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28 de dezembro de 2009

Mapa astral

2009 foi o ano da morte do Michael Jackson, do Patrick Swayze e do Lombardi, da posse de Barack Obama, da gripe suína, dos escândalos no Senado, do mensalão do DEM, do fracasso da COP-15, da escolha do Rio como sede das Olimpíadas e de uma porrada de outras coisas que passaram reto pelo BcF. Mas nem tudo foi desinformação e inutilidade, pois em 25 textos (um recorde pessoal) tratamos de coisas bem interessantes (ou tentativas de) ao longo do ano.

Como estamos no Brasil, 2009 começou, no blog, só em fevereiro. E começou nervoso, com uma peleja insana envolvendo a divisão de ingressos entre times do Paulistinha. Opiniões parciais e argumentos enviesados esquentaram o pseudo-debate, como numa boa mesa redonda da televisão. Logo em seguida, rolou um texto que colocou no mesmo ringue Marcelo Camelo e Little Joy, mas que acabou em empate técnico graças ao meu relativismo cultural pós-kantiano.

Em março, em tom solene e piegas, saiu do forno uma homenagem tardia aos quatro anos de morte de Hunter Thompson – pessoa que é uma espécie de guru deste blog – com direito a considerações do jornalista André Pugliesi nos comentários. Falando no figura, surgiu depois a resenha de uma partida qualquer do Paulistinha que não valia nada e que ficou muito pior que as narrações empolgantes e acuradas do Jornalista de Merda. Em seguida, uma análise inicial sobre a temporada de F-1 apontou, com o dedo em riste, que essa história de nova F-1 que anunciam todo ano não passa de pura patifaria. Essa opinião seria complementada num texto posterior.

Em abril, foi postada uma crônica sobre o ócio que teve como ponto alto a citação de um livro de Lourenço Mutarelli. No mesmíssimo mês, apareceu uma corajosa resenha sobre o mítico CD do Ronaldo e os Impedidos, que foi massacrado pela crítica especializada e por mim também. E emendando o assunto, largaram por aqui um texto sobre o julgamento do Pirate Bay alinhada com uma trivial crítica à indústria fonográfica, dando corda à velha história que nunca termina.

Prova disso é que, em maio, um post que não era um post serviu para complementar o papo anterior sobre as gravadoras com um desenho do tinhoso no clássico estilão "soviet way of life". E mudando totalmente de assunto, repousou-se aqui uma peça acusadora sobre a novela da saída dos times mexicanos da Taça Libertadores da América de 2009, colocando todo o carma negativo nas costas da Conmebol. E para terminar o mês, uma resenha do álbum de estreia do Fleet Foxes, mais uma dessas boas bandas que surgem por aí de vez em quando.

Depois disso, o blog entrou em recesso e só voltou em agosto, com um texto ao estilo Seinfeld, sobre o nada. E ficou por isso mesmo.

No nono mês do ano, a pauta sobre F-1 ressurgiu em uma análise de meio de temporada com direito a uma abertura no melhor estilo kafkiano de escrever: "Hoje pela manhã, estava me desfazendo da janta e lendo o jornal". Depois, uma resenha da tão alardeada remasterização do catálogo dos Beatles, cheia de especulações e falsas certezas.

Em outubro, sobrevoou por aqui um estudo sobre a nova geração das animações em 3-D, tendo como pano de fundo o filme "Up! - Altas Aventuras". Depois, no melhor estilo David Letterman, mostramos as dez razões para não acreditar em listas. E ainda sapecaram um relato emocionante sobre os medos e delírios na Oktoberfest 2009, na qual estive de corpo presente e mentalmente nem tanto.

Em novembro, uma opinião polêmica sobre jogos adventures dividiu o blog. As divergências foram levadas às últimas consequências com um texto que atravessou os confins da web 2.0: começou no Twitter, continuou no Orkut e terminou aqui, sem vencedores ou perdedores. Depois de a paz ser selada em um bar, voltamos ao ritmo normal com uma análise fria, porém sincera, sobre as causas do São Paulo não ter sido campeão brasileiro este ano.

Por fim, em dezembro, um texto que mistura filosofia de banheiro, gatos tocando piano, duas garotas e um copo e Kevin Smith. E para finalizar, mais uma resenha de álbuns, desta vez da estranhíssima Susan Boyle, que fez uns covers à la Emmerson Nogueira só que ao estilo Andrea Bocelli. E tem também esta retrospectiva que você está lendo agora.

É isso aí, moçada. 2009 já era, agora só em 2010.

15 de dezembro de 2009

O retrato de Susan Boyle

Acho que todo mundo sabe quem é Susan Boyle: aquela mulher feia e gorda que ficou famosa por ser feia e gorda mas ter uma baita voz. Pois bem, esse fait-diver ambulante recentemente lançou um CD, fato que foi noticiado com estardalhaço no mundo inteiro, mas que, aparentemente, poucos se prestaram a ouvi-lo, já que não lembro de ter lido de relance nenhuma análise séria por aí.

Então resolvi dar uma chance para Susan e conferir qual é a desse álbum. E a maior surpresa é que ele não chega a ser ruim e isso já é bastante coisa. A verdade é que ninguém (eu, pelo menos) esperava muito dela. Mas ela resolveu mirar para o pop, com covers de Rolling Stones ("Wild Horses"), Madonna ("You'll See") e The Monkees ("Daydream Believer") para atingir as massas ignárias e aculturadas que vivem em seu mundinho pós-YouTube (mas lógico que isso é pura especulação).

A grande verdade é que o disco não traz qualquer diferencial a não ser o tal fenômeno Susan Boyle. Todas as músicas seguem aquele estilão clássico modernoso, mas sem muita personalidade. O problema é que, embora Susan cante muito bem e todas as faixas sejam impecavelmente bem produzidas, na minha opinião faltou ousar mais, mostrar um estilo próprio – o que talvez ela não tenha ainda, já que se iniciou deveras amadurecida para a música. Não há qualquer alteração na melodia da voz, no estilo ou coisa assim – a única excessão é o jazz Cry Me a River, mas que ainda não bate a versão de Ella Fritzgerald. A impressão que fica é que "I Dreamed a Dream" é um álbum conservador para um público muito conservador.

Isso fica claro quando se compara as versões originais com as boyledianas. A interpretação do supracitado "Wild Horses", por exemplo, faixa que abre o CD, é interessante porque lembra pouco a do Mick Jagger e parece ter um toque mais pessoal (em entrevista, ela falou que se identificava muito com essa música). Mas, no restante, falhou-se enormemente neste sentido. O "You'll See" da Susan é quase o mesmo da Maddona – muito mais apoteótico, é verdade, mas em termos de ritmo e estilo são muito semelhantes. Ora bolas, isso até o Emerson Nogueira faz. Todo mundo sabe que o que torna uma versão cover legal é exatamente quando o artista dá uma cara pessoal à música homenageada, como faz o Me First and The Gimme Gimmes.

Mas é preciso reconhecer que o disco tem as suas qualidades. Como disse antes, a produção é bem feita e Susan tem talento. Portanto, não tem muito segredo: o produtor só precisa seguir o script e jogar com o regulamento debaixo do braço, sem precisar fazer grandes revoluções na mesa de som. Os arranjos, mesmo os feitos só pelo piano, são muito bons. Quando outros instrumentos se unem, o resultado fica quase cartático.

Para o bem ou para o mal, esse álbum de estreia mostrou a verdadeira face de Susan Boyle. Ela canta bem e de forma natural, mas seu estilo é cru. É óbvio que a gravadora quis lançá-la o quanto antes no mercado (ao invés de esperar ela se aperfeiçoar nesse aspecto) para aproveitar o máximo do fenômeno em torno de sua imagem – e, de quebra, descolar uma boa publicidade viral no vasco. Mas ele não deixa de ser uma boa opção de presente para o amigo secreto no Natal, ao lado de um disco do Roberto Carlos.

Diva?

Apesar de ter vendido bem, algo em torno de 700 mil cópias em uma semana,  a recepção dos críticos foi bem fria. A impressão que deu é que o pessoal considerou o álbum como mais uma desssas farsas da indústria fonográfica, do tipo Mallu Magalhães ou Lilly Allen, só que estas foram abraçadas pela mídia especializada. Não que Susan não seja uma farsa, mas tudo isso ajuda a mostrar qual é a real da música pop.

O fato é que em tempos de Auto-Tune saber cantar ou ter um mínimo de talento musical é um detalhe (Lady Gaga que o diga). Com algumas exceções, o que se dissemina no mundo pop é uma imagem estilosa, uma atitude de porralouquice e uma jovialidade rebelde de James Dean. Já Susan não passa de uma caipira de meia idade do interior da Escócia cujo único aditivo deve ser uma xícara de chá com leite.

Por isso, acho quase impossível que ela consiga uma carreira musical sólida. No futuro, será mais fácil lembrá-la pelo viral da internet do que pela sua música, como aconteceu com o Rick Astley. Pra piorar, é natural que o hype em torno desses fenômenos midiáticos descresça com o tempo (a exceção talvez seja o vídeo do Batima, que ainda me proporciona alguma alegria adolescente). Então, não foi desta vez que a cultura pop ganhou mais um símbolo da resistência dos feios. E isso tanto por defeitos próprios quanto por estar muito fora do tal padrão.

Ouça aqui.

13 de novembro de 2009

Jogos para sempre: Day of the Tentacle




Pode perguntar pra qualquer marmanjo com mais de 20 anos: 9 em cada 10 vão dizer que a melhor geração de videogames foi a dos anos 90. E sem aquele papo ranhento de saudosismo da adolescência. É algo mais factual: a referida década, para os nerds, equivale à geração de Pelé para o futebol brasileiro. Foi o auge do videogame-arte, que não tinha aquele amadorismo do Atari, tampouco o apego doentio à realidade da gen atual. Era tudo feito na base do suor, do amor à camisa e da criatividade dos programadores. Naquela época, o esquema era totalmente diferente: o jogador era obrigado a extrair o máximo de sua massa cinzenta – ao invés usá-lo para ficar admirando a qualidade gráfica do fiapo do vinco da calça do figurante.

Digo isso porque recentemente rejoguei o "Day of The Tentacle", certamente um dos games mais legais da história. Como um bom adventure, gênero praticamente morto nos dias atuais, a mecânica consiste em descobrir pistas durante a jogatina para resolver quebra-cabeças. E para isso não precisava de uma jogabilidade revolucionária (pois era jogado pelo mouse) para divertir, só uma boa e envolvente história já resolvia a parada com maestria.

O jogo começa na mansão-hotel do Dr. Fred, um cientista maluco que despeja lixo tóxico de seu laboratório secreto sem remorso. Até que um tentáculo roxo, que estava hospedado no local junto com seu amigo tentáculo verde, entra em contato com a química e sofre uma mutação genética que lhe dá braços e uma monstruosa inteligência malígna, que pretende usar para dominar o mundo. Dr. Fred, então, captura os dois tentáculos e prepara o procedimento de morte. O verde, que não tinha nada a ver com isso, chama os três personagens principais – o nerd Bernard Bernoulli, o metaleiro Hoagie e a psicótica Laverne – para ajudá-lo. Só que eles acabam soltando também o maléfico e terrorista tentáculo roxo, que sai para botar seu plano em ação.

O que torna o dia do tentáculo diferente de outros excelentes adventures, como "Full Throttle" e "Sam & Max", é a possibilidade de alterar o espaço-tempo de acordo com suas ações históricas. Explicando melhor, para poder deter o tentáculo roxo, Dr. Fred envia os três de volta para o começo do dia para que evitem que o tentáculo roxo se torne um mutante do mal. Só que o processo de transposição temporal dá errado e Hoagie é enviado ao passado, Laverne para o futuro e Bernard volta para o presente. Assim, por exemplo, quando Hoagie altera a bandeira norte-americana para uma em forma de tentáculo, automaticamente, no futuro, elas são trocadas nos mastros das casas. Isso torna a solução de certos quebra-cabeças muito mais desafiante, porque as possibilidade de interação são inúmeras.

O game teve como co-autor Tim Schafer, que também foi responsável pela série "A Ilha dos Macacos", "Full Throttle" e "Grim Fandango". Recentemente, ele trabalhou no game Brütal Legend, que mistura adventure com elementos de ação, estratégia e missões à la GTA. Não sei se é tão bom quanto os outros jogos que ele tem no currículo. Mas o fato é que hoje parece quase impossível criar bons adventures como nos anos 90, quando a LucasArts apostava uma boa grana no gênero. Porém, na virada do milênio, os jogos de tiro para PC começaram a reinar e ficamos só na saudade (dos tempos em que saíam bons adventures).

3 de novembro de 2009

Microrresenhas da Mostra de SP 2

PIXO (PIXO) - 2009 - Brasil
Documentário de João Wainer e Roberto T. Oliveira revela a cara da pichação em São Paulo. Jovens vindos da periferia percorrem a cidade, sobem em prédios e escalam muros para se divertir e chocar a burguesia com suas letras ininteligiveis. O filme não toma partido, não os mostra como vândalos nem artistas, mas deixa claro a falta de perspectiva para essa juventude.
Avaliação: Excelente

29 de outubro de 2009

Microrresenhas da Mostra de SP

BANANAS! (BANANAS!) - 2009 - Suécia
O documentário narra a batalha judicial entre trabalhadores de um bananal na Nicarágua e a empresa americana dona da plantação. No centro da discussão, o uso ilegal de um pesticida nocivo à saúde. O diretor Fredrik Gertten conseguiu tirar leite de pedra, pois o assunto torna difícil obter boas imagens, mas a figura do excêntrico advogado Juan Dominguez deu brilho à história.
Avaliação: Muito bom

FIQUE CALMO E CONTE ATÉ SETE (ARAM BASH VA TA HAFT BESHMAR) - 2008 - Irã
Drama conta a história de um garoto que espera o retorno do pai após este ter levado clandestinamente algumas pessoas para fora do Irã. Paralelamente, um homem que faz contrabando de produtos vê seu casamento se deteriorar. O filme tem o melhor do cinema iraniano: belas imagens e o uso inteligente e criativo da câmera. Mas a narrativa se perde em alguns momentos.
Avaliação: Bom

19 de outubro de 2009

10 razões para não acreditar em listas

Em tempos de crise, a jogada de marketing mais marota do jornalismo é produzir listas sobre qualquer coisa só para turbinar as vendas e conquistar o bolso do leitor incauto. O assunto não importa, muito menos sua legitimidade, o que importa é que haja uma lista. Mas será que elas merecem o tanto de atenção que recebem?

Conheça agora os dez motivos para não acreditar em listas:

10) Tirando as listas de coisas mensuráveis (do tipo "os maiores prédios do mundo"), qualquer outro critério de escolha pode ser contestado, por mais cartesiano que pareça. No ranking da FIFA, por exemplo, sempre tem uma seleção brincalhona entre os melhores, neste caso a Croácia, embora seja utilizada uma fórmula de física quântica para calcular os pontos.

9) Questões culturais tem influencia direta no resultado. A escolha das mulheres mais bonitas do mundo podem ter resultados diferentes se for feita no Japão ou no Brasil. E os filmes que os europeus assistem nem sempre são os mesmos que os americanos gostam.

8) Listas baseadas em média de notas normalmente não dão muito certo. Ou como explicar que o nada criativo GTA IV esteja em segundo lugar no GameRankings?

7) O critério de uma lista pode até ser científico, mas eles não resistem aos "ses". Nada contra dizer que Pelé é melhor que Maradona porque ganhou mais títulos e fez mais gols. Mas e se Pelé tivesse jogado na Europa? E se o campeonato brasileiro fosse minimamente mais organizado nos anos 60? Como ele jogaria no esquema tático pós-Carrossel Holandês? Ou com o nariz cheio de pó?

6) Como já mostrava o filme "Alta Fidelidade", o que importa numa lista são os cinco primeiros. O resto poderia ser embaralhado que dava na mesma.

5) A maior prova de que muitas listas são feitas de qualquer jeito é o famoso caso do jogador moldavo Masal Bugduv, que foi incluído na lista das 50 maiores promessas do futebol pelo The Times sendo que ele sequer existe. Bugduv não passava de um "hoax", termo usado na internet para "pegadinha do Mallandro".

4) Listas nada mais são do que um reflexo do presente. Na eleição dos melhores álbuns brasileiros, "Acabou Chorare", dos Novos Baianos, ganhou menos pela sua importância histórica do que pelo revival tropicalista que rolava há uns três anos por causa do retorno dos Mutantes. Se uma lista desta for feita novamente hoje, o resultado certamente será diferente.

3) Normalmente, listas são lotadas de obviedades. A de melhor álbum de todos os tempos sempre vai ter um dos Beatles, assim como o de melhor filme sempre será "Cidadão Kane". E quem não seguir esse dogma, corre o risco de ser crucificado e acusado de querer aparecer. Se é assim, para que fazer uma lista, então?

2) Quando a questão é fazer uma lista democrática, esbarra-se em um dilema: deixar o público eleger ou não? Se sim, corre-se o risco de ter o resultado facilmente adulterado na internet pelo pessoal do 4chan. Caso contrário, pode acontecer o que já foi relatado no item nº 3, já que jornalistas costumam pensar em bloco.

1) A função social de uma lista não é sua capacidade de emitir supostas premissas ou verdades, mas de causar confusão. Quanto mais pessoas discutirem e contestarem seu resultado em uma mesa de bar, melhor.

Portanto, siga essas recomendações e não acredite nela. A verdade é que listas são legais pra cacete, ainda mais quando podemos criar nossas próprias.

4 de outubro de 2009

Muito além do limite






De uns tempos para cá, a mina de ouro de Hollywood tem sido as animações pseudo-infantis em 3-D – digo "pseudo" porque, embora sejam voltadas para crianças, os roteiristas desses filmes adoram colocar piadinhas exclusivas para os adultos mais serelepes darem umas saborosas risadas. Isso levou praticamente todos os grandes estúdios a marcharem rumo ao Oeste em busca da fortuna prometida. Era praticamente uma garantia de grana fácil. Porém, o uso de fórmulas batidas criou uma terra sem lei e ordem. Quando viram que "Procurando Nemo" estava dando altos lucros, alguém teve a criativa ideia de lançar um filme chamado "Espanta Tubarões". Isso sem falar nas constantes sequências de franquias, mostrando que os produtores não estão muito a fim de gastar massa cinzenta para ganhar dinheiro.

Mas nesse universo mais na defensiva que futebol italiano, a Pixar continua sendo uma das poucas a trazer alguma inovação. Depois de "Wall-E", eles trataram de revolucionar novamente a linguagem das animações com "Up! - Altas Aventuras". No filme pós-apocalíptico do simpático robozinho lixeiro, a Pixar elevou as animações em 3-D a um novo patamar, se aproximando pela primeira vez dos filmes de arte: tiraram os diálogos (como no filme "Casa Vazia") e abusaram das referências. Já em "Up!", a narrativa é feita de maneira muito profunda, sendo conduzida pela própria psique do protagonista, ao invés da superficialidade dos tradicionais conflitos internos entre os personagens envolvidos.

O enredo conta a história do velhinho rabugento Carl. Ele vive sua vidinha pacata, sem grandes perspectivas, desde que sua mulher morreu. Para piorar, uma construtora quer colocar sua casa abaixo. Para fugir dos problemas, nada mais lógico que colocar balões em sua própria morada e ir voando até uma cachoeira perdida na América do Sul – lugar que sua esposa sempre quis conhecer. Só que, por acaso, um moleque escoteiro acaba pegando uma carona, alterando os planos de viagem.

A história é bastante simplória, como não haveria de ser diferente – afinal é um filme para crianças e não um "Akira". Mas a questão importante aqui é como ela é narrada. Nos primeiros dez minutos, a vida de Carl é mostrada desde que era um pirralho medroso e tímido até os últimos momentos de sua amada mulher. E tudo é contado de maneira belíssima, com uma espetacular trilha sonora, e abusando do dramalhão, como se fosse uma "Lista deSchindler" em CG.

E é aí que mora a diferença. Assim como em "Os Incríveis", a angústia do personagem transparece de maneira muito clara. Conhecemos na pele seus conflitos, deixando na cara seu apego ao passado. Mas, diferente do Sr. Incrível, Carl não tem como voltar aos velhos tempos – muito menos trazer sua mulher de volta. A solução que encontra é navegar a fundo em suas lembranças, personificada na casa onde moraram e que se torna o último elo com a sua falecida companheira. Porém, aos poucos, ele abandona esse apoio cego ao compreender que as recordações não passam disso: meras recordações.

Não é à toa que "Up" foi o primeiro filme de animação a abrir o Festival de Cannes. Os cinéfilos em geral são loucos por filmes sobre dramas pessoais psicologicamente complexos. E nesse caso, "Up!" cai como uma luva. É só uma pena que o vilão da história não seja tratado da mesma forma, parecendo mais um gênio louco do que um homem injustiçado. E os mais cri-cris podem reclamar de alguns furos mal explicados no roteiro, mas, poxa vida, isso é desenho animado e não neo-realismo.

14 de setembro de 2009

Fixing a Hole: Beatles remasterizado

Há mais de 20 anos, mais precisamente em 1987, o catálogo em CD dos álbuns dos Beatles finalmente chegava às lojas, popularizando de vez essa então nova mídia e aposentando os velhos bolachões analógicos. Porém, a realidade mostrou-se mais implacável: a versão digital tinha um som ridículo. A maioria dos fãs sempre reclamou do som abafado e pouco nítido dos CDs em comparação aos LPs, como se estivessem ouvindo com um travesseiro na cabeça. Lógico que os saudosos chiaram como um disco mal prensado, porém nada foi feito para reverter essa questão, já que a marca Beatles é algo que sempre vende. Mas o sonho ainda não tinha acabado.

No último dia 9, uma nova edição de CDs remasterizados do Fab Four desfez essa cagada histórica da EMI. A gravadora montou uma equipe de engenheiros de som no mítico estúdio Abbey Road num projeto que durou quatro anos e contou com tecnologias mais avançadas de gravação e mixagem aliadas com equipamentos mais vintages. E tanto investimento e esforço por parte da major foi recompensado.

Ouvi dois álbuns em estéreo, Sgt. Peppers and the Lonely Heart’s Club Band e Abbey Road, e comparei com os CDs remasterizados pelo Dr. Ebbets que circulam na internet. E posso dizer que a qualidade está levemente melhor, o que é impressionante visto que a versão em questão é em 320 kbps, enquanto os do Ebbets são em FLAC.

Antes da análise em si, é importante abrir um parênteses. Dr. Ebbets é o pseudônimo de um misterioso engenheiro de som que, puto com a qualidade tosca dos CDs originais dos Beatles, resolveu fazer sua própria remasterização digitalizando, com equipamentos de alta qualidade, diversas versões de vinis que garimpava pelo mundo. Entre eles estão as caríssimas coleções audiófilas da MFSL (relançamentos em vinil gravados na metade da velocidade) e as edições japonesas e alemãs, elogiadas pelo excelente material de prensagem.

Até o momento, as versões digitais do Dr. Ebbets eram consideradas as melhores já produzidas. Tanto que, na web, um dos passatempos dos beatlemaníacos era trocar figurinhas sobre esses CDs e encontrar o cálice sagrado, a versão definitiva, do Fab Four. Pois bem, a busca terminou. Quando se sabe que o próprio Ebbets teceu elogios à remasterização e anunciou sua aposentadoria, isso tem um significado monstro para o universo da audiofilia.

De maneira geral, a remasterização corrigiu aquele que, na minha opinião, era um dos poucos defeitos das versões ebbetianas: os médios tinham pouco destaque se comparados aos ótimos graves e agudos. A razão dessa deficiência talvez seja da própria mixagem dos vinis, se levarmos em conta que eles foram gravados em apenas quatro canais, mas isso é pura especulação. O fato é que a nova versão deixou o som muito mais balanceado e agradável.

Logo no início de Sgt. Peppers, já dá para reparar a mudança. Na faixa-título, ouve-se com nitidez o ruído do público e da orquestra do clube dos corações solitários nos primeiros minutos de música. E a guitarra de George Harrison ganha destaque na parte do "Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band, We hope you will enjoy the show..." como nunca tinha ouvido antes. Em geral, usando um bom sistema de som (ou um bom fone) dá para ouvir com nitidez todos os instrumentos, até mesmo em "Being for the Benefit of Mr. Kite!" com sua mescla de sons étnicos. Isso devolveu ao "A Day in The Life" a beleza usurpada pela masterização antiga.

Se era notável a melhora em Sgt. Peppers, em Abbey Road o negócio foi mais ignorante. Para começar, a batida nas cordas do baixo em "Come Together" ficaram mais fortes, com muito mais punching. Aliás, em praticamente todas as músicas, o instrumento de Macca acaba se destacando. Fora isso, "Here Comes The Sun" ganhou mais vida, graças ao som nítido do arranjo de cordas ao fundo. 

Deixe estar
 
Pela amostra que ouvi, é fato dizer que a remasterização conseguiu honrar o legado dos Beatles, certamente a discografia mais importante da música pop. Mas é de se perguntar se não veio tarde demais. Como já havia dito em um texto anterior, a distribuição digital já é uma realidade difícil de ignorar (quer dizer, exceto para as majors). E o iTunes estava aí, abanando o rabinho e fazendo cara de dó. Não é segredo que Steve Jobs é louco pelos Beatles (o nome Apple não saiu do nada) e bem possivelmente faria de tudo para lançá-los na era do mp3. Mas a gravadora decidiu que ainda não é hora de entrar no mundo "legalize", embora seja certo que esse dia chegará.

Na real, acho que o que a EMI quer mesmo é ver até onde vai o CD. Antes do lançamento da nova versão, pensei aqui com meus botões: já que é um produto voltado para entusiastas e audiófilos (ou seja, para quem curte toda a experiência de ouvir música), por que os caras também não lançaram em SACD ou DVD-A? Para que ficar preso nos 44,1 Khz sabendo que um fã dos Beatles ou compraria de qualquer maneira ou baixaria na internet?

Só que, ouvindo a remasterização, pensei melhor. Se a EMI lançasse o catálogo dos Beatles em um outro formato, seria decretado oficialmente o fim do CD. Não que o SACD vá se tornar padrão algum dia, mas ficaria mais evidente que o CD está ficando ultrapassado em termos de qualidade de áudio e sua razão de ser se esvaziaria. Se o motivo pelo qual as pessoas ainda compram CDs é pelo seu som, e há uma defasagem quanto a isso, então é melhor partir logo para o mp3, que é muito mais prático. E dessa contestação, pode ser que um novo padrão surgisse, como aconteceu com as TVs HDTV e com o Blu-ray, apesar da popularização do Divx de baixa resolução.

Isso seria um tiro no pé das gravadoras. Elas teriam que adaptar todo o sistema de captação de áudio e de gravação que já está consolidado, o que acarretaria em todo um investimento que encareceria a produção (o que, aliás, é um entrave que o SACD ainda não conseguiu resolver). Por isso, é muito mais prático desenvolver tecnologias para melhorar a masterizaçao de um disco do que para criar um novo formato. E foi isso que a EMI fez com os Beatles. Apostou todas as suas fichas para mostrar que CDs ainda podem ter qualidade comparável aos de alta definição e que isso é bom tanto para os audiófilos quanto para o público médio. Se isso vai funcionar? Depende. Se eles continuarem prezando pela qualidade da masterização e abandonarem a prática nociva do loudness, talvez o público se toque das diferenças entre o mp3 e o lossless.
 
Mas pelo que tudo indica, esse relançamento dificilmente mudará o cenário atual. Fora os Beatles, há pouca coisa que ainda valha a pena pagar para ouvir -e isso é culpa da própria indústria pop, que está demasiadamente nivelada por baixo.

13 de agosto de 2009

Ainda estou certo*

*Originalmente publicado com o título "Know-how" no agora-falecido Epítetos Espiclondríficos.

Outro dia estava em um ônibus, voltando para casa. Era um daqueles ônibus das frotas novas da capital, cheio de degraus e desconforto. Estava com o habitual mau-humor de quem acorda aos sábados para marcar presença em aulas de faculdade. Na verdade, aquele seria o último sábado atendendo os interesses universitários, e logo naquele dia algo de extraordinário teria que acontecer, começando pelo número ameno de pessoas por m².

Já estava acomodado em um assento individual quando, passados três pontos, entram neste ônibus uma senhora e seu neto (Se não era neto é porque a dona tardou a ter filhos). Havia outras crianças no veículo, mas esta era cheia de si. Devia ter uma ideia errada sobre o que é a vida ou pior, tinha um complexo de egocentrismo exacerbado. - O leitor pode achar que minha azia em relação ao garoto é gratuita e que eu devo odiar crianças. Para ser sincero eu odeio algumas crianças, sim, mas deixe-me contar a história sobre esse infante ingênuo. – Começou quando o menino pediu para que um senhor mudasse de lugar para que ele pudesse sentar ao lado da avó (ou mãe). Conseguiu. Lá foi o senhor para o banco do meio do fundo do ônibus, abrindo espaço aos lugares da esquerda (de quem olha de frente) na simpática janelinha de fundo de ônibus, onde a mulher e o neto (ou filho) descansaram suas ancas.

“Olha, ‘tá garoando” – disse o garoto, interpretando alguns pingos d’água no chão, que não passavam de gotas provenientes da lavagem da calçada, e ignorando os estonteantes 32º que o faziam usar uma regata azul ‘mamãe acho que sou gay’. “Não, meu filho - sem dar certeza de que era realmente filho, e lembrando que avó chama neto de filho às vezes, principalmente quando quer reclamar de alguma coisa. Ex: Que dor nas costas, meu filho; Isso é muito caro, meu filho; No meu tempo, meu filho; etc. – é só o homem que lavou a calçada”.

E logo quando estávamos falando em calçada, surge – para o deleite dos fanáticos por trânsito – bem à frente do ônibus um caminhão-betoneira que carregava o concreto que seria utilizado na construção do que parece ser uma sede administrativa do HCor. “Qual o nome desse caminhão?”, perguntou inofensivo o garoto para o... senhor que havia lhe cedido o lugar. Muito pacientemente o velho responde “Um caminhão-betoneira”. A avó complementa: “Ele carrega concreto”. “E o que é concreto”, pergunta o garoto. “É o que eles usam pra fazer calçada”. “Hmmm – disse o garoto – não gosto de concreto. Vou chamar de cimento”. “Mas concreto é feito com cimento também”, alertou a dona. “Não tem problema. Vou chamar de cimento”.

Na verdade a história só vai até aí. Só quis relatar porque lembrei de um diálogo fantástico do livro “O Guia do Mochileiro das Galáxias” que será transcrito de maneira pífia. É a história de uma baleia que ganha vida à 20km de altura da terra e está prestes a cair no chão, não na água (e não que fosse fazer muita diferença, agora que parei para pensar). “Nossa. Que sensação boa. O que é isso? Sinto pelo meu corpo todo. Não sei o que é, mas vou chamar de vento. Depois descubro o que o vento faz. Olha só. Eu consigo mexer isso aqui pra lá e pra cá. Vou chamar isso de cauda. E o que é essa coisa grande e marrom que fica crescendo cada vez mais? É muito grande! Vou chamar de chão. Será que vou ser amigo dele?” E a baleia finalmente se espatifa no chão.

Não querendo criar paralelos - mas não tendo outra saída – isso é exatamente o que vai acontecer com o garoto esnobe do ônibus. Mal sabe ele que algumas palavras como “desemprego” ou “tristeza”, quem sabe até “solidão” não mudam de sentido, indiferente do seu cimento. X³ + Y ² + Z = 77, como ele aprenderá, não é 0, indiferente do que ele quer pensar que seja em alguma prova de matemática no futuro. Nem que Kant é um filósofo, enquanto o garoto do ônibus acreditava que fosse um jogador de futebol da Holanda.

Pensando melhor, Kant tem a ver com isso. O conhecimento empírico é justamente a queda da baleia. A experiência derradeira. Passar pela vida, e ela te ensinar que você está errado. Dói.

4 de maio de 2009

Um post que não é um post.

Como diria Cléber Machado, o texto a seguir "é um post mas não é". Ele sem dúvida é um texto, com direito a título e data de nascimento, o que o torna um post. Mas não é um post, pois não trata o tema com originalidade.

Ao invés de escrever um comentário sobre o último texto e dar minha opinião, resolvi escrever um texto novo. É o que na internet se conhece por "RE" diminutivo para reply. E se você realmente não sabia disso, provavelmente também não entendeu a piadinha do Cléber Machado, o que é muito triste.

Enfim, este assunto (a pirataria) é muito delicado e eu o trato da seguinte forma: Dadas as taxas elevadas para - o que eu vou chamar de - "consumo cultural" (ingresso de cinema e cd's, por exemplo) corre-se um risco muito grande de ver seu dinheiro indo pro lixo com algo que você talvez não se satisfaça. O que o consumidor quer é consumir um produto bom e evitar "investimentos de risco".

Há uma lista que roda por aí que compara os top 10 filmes pirateados com os top 10 sucessos de bilheterias. Tirando um ou dois blockbuster-estoura-boca-do-balão-filme-de-herói-dos-quadrinhos, a lista é completamente diferente uma da outra. Os filmes vistos em salas de cinema são em sua maioria filmes que passam do julgamento "bom ou ruim" pois tem um número assíduo de fãs. Estes mesmos fãs, inclusive, são os que mais procuram o material na internet para matar a curiosidade. Ao mesmo tempo eles promovem a pirataria e ajudam na arrecadação.

Outra razão para a diferença entre as listas é o fato de o próprio estúdio investir pesado em títulos de retorno garantido. Acabam sem fazer grandes propagandas virais de outros títulos. Isso afeta a arrecadação de bilheteria no mercado interno (EUA). Sem arrecadação o filme não consegue abertura em mercados estrangeiros com as distribuidoras, o público fica sem filme, o público apela para a pirataria. O caminho da pirataria é sempre esse.

O mesmo acontece com a música. Eu realmente acredito na idéia de que uma pessoa compra um produto original bom porque reconhece em algum ponto sua qualidade. O PirateBay é uma casualidade da guerra. Depois será o Mininova e o Isohunt, e por fim, o próprio Google. Eles não são cúmplices, de uma certa forma, ao fornecer resultados de pesquisa de torrents? Facilitadores do crime?

E aí está o ponto de partida do desenho no outro post. E eu termino com um também:

27 de abril de 2009

Obrigado por nada, indústria fonográfica

Na sexta-feira passada (17 de abril), a justiça sueca sentenciou os donos do site de torrents Pirate Bay a um ano de prisão por cumplicidade na violação de direitos autorais. Eles também deverão pagar multa de US$ 3,65 milhões às gravadoras, aos estúdios cinematográficos e às desenvolvedoras de games que entraram com o processo contra o site por perdas e danos. Os advogados de defesa deverão recorrer da decisão.

Apesar de toda a expectativa contrária, pelo menos da minha parte, a decisão já era esperada. Dentro dos tribunais, representantes da indústria fonográfica ganham de goleada da turma pró-download. O pioneiro Napster foi também um dos primeiros a experimentar o que é ser intimado pelas gravadoras. Em 1999, época em que a conexão discada era a lei, o criador do programa, Shawn Fanning foi condenado por violar copyrights e seu servidor foi fechado. Alguns anos depois, o Napster retornou das cinzas, mas totalmente desfigurado (pago e servindo de capacho da indústria), como se tivesse sofrido uma lobotomia. Limewire, Grokster, Morpheus e outros programas P2P também não tiveram muita sorte nos julgamentos e tiveram que ser desativados. Recentemente, no Brasil, a comunidade Discografias não aguentou a pressão das majors e teve que ser fechada -mas parece que está retornando aos poucos.

O caso do Pirate Bay tinha tudo para integrar essa lista -e de fato integrou. Mas a sagacidade dos réus levou esse julgamento a um novo patamar. Se o motor do site era a coletividade, nada mais lógico que os usuários ajudarem conjuntamente na defesa do site. Uma das ofensivas começou com a criação de um blog para acompanhar o andamento do caso, só que tudo narrado de um jeito muito sarcástico, como se tudo o que acontecesse lá fosse fruto de um grande circo -o que não deixa de ser verdade. Só é uma pena que boa parte dos textos tenha sido deletada.

Durante o processo, ficou evidente a ignorância das gravadoras quando o assunto é internet. O Pirate Bay teve até que chamar um especialista para explicar como funciona o sistema Bittorrent, explicando o porquê deles não poderem ser considerados culpados pelos downloads ilegais e que sua extinção não significaria o fim dos downloads. Seria o mesmo que acusar o Google de incitar a violação de direitos autorais só porque divulga links de sites de mp3. Coisas da web 2.0.

Para exemplificar melhor esse quadro e ainda fazer uma graça, a defesa usou o bizarríssimo argumento King Kong, que foi bastante comentado nos blogs: "É preciso haver uma ligação entre os perpetradores do crime e os usuários. Esta ligação ainda não foi comprovada. O promotor precisa mostrar que Carl Lundström (um dos criadores do PB) interagiu pessoalmente com o usuário King Kong, que pode muito bem ser encontrado nas selvas do Camboja". Pelo que eu li por aí, qualquer relação com a tese Chewbacca, do South Park, não é mera especulação.

Do outro lado, John Kennedy, presidente do grupo de gravadoras que entrou na justiça, deu seus argumentos contrários à distribuição ilegal de músicas na internet. Ele disse que as vendagens de CDs caíram, nos últimos dez anos, de US$ 27 bilhões para US$ 18 bilhões. Em 2001, o CD mais vendido daquele ano tinha comercializado 13 milhões de unidades, enquanto que, em 2008, o campeão Coldplay havia vendido só a metade disso. Certamente, a culpa é das pessoas que baixam arquivos pela internet e não a incompetência estratégica da indústria. Faltou pouco para o pessoal do tribunal passar uma sacolinha de doações para as pobres majors.

Este é o fim?
É chover no molhado dizer que a indústria fonográfica está em uma eterna crise. Acho que os fatos dizem por si. Mas não exatamente uma crise econômica, como se pode ver, e sim uma crise de identidade. Desde o começo da década, os analistas mais conservadores já davam como certo o fim da mídia física. Com o advento da banda larga, as coisas só pioraram para o lado dos produtores. Porém, ao que tudo indica, as gravadoras ainda estão aí, firmes e fortes.

É fato dizer que as gravadoras ainda vendem discos por causa de alguns poucos puristas, como eu, que preferem ouvir músicas em seu estado de natureza (entenda-se Lossless) a mp3 ultracomprimidos de 128 kbps, que conseguem fazer o prato de uma bateria soar como um "tssss" constante. Só isso pode explicar, já que os artistas não ganham nada por vendagem de discos mas por royalties, e mesmo assim eles ainda conseguem ser roubados. Portanto, comprar disco original só porque gosta da banda é um grande erro de lógica.

O fato é que as gravadoras precisam mirar no público certo, e o público certo é aquele que compra discos pela qualidade do produto e não porque está na moda, como se fazia anteriormente. É aquele mesmo cara que pode ficar horas discutindo a qualidade superior do vinil sobre o CD, ou que pretende trocar toda a sua coleção de DVD pela de Blu-ray. Nesse sentido, comercializar discos de qualidade superior, como a EMI pretende fazer com a remasterização do catálogo dos Beatles, é uma boa para ganhar uma sobrevida -inclusive quando se sabe que na internet já rolam arquivos em FLAC de alta qualidade dos LPs dos Fab Four que dão uma surra nos CDs lançados em 1987. E para o resto da patota, o negócio é investir em downloads pagos.

Confesso que até eu ri quando surgiu essa história de pagar para baixar músicas, mas hoje vejo que é um negócio tão louco que pode até dar certo. O Radiohead, o iTunes e o site Trama Virtual mostraram que isso é possível, cada um usando seu modelo, o que dá margem para a criação de outros métodos de comercialização via internet.

Agora, o que é imoral é o fato das majors investirem pesado para coibir a distribuição de músicas, sejam elas pagas ou não, e tratarem os usuários como criminosos periculosos, como faz nosso amigo abaixo.

Desenho feito por Dylan Horrocks. Tradução desconhecida

15 de abril de 2009

Jogador é jogador, músico é músico e jogador-músico é jogador-músico

Já ouvi o Washington cantando sertanejo, o Rogério tocando Pink Floyd e até o Pelé cantarolando em prol das criancinhas. De fato, futebol e música são tão próximos quanto Jorge Ben e o Flamengo. Mas, na crônica esportiva, poucos chegaram a estabelecer um elo definitivo entre esses dois universos, sendo que minha memória só consegue alcançar o nome de Ronaldo, goleiro ídolo/garoto-problema do Corinthians nos anos 90.

Em 1997, quando ainda atuava pelo time paulista, ele decidiu formar uma banda, alcunhada Ronaldo e os Impedidos, e que resultou em um álbum homônimo. É de se perguntar como é que ele conseguia treinar, ficar em concentração, jogar nos fins de semana e ainda sair em turnê, mas isso poucos podem responder. O caso é que a audaciosa empreitada artística provou de uma vez por todas que não é juntando duas coisas legais, como futebol e rock, que necessariamente vai resultar em algo bom.

Isso porque, no conjunto da obra, a qualidade musical do disco não passa do mediano, porém há um detalhe sórdido: o peso do lado exótico nisso tudo. Assim como essas bandas nada a ver de hoje em dia, como Cansei de Ser Sexy, Ronaldo e os Impedidos estavam envoltos por uma aura de ruidosa curiosidade, como se as pessoas se perguntassem: "Isso é para valer ou estão tirando uma com a minha cara?" Aos incautos, só restava arriscar e nem todos devem ter levado isso numa boa.

Por exemplo, parece faltar consistência ao som da banda. Tanto que um amigo meu disse, com absoluta razão, que parece aqueles grupos que tocam nos barzinhos de rock da 13 de Maio, em São Paulo. Não que isso seja muito ruim, mas também não é bom. Os Impedidos parecem ficar entre o blues, passando pelo hardrock dos anos 70 e desaguando vergonhosamente no pop rock dos anos 90, em que se mistura o pior do ska, do punk e do hardrock em um massa amórfica sem sabor. Mas para dizer que não falei das flores, o guitarrista solo é muito bom e consegue se destacar facilmente. Mas, no geral, sinto que faltou o dedo de um bom produtor nessa história.

O que impressiona mesmo são as letras, embora ainda não tenha certeza de quem seja o autor (inclusive, faltam informações confiáveis desse CD na internet. Sem falar que é impossível achá-lo no Mercado Livre, o que dá a impressão de ser tão raro quanto o mítico LP Racional, do Tim Maia). Lógico que é preciso levar em conta que o que estava em voga na época eram bandas como Companhia do Pagode, Tiririca e Katinguelê, então é difícil fazer uma comparação minimamente justa.

Em "Linda Mulher", a canção que abre o álbum, a banda faz uma homenagem ao filme Uma Linda Mulher (O RLY?). Na música, Ronaldo canta as agruras e os sonhos das mulheres da vida, com direito a uma frase filosófica: "Preço está no que se perde e não no que se vende", colocando uma pimenta na lógica marxista de que o trabalhador vende sua força de trabalho ao dono dos meios de produção. Nesse caso, a profissional estipula o preço não tomando como base seu valor produtivo, mas naquilo que ela poderia fazer se não estivesse trabalhando, o que não faz nenhum sentido.

Na segunda faixa, "Ouro no Dente", Ronaldo parece tratar de coisas ocultas, como aparições macabras no meio da noite em plena encruzilhada. Saca só o clima sinistro: "Começou a escurecer, fiquei com medo/ Sai correndo e me perdi", narra o ex-goleiro, ao ritmo de rock blues. Mas o detalhe inusitado é que o tal tinhoso tinha "ouro no dente". Lógico que o goleiro, que não é bobo nem nada, não ficou para perguntar e picou a mula sem olhar pra trás, deixando a besta-fera comendo poeira.

Na música seguinte, infelizmente, a banda destroi o clássico "Proud Mary", do Creedence Clearwater Revival, em uma versão bem mal-feita, então não vou nem comentar. Mas, em seguida está a canção de trabalho deles, "O Nome Dela", uma música de amor e amnésia (alcóolica, provavelmente). Tudo leva a crer que o cara estava tão loki que não lembrava nem do nome da garota e, certamente, tomou um pé na bunda da tal desconhecida -caso contrário, ela fez um péssimo negócio. Em se tratando de melodia é a melhor música do álbum, já que adota aqueles elementos básicos para uma canção de sucesso: refrão pegajoso, riff simples que atravessa a música inteiro, e o uso correto de backing vocals.

Na única balada do disco, "Mesmo que eu me engane", Ronaldo mostra estar mais angustiado do que um goleiro na hora do gol. Na real, essa música de amor, enfeitada só pelos acordes de violão, parece uma continuação da anterior, como se a sobriedade tivesse batido como uma pedra pesada, já que nessas horas o lamento é seu melhor amigo.

E para barbarizar, em "Rockixe"*, o polêmico goleiro parece rasgar o verbo para falar do universo das drogas, como o haxixe, que há anos alimenta o rock. Ao que parece, é uma canção cifrada e sem sentido, como fazia Bob Dylan antes de virar um coroa pé-no-saco. Portanto, isso pode derivar de acordo com as interpretações, mas um trecho específico parece mostrar qual é a real disso tudo: "Eu sou o anjo do inferno que chegou pra lhe buscar / Vim de longe, vim duma metamorfose / Numa nuvem de poeira que pintou pra lhe pegar". Muito tenso.

Como já foi dito aqui, o CD não tem nada de genial, nem mesmo uma canção que te faça cantarolar por horas a fio. Talvez por isso tenha vendido, segundo dados não-oficiais, cerca de 40 mil cópias, o que era igual a nada na era pré-mp3. Não sei ao certo o que aconteceu com as unidades não vendidas (há quem diga que elas foram enterradas em um deserto no Novo México, EUA), mas é bem provável que as poucas que foram adquiridas possam valer ouro no mercado negro. Ou isso, ou os compradores já se livraram de seus exemplares há bastante tempo.

Edit: Clique aqui para baixar o álbum completo.

*Descobri agora que essa música na verdade é do Raul Seixas.

3 de março de 2009

Hunter Thompson e o fim da temporada de futebol americano

No dia 20 de fevereiro de 2005, Hunter Stockton Thompson estava no rancho de sua família, batizado de Owl Farm, na cidade de Woody Creek, em Aspen, onde passou confinado pelo menos nos seus últimos 15 anos de vida. Ele estava sentado em uma cadeira próxima à mesa da cozinha. Seu filho, Juan Thompson, sua nora, Jennifer, e seu neto, Will, estavam no quarto ao lado quando ouviram um som abafado, parecido com o de um livro caindo. Minutos depois, Juan saiu e viu seu pai desacordado, todo sujo de sangue, e uma Magnum .357 no chão. Na máquina de escrever à frente de Hunter, eles encontraram um papel escrito somente "Conselheiro" e "Feb 22 '05'". Aos 67 anos, Thompson, um dos grandes nomes do jornalismo americano, havia acabado de dar um tiro na própria cabeça, como fizera seu ídolo Ernest Hemingway. Uma carta endereçada à sua esposa no dia dos namorados foi considerada o bilhete de suicídio. "Sem mais jogos. Sem mais bombas. Sem mais andanças. Sem mais diversão. Sem mais natação. 67. Já são 17 anos depois de 50. 17 é mais do que eu preciso", dizia a carta, intitulada "A temporada de futebol americano acabou".

Era o fim de uma das pessoas mais exóticas a pisar na Terra. Um jornalista que não foi tão aclamado quanto Gay Talese, Truman Capote ou John Hersey – tanto que, na faculdade de jornalismo, só ouvi o nome de Hunter Thompson uma única vez, em uma única aula e de maneira tão superficial quanto no Wikipédia brasileiro –, mas quem se importa? O cara simplesmente criou o jornalismo gonzo e isso já basta para qualquer homenagem.

É pouco (pouco mesmo) dizer que ele foi o maior responsável para a criação deste blog. Talvez seja por causa dele que decidi enfrentar os quatro anos de faculdade para me tornar jornalista – mas isso ainda é incerto, preciso checar com algum psicanalista. Isso mesmo sabendo que, na prática, nunca colocaria o jornalismo gonzo em ação, exceto neste espaço livre para experimentações.

Pois é fato que tudo aquilo que Thompson inventou pertenceu a uma determinada época, no qual as coisas estavam sendo colocadas de cabeça para baixo. Era o começo dos anos 60 quando ele veio se aventurar no Brasil, para escrever no extinto Brazil Herald, um jornal em inglês para a comunidade norte-americana. Certo dia, seu chefe teve que viajar para o Chile e o então novato repórter ficou encarregado de cobrir um encontro de autoridades estadunidenses no Rio de Janeiro. Lembrando que o ano era 1963, época em que os militares estavam loucos para instaurar sua ditadura e combater os comunistas ou qualquer outra coisa que parecesse de esquerda, um senador mostrou-se preocupado com a América Latina. Thompson, então, resolveu barbarizar, logo no início da matéria.

“Senador Talmadge: 'Se as pessoas mudarem mais rápido do que os governos, isso só vai beneficiar Moscou'. Ninguém entendeu nada, mas deu pra perceber que o tom era sinistro”.

Em 1966, já de volta aos EUA, ele lançaria seu primeiro livro: "Medo e delírio sobre duas rodas", no qual o jornalista narra como foi viver durante um ano com os Hell's Angels, em meio a viagens para recantos escondidos, festas regadas a drogas e orgias e visitas inesperadas ao seu apartamento, que deixavam sua esposa e os vizinhos horrorizados. Só que a relação com a gangue acabou quando os Angels ficaram cismados com Thompson, achando que ele estava a fim de faturar em cima deles, e pediram uma porcentagem da vendagem do livro. Lógico que a discussão foi encerrada com uma porradaria sem tamanho, com ele sendo internado em um hospital.

Nessa época, seu estilo característico começava a transparecer. Ácido, irônico e narrado sob seu ponto de vista, o texto rendeu críticas positivas e começou a delinear aquilo que seria conhecido como jornalismo gonzo. Com o tempo, seu nome ficaria cada vez mais conhecido no meio, abrindo espaço para colaborações em publicações como Rolling Stone, The New York Times Magazine, Playboy e Esquare, o que o permitiu escrever reportagens sobre a campanha presidencial de 1972 e sobre a corrida Mint 400, que posteriormente se tornaria a viagem psicodélica a Las Vegas narrada no livro "Medo e Delírio em Las Vegas".

De fato, o ápice da carreira de Hunter Thompson realmente foi entre os anos 60 até o fim dos anos 70, época da contracultura, das mudanças de valores, das drogas e do nascimento do new journalism. Com a chegada dos anos 80, o conservadorismo da sociedade (e da juventude, principalmente) voltou com força avassaladora, vide a eleição de Ronald Reagan para a presidência dos EUA. Isso abalaria até o mais careta dos jornalistas. Depois disso, ele permaneceu confinado em seu rancho, escrevendo artigos sobre os mais diversos temas e brincando de golfe ao alvo com suas armas de ataque altamente mortíferas.

Uma banana para a posteridade
Mas, afinal, qual foi o legado deixado por Thompson às novas gerações de jornalistas? Se pensarmos bem, o cara foi bem sacana. É fato que o tal do jornalismo gonzo é impraticável por uma série de motivos. Primeiro, por uma questão de fé: até o momento só existiu um jornalista gonzo, que foi ele próprio. Para mim (e para muitos outros seguidores), a criação morreu com o criador e fim de papo.

A outra razão é puramente estilística: é impossível emular o estilo gonzo de escrever. Nem o melhor escritor do universo conseguiria fazer uma reportagem desse tipo sem que soe falsa ou fique com cara de imitação barata. Não foram poucas as vezes que li por aí um suposto texto gonzo e pensei: "Porra. Forçou a barra, hein, champz". Porque não é simplesmente escrever em primeira pessoa, isso Jack Kerouac e John Reed já faziam há bastante tempo. Tampouco fazer apurações chapado de peiote, como Aldous Huxley. Se havia alguma fórmula para fazer reportagens gonzo, Thompson levou para o seu túmulo, ao som de "Mr. Tambourine Man".

De qualquer maneira, escrever no estilo gonzo é algo fora de cogitação, embora bons escritores possam se inspirar nele para criar outros subgêneros do jornalismo literário. Acho que, no Brasil, o melhor que consegue aproveitar as "good vibrations" de Hunter Thompson é André Pugliesi, do Jornalista de Merda, que faz o melhor do jornalismo canastrão (no bom sentido). Só falta ele usar terno de linho branco, chapéu panamá e mascar um palito de dente. Seu estilo é autenticamente brasileiro, parece ter aquele gingado típico das rodas de samba do bairro da Lapa em meados do século passado.

Mas, no geral, o que se vê por aí são tentativas mambembes de se fazer reportagens gonzo, que mais se assemelham com um diário de bordo narrando algum perrengue bizarro. Arthur Veríssimo é o exemplo mais mortífero, pois possui uma capacidade única de estragar uma boa pauta com facilidade. Não sei como ele consegue dormir com um barulho desses. De qualquer maneira, penso que a maioria desses escritores/jornalistas esquecem que o primordial de qualquer texto é contar uma história (boa ou ruim, isso pouco importa). E não precisa nem ter começo, meio e fim, desde que faça o mínimo de sentido.

O desafio dessa geração pós-gonzo é saber se reinventar. Hunter Thompson não conseguiu e decidiu acabar com o mal pela raiz. Certo ele. Do jeito que as coisas andam sem graça e automatizadas no jornalismo, daqui a pouco engenheiros e advogados vão fazer nosso serviço para complementar o orçamento do lar. E garanto que farão um trabalho bem feito.

PS: Antes que algum incauto moralista venha apontar o dedo em minha direção, há de se fazer uma explanação. Definimos alguns textos como "gonzo" por pura falta de definição melhor e também para evitar confusões e explicações desnecessárias. O dia que alguém inventar um neologismo melhor, faremos a devida retificação. E assim como Pugliesi, tentamos o máximo escrever num estilo próprio que, ao mesmo tempo, tenha influências gonzonianas.

14 de fevereiro de 2009

A peleja entre Little Joy e Marcelo Camelo

Diferentemente do que o título possa sugerir, não farei aqui nenhum duelo de morte entre essas duas bandas/artistas. Fazer comparações do tipo “esse é melhor por causa disso ou daquilo”, e decretar um vencedor levantando seu punho cerrado aos olhos da plateia ensandecida, seria tão chato quanto inútil do ponto de vista musical, já que os dois têm estilos e propostas totalmente diferentes. Seria como colocar o Pink Floyd e o Ramones em uma rinha sonora. A ideia aqui é mostrar que os álbuns deles (Sou e Little Joy) são mais complementares do que antagônicos, mesmo que tenham bebido de fontes variadas.

A explicação para esse aparente paradoxo é óbvia. Ambos os CDs são resultado de projetos particulares dos dois principais mentores do Los Hermanos: Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante. E, lógico, embora tenham gostos parecidos, eles têm cabeças completamente diferentes. Talvez a melhor definição que já ouvi sobre isso foi em um bar, quando alguém disse: "O Camelo é mais intelectual do que músico, enquanto que o Amarante é mais músico do que qualquer outra coisa". Ou algo assim.

Na verdade, isso pouco importa. O fato é que ambos os álbuns são bons, mas como tudo é relativo quando se trata de música, vamos relativizar. Quem curte um MPB bom e diferente, vai curtir Sou. Mais ainda, quem gostou de 4, o último CD do Los Hermanos, vai, no mínimo, se identificar com este. Não tem o som pesado de "Horizonte Distante", mas é carregada daquela coisa intimista de "Dois Barcos" e "Sapato Novo". Agora, se Bloco do Eu Sozinho é o que mexe com você, possivelmente haverá pouca empatia.

As faixas são bem trabalhadas musicalmente, em parte graças à qualidade técnica do pessoal do Hurtmold, que faz o apoio. Já as letras seguem aquele espírito meio intelectual do ex-hermano. Não chega a ser um Chico Buarque, mas "Copacabana" é uma empolgante crônica do bairro carioca em ritmo de marchinha, enquanto que a bela "Liberdade" soa como uma ironia à essa dicotomia entre fingir viver e sonhar. Mas é lógico que as chances de eu estar completamente equivocado são altas. Em uma entrevista à Folha, ele falou que compunha meio que de improviso, jogando frases ao léu e montando seu próprio quebra-cabeça. Não sei se esse é o melhor jeito de escrever, mas para mim soa bastante interessante.

Ouvindo algumas vezes o disco, ideias estranhas pipocaram repentinamente. Com o tempo tive a percepção de que Camelo tentou fazer de Sou um Sgt. Pepper's da MPB. Uma hipótese herege para alguns, eu sei, mas que para mim faz sentido (talvez influenciado por um livro que li sobre essa mística obra da música pop). O fato é que o produtor, no caso o próprio Camelo, resolveu deixar algumas "falhas sonoras" no disco, como a conversa entre os músicos antes e depois das música, longos silêncios e efeitos de transição pseudo-psicodélicos entre as faixas. Coisa típica dos anos 60, quando a contra-cultura ditava regras de conduta aos descolados.

Ele também acrescentou, na faixa 9, a instrumental "Saudade". E, como se não bastasse, a faixa 13 é a mesma "Saudade", só que ao invés de tocada no piano, ela é acompanhada por voz e violão. E o acordeon de Dominguinhos, que faz participação especial em "Liberdade", não seria uma alusão à cítara de "Within You Without You"? E o quarteto de cordas em “Santa Chuva” à la “She's Leaving Home”? E o poema concretista na capa? Transgressão é pouco. Praticamente um tapa na cara da nova MPB, o que não quer dizer muita coisa.

Aliás, já que o assunto é anos 60, aproveitarei para falar do Little Joy, o projeto criado por Amarante, Fabrizio Moretti e Binki Shapiro, a namorada deste último. Logo depois de ouvir o disco inteiro, foi difícil não associar a banda com o Velvet Underground, só que (muito) mais despretensioso. Tanto que uma das faixas tem o ambíguo nome de "How to Hang a Warhol" (Como pendurar um Warhol, em tradução literal). Para quem não entendeu, uma vaga explicação: o artista plástico Andy Warhol foi o principal mentor e patrocinador do Velvet Underground, tanto que a banana estilizada desenhada na capa do mítico álbum Velvet Underground & Nico foi feita por ele. Pois bem, essa sensação de déjà vu se acentuou com as canções "Unattainable" e "Don't Watch Me Dancing", ambas cantadas por Binki, cuja voz lembra muito com a de Nico.

Mas, o disco é muito mais heterogêneo do que isso. Além de VU, outras influências se sobressaem. As primeiras faixas remetem ao som do The Kinks, do The Animals e até do The Beach Boys, se formos forçar um pouco. Depois, "Shoulder to Shoulder", "Keep Me in Mind" e "How to Hang a Warhol" tem muito da pegada do The Strokes. E a última canção, "Evaporar", é Los Hermanos puro.

Mas por ser um projeto -como já foi dito aqui- despretensioso, até que essa aparente falta de originalidade não incomoda tanto, principalmente, para ouvidos despretensiosos. Pois é um rock bem trabalhado e gostoso de se ouvir, como era feito nos saudosos anos 60. E há uma grande vantagem, a meu ver, neste disco, que é sua ótima qualidade de gravação. Apesar de serem um trio, Little Joy enche as músicas com sons: desde os básicos guitarra, baixo e bateria, até um ukelele, uma escaleta e diversos instrumentos de sopro e de corda. E toda essa babel foi muito bem captada e mixada pelo estúdio de gravação.

No caso de Sou, por haver talvez muita expectativa, e até alguma ambição exagerada, o resultado final pode ter decepcionado muitos, que esperavam de Camelo uma grande obra, como foi Ventura -e isso, definitivamente, o disco não é. Mas, se em 4 ele já decidira tomar um rumo diferente, quando adotou as guitarras havaianas e o som malemolente inspirado em Dorival Caymmi, não seria diferente em seu disco solo, em que até as marchinhas carnavalescas tiveram espaço. Está certo que, às vezes, ele abusa do rococó, como nas duas desnecessárias versões de "Passeando" e "Saudade", mas tudo bem.

O que importa é que tanto um quanto o outro possuem qualidades e defeitos que podem soar diferente dependendo do ouvinte. Cabe ao fã (ou não) do Los Hermanos decidir qual está mais próximo do seu gosto. Mas, interessante mesmo é ver que a principal semelhança entre Amarante e Camelo, que se tornaram amigos e colegas de trabalho, é o gosto pela música e por sons diferentes. Só que, enquanto o primeiro saltita de projeto em projeto (como na excelente Orquestra Imperial) sempre em conjunto com outros, o segundo chama para si a responsabilidade, correndo os riscos de pisar feio na bola.

Para ouvir:

http://www.myspace.com/marcelocamelo

http://br.myspace.com/littlejoymusic

18 de dezembro de 2008

Tentativa #047 de último texto do ano.


Seria muito legal me despedir de 2008 no BcF com um texto louvável, mas na verdade a inspiração tem passado por mim com a mesma freqüência que um canguru passa pela Imigrantes descendo a serra para surfar.

Neste ano, como nos anos anteriores, caberia uma retrospectiva. É um ótimo exercício analisar um determinado período e refletir o seu papel no desenvolvimento dos fatos, para ver se isso culminará em um ponto em que você comece a achar necessário o exercício de retrospecção ou não. Calcular sua parcela de culpa, por assim dizer. Saber se o saldo ainda é positivo.

Por outro lado, isso é um tanto trabalhoso e pouco frutífero. O que fazemos é testar nossa memorabilidade, sem garantias de que com lembranças estaremos melhores preparados para o que está por vir. Essas são palavras vindas de alguém que acredita no conhecimento através da experiência, que uma vez escreveu um texto louvável em outro blog sobre o mesmo tema. E eu me lembrei deste texto porque queria escrever um igual, mas muito tempo passou e, como disse o outro, um homem nunca entra no mesmo rio duas vezes.

Analisando friamente, chego em dezembro para escrever minha última crônica do ano no BcF (e talvez a última da dupla se o camarada não fizer nada a respeito) com esse pensamento: 2008 foi um ano de encerramentos. Eu estava trabalhando, e agora não estou mais. Eu estava estudando, e agora me formei. Não vejo alguns amigos há mais tempo que deveria, mas gente para conhecer nunca falta. O São Paulo continua campeão brasileiro. Eu ainda dou risada do rebaixamento do Corinthians.

Muitas coisas mudam. Umas para pior, outras para melhor. Uma espécie de equilíbrio natural no qual tentamos interferir para o nosso próprio bem.

Meus sinceros votos de fim de ano.

28 de fevereiro de 2008

15 meses atrás...

Zapeando pelo meu login no computador da Cásper, eu encontrei um texto muito legal que fiz quando estava no segundo ano. Há (quase) exatos 15 meses, no dia 27 de novembro de 2006, eu precisava fazer uma prova substitutiva para a matéria Comunicação Comparada, na época ministrada pelo Luís Mauro, meu atual co-orientador do TCC.

Cheguei atrasado por causa do estágio, o qual completara um mês de labuta intensa, e fui até a minha sala, onde não encontrei uma alma viva por lá. Segui até a sala de Cultura Geral, onde ele costumava ficar, mas no meio do caminho trombei com o bendito. Dali mesmo, no corredor semi-vazio do 5º andar, ele me passou as instruções para a prova: um texto sobre o poder da mídia, usando exemplos reais.

Corri até o computador, esperei meia hora até ele iniciar e comecei a psicografar isso aí:


Conhecimento como verdade e poder

A imprensa de Gutemberg nasceu com uma razão de ser: compartilhar a informação, que antes era restrita aos copistas e monges na Idade Média, para o restante da população. Porém, ultimamente – do século passado pra cá – ela vem tendo um outro tipo de função para a sociedade. Hoje, a mídia dissemina a informação de uma forma rápida, instantânea ao fato, e sem analisar seu contexto, seu momento histórico ou sua história. A notícia tem sua razão de ser nela própria, sem que o conhecimento por completo seja oferecido ao leitor. E é aí que o perigo se esconde.

Jogando a informação no colo do leitor/ telespectador/ ouvinte, a manipulação de informação é mais fácil por parte da mídia. Nada impede que uma rede exponha um fato incompleto, caricaturado ou recheado de argumentos parciais para lubridiar o consumidor da informação sobre certo acontecimento.

É esse o tipo de poder que o filósofo Michel Foucault trata em seus pensamentos. Para ele, o poder não precisa ser autoritário para se estabelecer na sociedade. As inúmeras instituições que cerceiam a vida social das pessoas (família, igreja, imprensa) cada qual possui sua forma e sua intensidade de poder e de exploração do indivíduo. Além disso, o poder de uma instituição não se resume somente na força, mas também no uso do saber ou do conhecimento como arma.

Dessa forma, entende-se que a mídia detém um tipo de poder tão forte quanto a do Estado, já que tanto um quanto o outro podem entrar em conflito – culminando na derrota da democracia. Certos Estados autoritários e ditatoriais já tomaram o controle da imprensa, usando-o a seu serviço, e censurando os opositores. Durante o regime militar brasileiro, o grande porta-voz da ditadura era a Rede Globo, que tratava de omitir certos fatos para alienar a população, como no caso das Diretas Já.

Sendo fonte única e exclusiva de informação, a imprensa ganha dessa forma - atrelada ou não ao Estado - um poder maior do que lhe é verdadeiro. O conhecimento adquire um sentido único e sem contraposição, o que lhe torna autêntico sob a epistemologia de Platão, no qual só é real aquilo que se pode comprovar empiricamente. Quando existe uma unilateralidade por parte da imprensa – uma espécie de discurso comum – a informação adquire uma função de verdade absoluta, quase um dogma, que é difícil de ser desmentido.

Nos tempos de Vargas do pós Estado Novo e do pós-DIP, a imprensa gritava em uníssono contra seu governo democraticamente eleito, tendo somente o diário A Última Hora como apoiador do presidente. Mas o estopim foi o atentado contra o jornalista opositor Carlos Lacerda, alardeado pelos jornais como de autoria de Getúlio. A pressão contra ele foi tão grande que Getúlio se suicidou e, consequentemente, saiu do poder.

Fatos semelhantes ocorreram em 1964 e em 1992. Nos anos 60, a deposição de Jânio Quadros e João Goulart teve total aval da imprensa da época que, mais tarde, foi calada pela ditadura. Em 1992, com o escândalo envolvendo seu governo, Collor foi massacrado pela imprensa, o que foi um passo importante para o impeachment do ex-governador de Alagoas. Portanto, está mais do que comprovado a mídia tem o incrível poder de derrubar presidentes – e eleger, quando lhe convém.

Nota do ombudsman: Eu do passado, só duas coisas. Primeiro, dava para colocar muito mais exemplos da Rede Globo, como aquele caso da manipulação do resultado para governador do Rio, em 1982. E depois, esse finalzinho é bastante dispensável, além de errôneo.

PS: Esse post me lembrou essa tirinha do Calvin & Haroldo.

23 de janeiro de 2008

Procedimento padrão nº 2

- Alô?
- Ahn... alô. Aqui é do Jornal Tudo Bem...
- Tudo bem.
- Er... não, você não entendeu. O nome do jornal é Tudo Bem.
- ...
- ...
- Ah, tá. Então aí é do Jornal Tudo Bem?
- Tudo.

14 de janeiro de 2008

Uma retrospectiva musical tardia



Pretensioso que sou, estava para escrever esse post antes da virada do ano, mas por um capricho da natureza acabou saindo somente agora. Bom, a idéia aqui é pegar os cinco discos que eu ouvi pela primeira vez em 2007 (ao estilo Alta Fidelidade), com suas devidas críticas e seus comentários:

5. Novos Baianos - Acabou Chorare (1972)

Fazer listas ordenadas e criteriosas é sempre um problema, vide esta ao qual escrevo. Por isso, recebi com algum ceticismo a matéria da Rolling Stone que lista os 100 maiores discos da música brasileira. Acabou Chorare, segundo álbum dos Novos Baianos, lançado em 1972, ficou com a primeira colocação, deixando para trás Tropicália ou Panis et Circenses (2º) e Chega de Saudade, de João Gilberto (4º). Um fenômeno, eu diria.

Mas de qualquer modo, resolvi ouvir o disco e constatar com meus próprios ouvidos, e acabei reconhecendo a qualidade do álbum.

Acabou Chorare começa com duas músicas de sucesso: "Brasil Pandeiro" e "Preta Pretinha". A primeira foi composta originalmente nos anos 40, e foi indicada pelo pai da bossa nova e padrinho da trupe, João Gilberto. A segunda foi escrita por Luiz Dias Galvão para uma moça que ele conhecera no Rio de Janeiro e tocou sem parar nas rádios, assim como a faixa-título, "Acabou Chorare". Outros destaques são "Besta é Tu", "Swing de Campo Grande" e "Mistério do Planeta", que exibem a criatividade de Moraes Moreira na criação de melodias.

É interessante ressaltar que o álbum marcou uma época de transição musical dos Novos Baianos, em que eles deixaram a pegada rock mais de lado e, graças a João Gilberto, começaram a fazer experimentações dentro de ritmos nacionais, mais notadamente na bossa nova e no samba. Lembrando que, nessa época, havia uma rivalidade entre os partidários da tropicália e da bossa nova, e os Novos Baianos conseguiram transitar como ninguém pelas duas vertentes.

Mas, mesmo assim, é difícil dizer se a primeira colocação é merecida. Como diz o texto da Rolling Stone, essas listas são reflexos da época atual e da maneira como vemos o passado. E com todo esse revival setentista, acabou sendo natural a consagração de Acabou Chorare, um disco de altíssima qualidade e envolto por um grande hype.


4. Radiohead - In Rainbows (2007)

A jogada do Radiohead foi perfeita para o lançamento de seu sétimo álbum, In Rainbows. Chamaram a imprensa e anunciaram como divulgariam o trabalho: entre outubro e dezembro, qualquer pessoa poderia baixar o CD e pagar o valor que quisesse, inclusive zero real - o popular, na faixa. Nessa brincadeira, eles arrecadaram 3 milhões de libras só em downloads - o maior lucro da história da banda, sendo maior que a soma de todos os outros seis discos juntos. Isso porque o CD físico foi lançado só no começo de janeiro.

Para aqueles que resolveram contribuir pagando pelo download do álbum (não foi o meu caso), certamente valeu a pena. Segundo a imprensa especializada, o álbum é um dos melhores desde Ok Computer, a obra-prima do Radiohead. E, como em todos os CDs anteriores, eles conseguiram inovar novamente, porém deixando aquela marca inconfundível da banda.

Exemplo disso é a música que abre o álbum, "15 Step", que começa somente com samplers, dedilhadas na guitarra e a voz de Thom Yorke. À primeira vista nem parece Radiohead, mas com a entrada hipnotizante do teclado, próximo do fim da faixa, notamos o contrário.

Depois vem "Bodysnatchers", uma música ao estilo grunge psicodélico-caótico, com efeitos sujos na guitarra e nos vocais. Mais para frente temos "Weird Fish / Arpeggi", excelente canção progressiva que vai crescendo de intensidade aos poucos - começa com bateria, baixo e guitarra - até cessar e entrar em um grandioso solo.

A "House of Cards", uma das melhores do álbum, é uma baladinha de amor envolta de muito psicodelismo, efeitos eletrônicos e de um riff simples. Na canção seguinte, "Jigsaw Falling Into Place", eles novamente voltam a se basear no grunge.

Por fim, em "Videotape", a curiosidade fica por conta da semelhança da música com as do Coldplay, que por outro lado sofreu inspiração do próprio Radiohead. Em outras palavras, a criatura inspirou seu criador.


3. Vanguart - Vanguart (2007)

"Com ousadia, Vanguart vai da folk music à psicodelia". Foi com essa manchete, do Folha Online, que fui fisgado a conhecer essa excêntrica banda de Cuiabá (MT). Afinal, os caras misturam duas coisas ao qual aprecio musicalmente: a batida rancheira do folk, representada por Bob Dylan e Neil Young, e a construção musical bem trabalhada do rock progressivo, como do Pink Floyd. E toda essa mescla dá certo.

Não é a toa que os caras alçaram rápido a condição de grandes nomes do rock brasileiro atual, tocando no Tim Festival e até na Rede Globo. O som é de qualidade, a vocal de Hélio Flanders é de arregaçar e as composições são tocantes, tanto em português quanto em inglês ou espanhol.

O CD, distribuído pela revista OutraCoisa (aquela do Lobão), abre com "Semáforo", uma das melhores e mais conhecidas deles. Começa somente com o violão, bateria e voz, mas com o decorrer da música, baixo e guitarra entram e ganham espaço, com uma letra que beira o delírio. Depois segue o mais puro folk-rock com pitadas de punk em "Just to see your Blue Eyes see", e a country "Hey Yo Silver". Outros destaques são a latina psicodélica "Los Chicos de Ayer", a balada "Enquanto Isso na Lanchonete" e a incógnita "Cosmonautas".

Um fato interessante é que todas as músicas são diferentes uma da outra. "Cachaça", por exemplo, tem uma cara de canção pop com algo de rock dos anos 70, enquanto que "The Last Time I Saw You" lembra muito Bob Dylan, com um violão dando o ritmo preciso. Isso, logicamente, é fruto da gama das (boas) influências musicais da banda, como Beatles, The Beach Boys, Velvet Underground, Nick Drake e Raul Seixas. O resto é consequência.


2. Gotan Project - La Revancha del Tango (2001)

Em 2007, o trio franco-suíco-argentino Gotan Project fez duas apresentações no Brasil - ambas memoráveis, segundo a imprensa. Na primeira delas, em junho, fiquei curioso em conhecer uma banda que recebeu tantos elogios e destaque na mídia. Misturando tango (vem daí o nome Gotan) com ritmos eletrônicos, a sonoridade é única, com belos arranjos tirados do bandoneón, do violão, do piano, outros intrumentos de cordas e de samplers.

No disco de estréia, La Revancha del Tango, a mistura eclética de ritmos criou um som envolvente e, por vezes, dançante. Os solos do bandoneón são dignos de um solo de jazz (bem ao estilo Piazzola), enquanto que a base criada pelas batidas, pelos efeitos eletrônicos, pelo violão e pela marcação do baixo criam um clima de contemplação.

Apesar dos intrumentos darem vidas às músicas, o vocal de Verônika Silva ajuda a completar a harmonia. Em "Una Música Brutal", ela demonstra alguma sobriedade, deixando a emoção de lado. Já em "Vuelvo Al Sur", a canção que fecha o álbum, sua voz aparece repentinamente aos 3min28s, cantando com imponência: "Vuelvo al Sur / como se vuelve siempre al amor".

Também se destacam as músicas "Queremos Paz", "Santa Maria (Del Buen Ayre)" e "El Capitalismo Foraneo", além das covers "Chunga's Revenge", de Frank Zappa, e do filme "Last Tango in Paris".

De fato, o álbum consegue atrair a atenção tanto de quem não é fã de música eletrônica, quanto de quem nunca se interessou muito por tango - como é o meu caso. Acho que mesmo para os mais puristas, a experiência é, no mínimo, interessante.


1. Arcade Fire - Neon Bible (2007)

Quando surgiu na mídia, em 2005, o Arcade Fire mostrou que era muito mais que uma banda alternativa, vinda de um país alternativo no cenário musical (Canadá). Eles mostraram que tinha qualidade e inovações para mostrar. Uma delas é que os sete membros tocam praticamente todos os instrumentos. É como se o Carrossel Holandês de Rinus Michels fosse aplicado em uma banda. Isso sem falar na sonoridade sem equivalentes de suas canções, graças as influências musicais que vão do pós-punk dos anos 80, passam pelo o folk-rock e pelo rock experimentalista dos anos 70 e desembocam nas bandas alternativas contemporâneas, como Sonic Youth, Radiohead e Belle & Sebastian.

Por isso, a expectativa com o lançamento do segundo álbum da banda, Neon Bible, era grande. Mas mesmo sentindo a pressão que era preceder Funeral, o aclamado disco de estréia, eles parecem nem ligar para isso. A sonoridade continua complexa, com o acréscimo de um órgão, uma sanfona (de corda) nos intrumentos, uma orquestra sinfônica inteira, entre outros. O resultado são músicas menos catárticas e depressivas, como em Funeral, e mais bem trabalhadas sonoricamente.

Um dos resquícios dessa época é "Black Mirror", que abre o álbum. A canção possui uma letra sombria, assim como a harmonia carregada dos instrumentos, mas ao fim a música começa a ganhar imponência e força. Depois vem "Keep the Car Running", uma das melhores do álbum. Os acordes da sanfona de corda e a marcação pelas batidas de palmas e pelo baixo são simples mas perfeitos, e o tempo acelerado da bateria parecem realmente fazer a música correr.

A lado mais dark e dramático do Arcade Fire retorna com a canção "Intervention", no qual o órgão é quem lidera os arranjos. A letra é forte, inspirada na situação calamitosa do Haiti, onde nasceram os pais da vocalista e instrumentista Régine Chassagne: "We can’t find you now / But they’re gonna get their money back somehow / And when you finally disappear /
Will they say you were never hear?"

Mais para frente temos "The Well and the Lighthouse", uma música muito bem trabalhada e que alterna um começo rápido e frenético com um fim mais melódico e lento. Em seguida, está "(Antichrist Television Blues)", mais uma canção cheia de nuances e com fino trato na parte dos arranjos instrumentais e vocais.

A penúltima música é "No Cars Go", também uma das melhores do álbum e exibe o lado mais puro rock da banda, sendo rápido, sem muita frescura mas com um belo trabalho de arranjo. E para fechar o CD, a canção mais depressiva: "My Body is a Cage", tocada quase que totalmente no órgão.

Uma vez mais, o Arcade Fire mostrou, com criatividade e estilo próprio, porque se mantém como uma das melhores bandas da atualidade, e que seus discos já se tornaram verdadeiros clássicos na história da música.


Menção Honrosa:
Velvet Underground - Velvet Underground & Nico (1967)

Não há muito o que falar desse álbum, tão revolucionário para a música que é uma pérola de 1967, juntamente com Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, e The Piper at the Gates of Dawn, do Pink Floyd. Apenas leia e ouça.

10 de janeiro de 2008

Diálogos memoráveis



Presidente Thomas 'Tug' Benson: Este é o nosso alvo.
Assessor: Esse é o Minnesota, senhor.
Presidente Benson: Droga, cara, essa é a parte genial do meu plano. Por que nós vamos até lá para lutar? Nós podemos fazer tudo aqui em casa, e ainda poderemos pescar.
Assessor: Mas, senhor, o inimigo está lá.
Presidente Benson: Então, mande-os para cá. E suas famílias também. Nós podemos ensiná-los a esquiar... Será que eu tenho que pensar em tudo?

Tirada do filme Top Gung 2 (Hot Shots! Part Deux, 1993) em uma tradução livre


9 de janeiro de 2008

O que estou ouvindo agora?

Stealers Wheel - Stuck In The Middle With You



Uma das cenas mais célebres do já clássico Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992), filme de estréia de Quentin Tarantino, é aquele no qual um policial é torturado por Mr. Blonde dentro do galpão onde rola o filme. Mas, apesar da cena ser forte e dotada de sadismo, a música que embala o banho de sangue é de empolgar: Stuck in The Middle With You, tocada em um aparelho de som no canto. É impossível não se embalar com os passos da dança de Mr. Blonde enquanto ele retalha a cara do policial.

Apesar da notável qualidade da música criada pela dupla escocesa Stealers Wheel, ela só acabou ficando mais conhecida após o filme do Tarantino. No início da carreira, o Stealers Wheel aparentemente não tinha muita identidade. Normalmente, a imprensa se referiam a eles como a versão inglesa da banda de folk-rock Crosby, Stills, Nash & Young (grupo de onde saiu o Neil Young), enquanto o público confundia suas canções com as de Bob Dylan, por causa do vocal igualmente anasalado de Gerry Rafferty.

Até que Stuck in The Middle... virou um tremendo sucesso. Lançada em 1972, no disco de estréia do grupo, ela alcançou o top 10 das mais tocadas nos Estados Unidos e no Reino Unido. E deu início ao fim para o Stealers Wheel. A pressão da gravadora por outro estrondoso sucesso parecia demais para eles. E o fracasso foi inevitável. O segundo álbum, Ferguslie Park, lançado em 1973, vendeu mal e ocasionou a separação da dupla - e, conseqüentemente, o fim da banda, em 1975.

Por isso, Stuck in The Middle With You virou uma canção esquecida no imaginário do folk-rock dos anos 70. Mas com o sucesso provocado por Cães de Aluguel, a música virou cult e recebeu diversas referências. A mais notável é no Simspsons, como parte de um episódio especial do desenho ultra-violento Comichão e Coçadinha. Ganhou diversos covers de bandas meia-bocas e virou trilha sonora de outros filmes, além de seriados. Mas é impossível dissociar a música com orelhas sendo arrancadas com navalhas - assim como pensar em filme de Tarantino sem maletas ou lanchonetes.
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