Isso é problema seu.

Depois de ser degradada em plena Augusta, ela abaixou a cabeça sobre a mesa, como quem chora copiosamente. Nesse instante, eu já tinha pago a conta e achava que aquilo era só um sintoma da bebedeira. Mas o fotógrafo logo confidenciou: "Depois dessa, achei que ela ia chamar o cafetão, que iria vir esfaquear a gente". Por sorte, nada de grave aconteceu.

Esse diálogo me fez pensar como as relações humanas estão em seu nível mais baixo na história. Acho que nem na era feudal as mulheres eram tão degradadas assim. Afinal, se ela queria dar uns amassos de graça, porque diabos alguém se oferece para pagar pelo serviço? Uma total falta de tato. A frase "o inferno somos nós" nunca fez tanto sentido como agora.

4 de dezembro de 2007

A primeira noite no Inferno - pt.2

Depois de pagarmos a cerveja, nos encontramos em um dilema ético-moral: como entrar na balada sem gastar um tostão? Iniciamos as conversas após eu ter pego um flyer no balcão e constatado que a entrada seria de exorbitantes 25 pilas. Para nosso mirrado salário de jornalista esse era um preço absurdo. Formulamos, então, um esquema da mais pura trambicagem.

Atravessamos a rua e chegamos ao Inferno. Na entrada, o demônio em pessoa estava alegrando a multidão da fila, distribuindo chicotadas e insultos aos transeuntes. O fotógafo e eu passamos incólumes pela ira do tinhoso e seguimos direto até a bilheteria. Com um bom xaveco, nós conseguimos entrar na faixa, graças (talvez) à minha fantasia de repórter. O outro elemento foi ouvir impropérios na fila gelada e ingrata.

Apesar de a casa estar fazendo um ano de existência, era a primeira vez que pisava no recinto. E de fato, me impressionei. Primeiro, porque o Inferno é idêntico ao Outs (inclusive, um fica defronte do outro), exceto pela falta de um andar com uma pista de dança. Segundo, porque o ambiente é esdrúxulo. Nada parece fazer sentido nesse lugar: bancos de lanchonete no estilo Honker Burger em um canto, um quadro do Scarface na chapelaria, objetos estranhos pendurados no teto, esculturas bizarras na parede e uma clara fixação por estampas de onça (que adornam os pilares, o palco e o bar). Um decorador de ambientes certamente teria chiliques ao entrar no local.

Mas esse habitat parecia alegrar a meninada descolada. Aliás, descolada é metonímia conservadora. Logo na entrada, me deparei com um traveco ao estilo elisabetano sendo alvo de fotos. Depois, uma diaba em trajes sumários passou jogando charme na minha frente.

O mais importante é que os dois parceiros estavam realizando o trabalho com competência. Enquanto um abordava as moçoilas, o outro tirava a foto. Confesso que eles mandaram bem na tarefa. O tato que eles tinham para essas situações era de impressionar. Difícil encontrar alguma garota que não tenha sido fotografada na balada naquele dia.

Uma delas teve a minha bizarra contribuição. Tomava nota de alguns detalhes em um bloquinho emprestado quando ela perguntou:
- O que você está escrevendo aí no caderninho?
- Sobre tudo - respondi.
- Ah, tá. Deve ser difícil escrever assim, nessas condições.

Antes que eu a ofendesse com alguma resposta cretina, perguntei se não queria tirar uma foto.
- Ah, mas não quero aparecer sozinha - disse ela.
- Você não veio acompanhada?- perguntei, sem malícia.
- Tô com ele - disse, apontando para um mané qualquer.
- Ah - respondi.

O casal se aproximou para tirar o retrato. Depois do clique, eu e o fotógrafo agradecemos e já dávamos meia-volta, quando ela me chamou novamente.
- Quero tirar uma foto com você - disse para mim, com um sorriso no rosto.

Olhei para o fotógrafo e ele gesticulou como se falasse "vai lá. Foda-se". Aproximei e tirei a foto com eles. Agradeci novamente e dessa vez foram eles quem deram meia-volta e sumiram na multidão. Confesso que aquela atitude ficou marcada por um tempo na minha cabeça. Principalmente depois do segundo encontro.

Mas, naquele instante, o que me incomodava mesmo era que o show não dava qualquer sinal de início. "Me disseram que começaria às 1h", tentou me acalmar o fotógrafo. Já passava das 2h, e nada. Meia hora depois, uma movimentação no palco prenunciou a apresentação.

O flyer não anunciava quem tocaria, apenas dizia que seriam duas bandas “surpresas”. E, de fato, foi – pelo menos, a primeira. Vanguart começou com uma música bem ao estilo deles, um folk progressivo, porém agitado, que animou o público. Después, el cantante comenzó a hablar en español con la platea. E seguiu tocando canções que constam no meu acervo de excelentes músicas: "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" e "With a Little Help From My Friends", dos Beatles, foram algumas delas. Eles também passaram pelo repertório de Bob Dylan, Raul Seixas, Neil Young, Velvet Underground e Raimundos – sempre com a companhia de elementos de outras bandas do circuito alternativo brasileiro. No fim, terminaram com "Semáforo", a segunda música própria que eles tocaram naquela noite.

Continua...

3 de dezembro de 2007

A primeira noite no inferno - pt.1

Chega uma certa hora da noite em que você é obrigado a tomar uma decisão: voltar para casa e dormir ou ir para um outro lugar e continuar se embebedando. Era uma quinta-feira fria e insossa e, obviamente, escolhemos a segunda opção.

O destino em questão seria o Inferno, uma baladinha para a juventude descolada paulistana. Estava acompanhado por dois ex-colegas de labuta, e um deles precisava tirar umas fotos da tal juventude descolada paulistana por motivo de trabalho. O convite foi feito e aceito por nós de prontidão.

O programa era perfeito. Já passava da meia-noite e estávamos sendo enxotados do bar onde nos embebedávamos desde as 19h, em um beco escuro da Domingo de Moraes. Sinal disso é que as cadeiras estavam sendo postas de cabeça para baixo sobre as mesas -- uma simbologia universal dos donos de bares, que significa "caiam fora".

Ainda trançando as pernas, seguimos para o local. É bom ressaltar que, embora a Augusta não fosse tão longe, a viagem não poderia ser chamada de tranquila. O fotógrafo/piloto de fuga tivera um acidente de trânsito violento algumas semanas antes, que o deixou desfigurado e internado por um mês no hospital. Para piorar, a gente ouvia At The Drive-in no carro, música que certamente afeta os neurônios sadios de uma pessoa.

Então eis que, na entrada da 23 de Maio, sentado no banco de trás, quase perco minha costela esquerda em uma iminente colisão lateral digna de um filme de Hollywood. "Estava olhando para aquele lado (o direito)", tentou se justificar o condutor, enquanto acendia um cigarro e se lamentava pelo misterioso surgimento de um buraco em sua jaqueta.

Enfim chegamos à rua Augusta, o local onde as coisas realmente acontecem em São Paulo -- pelo menos à noite. O vento era gelado como a morte -- aquecimento global parecia um termo desconhecido por essas bandas. Para piorar as coisas, logo na entrada do Inferno, eu percebi que esquecera minha carteira dentro do veículo, após uma batida vazia no bolso de trás da calça. Apesar dos resmungos e dos impropérios proferidos contra meus familiares, nós voltamos a enfrentar as geleiras para pegar o dito cujo.

Primeiramente, nós paramos em um conhecido bar da Augusta, o Violeta, para molharmos a garganta. É lá onde os mais radicais do país se encontram. Logo na porta, era possível notar um grupo de punks, com seus moicanos altos e piercings perfurando os locais mais inusitados do rosto. As mulheres da roda também adotaram o visual dos indígenas americanos e vestiam muito couro e meia-arrastão. Certamente, nossa aparência e nossas roupas casuais causaram algum asco nos presentes. Mas isso pouco importava.

Continua...

22 de agosto de 2007

Primeiras Vezes (ou Shhhh!!!)

Sexta-feira, 18 de Agosto de 2007. Um acontecimento que se daria pela primeira vez em solo nacional e, conseqüentemente, projetaria uma série de eventos inéditos (este texto incluso).

Enquanto meu companheiro se preparava para receber acachapantes conhecimentos sobre qualquer raio de aula que ele tenha às sextas-feiras, eu fui ousar me aventurar sozinho nos salões majestosos da Cinemateca Brasileira, a fim de acompanhar a I Jornada Brasileira de Cinema Silencioso.
Devo admitir: Uma experiência não tão impactante quanto chanchadas ao ar livre uma vez relatadas no finado Epítetos Espiclondríficos, mas ainda assim, fora do comum, e portanto, válida.

O suspense começa já na descida da Sena Madureira, por se tratar de um bairro onde, ultimamente, pessoas têm atirado umas nas outras na cabeça por não emprestar um celular, mas alcanço sem maiores dificuldades o número 207 do Largo Senador Raul Cardoso.

Na chegada um choque! O banheiro masculino havia sido reformado!!! Foi triste pensar que aquela parede onde eu colocava o gigante p'ra chorar havia sido substituída por triviais mictórios. Nada legal... A pia, entretanto, continua a mesma.
Superando minha indignidade direcionada à mudança (arquitetônica, estilística, higiênica, etc...) fatal, levanto o zíper e vou ao prédio principal, onde se concluía um simpósio sobre direitos autorais, com direito à cerveja, whisky e quitutes, oferecidos por pinguins para quem lá estivesse, interessados ou não em direitos autorais.

Pego uma cerveja efundida em um copo de chopp aprovado pelo Inmetro, e logo que terminado repousei o copo no balcão do Caffé. Fui-me para a bilheteria, onde eram distribuídos gratuitamente os ingressos para as sessões.
Na sala de cinema o público esperou pela presença do músico que faria o acompanhamento sonoro ao vivo do filme. Uma vez que ele entrou, saudou a platéia. As paredes retráteis desceram e cobriram as janelas da sala (sim, isso acontece na Cinemateca. Uma forma ostentosa de apagar as luzes), e assim começou Veneza Americana.

Trata-se de um documentário brasileiro de 1925 sobre o desenvolvimento estruturacional da cidade de Recife. Na verdade, um filme político puxa-saco de governantes e coronéis da região. Para se ter uma idéia, havia filmagens de um minuto ou mais de cavalos desses políticos que haviam ganho competições sobre quem corre mais rápido ou reproduz melhor. Uma beleza! Orgulho nacional dos pecuaristas!!!

Porém, a música era bem legal. Um piano e elementos eletrônicos, que realmente faziam o espetáculo valer a pena. Afinal, era a primeira vez. Houveram momentos em que duvidei sobre respirar ou não, temendo uma represália das pessoas que estavam ali mais por interesse do que por curiosidade, ou seja, não-eu!

A sessão se encerrou, houveram aplausos. Houveram roncos de quem acorda depois de tomar um susto ao ouvir o repentino som de aplausos (este não sou eu). Mas ao fim dessa viagem silenciosa classifico como positiva a experiência. Talvez seria melhor se não reformassem o banheiro, mas não se pode ter tudo... Pulei num ônibus e fui para um bar, sozinho, comemorar a quarta-feira perdida do meu aniversário e, embalado pelo álcool, escrevi sobre um dia de muitas primeiras vezes, talvez algumas últimas.

12 de julho de 2007

O que com fanta?

O barbitúrico é um potente e hipnótico sedativo usado, na maioria dos casos, para combater a insônia.

Americanos consomem 400 mil quilos/ano deste inebriante e psicodélico remédio. Mas isto é só um fato escroto. Não poderíamos nos lixar menos. Neste ciberespaço só queremos escrever textos.

O nome Barbitúrico com Fanta provém da interessante probabilidade de os contribuidores estarem sob seu efeito enquanto escrevem, ou de que os leitores leiam sob efeito dele ou ainda de que o blog em si seja um substituto à altura em se tratando da alteração da percepção da realidade.

Os hereges usam a Fanta sabor Uva-Light para atingir um grau muito superior de reações psicóticas. Nós puristas utilizamos como agente ativo a Fanta Laranja, porque o gosto é melhor.

Se o blog não atingir os efeitos desejados, indicamos ácido pantotênico e 2 gramas de inositol. Se o blog tiver efeito contrário ao proposto e você leitor começar a sofrer de insônia, a solução pode ser encontrada na colina, vitaminas B1, B6 e B12, niacina, cálcio, magnésio, zinco e L-triptofano.

Caso você esteja realmente considerando seguir nossas recomendações, parabéns!
Você já está sob efeito do Barbitúrico com Fanta.


Este blog segue políticas carbon-free através do plantio de árvores via ClickArvore!
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