Em certo momento da vida, Milton Friedman, nobel de Economia e tudo o mais, teve a ideia de que o melhor para todos era o mercado ser liberal. Em outras palavras, acabar com esse papo do Estado botando o bedelho onde não é chamado. A economia deveria ser livre, assim como são as pessoas. É fato que essa não era uma ideia nova, Adam Smith já tinha concebido o mesmo com sua laissez-faire, a mão invisível do mercado. Mas os EUA tinham acabado de enfrentar umas das mais graves crises financeiras de sua história, o crash de 29, e só evitaram uma catástrofe por causa da intervenção estatal no melhor estilo da escola keynesiana. De qualquer maneira, a ideia começou a tomar corpo no começo da década de 80, quando Margaret Thatcher, na Grã-Bretanha, e Ronald Reagan, nos EUA, promoveram uma série de reformas liberalizantes, cortando gastos sociais, diminuindo os impostos e desregulamentando o mercado.
Um salto no tempo, e na década de 2000 ninguém mais questionava Friedman e o liberalismo econômico. Aliás, quem era contra era alcunhado “viúva do muro de Berlim”. A economia do mundo inteiro estava se modernizando, as empresas estavam mais eficientes e novas tecnologias surgiam a todo instante e se popularizavam. A internet era a prova viva de que a liberdade individual de cada um criava um bem comum a todos. Países que fizeram medidas macroeconômicas liberalizantes, como a Irlanda, surfavam na onda da bonança financeira. Só que uma hora o sonho acabou e a realidade pareceu desagradável demais.
A Islândia, um pequeno país europeu, com poucos recursos naturais e quase esquecido se não fosse a Björk e o Sigur Rós, de repente quebrou. Sua economia, baseada basicamente em serviços, entrou num colapso financeiro. Os três maiores bancos estavam com dívidas externas impagáveis, maiores que o PIB do país. Como o governo não regulou as movimentações financeiras, todo o tipo de negociata foi colocada na mesa. Mas a crise na Islândia foi só a ponta do iceberg, a primeira pedra do dominó a cair, e o pontapé inicial do documentário “Trabalho Interno”, do norte-americano Charles Ferguson, vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2011.
Se foi merecido não sei, mas o fato é que bastante didático. Lembro que em um dos filmes do Zeitgeist é dito que o sistema financeiro é complexo por um bom motivo: se ninguém entende como ele funciona, ninguém vai contestá-lo. Mas “Trabalho Interno” mostra que o esquema financeiro é tão simples quanto o conto do vigário que os 171s aplicavam no centro de São Paulo. É tudo uma questão de parecer confiável, saber ludibriar a vítima e sair de fininho quando o estrago já tiver sido feito.
O esquema funcionava assim: 1) Desregulamentação do mercado 2) Criação de derivativos 3) ??? 4) Lucro fácil. Para o primeiro passo, só é necessário promover lobby com alguns politicos, incluindo o presidente da República, e fazê-los aprovar o fim de qualquer tipo de controle externo sobre o mercado financeiro. O segundo passo é mais complexo, mas vale a pena acompanhar.
Em uma situação normal, os bancos fazem empréstimos esperando que eles sejam pagos dentro do prazo estabelecido, sob pena do imóvel ser hipotecado. Pois bem, na época do boom imobiliário os bancos resolveram terceirizar as dívidas para maximizar os lucros. Em outras palavras, eles concediam empréstimos generosos e vendiam o valor a receber para bancos de investimento. Assim, eles não tinham que se preocupar em pegar a grana de volta, portanto quanto mais empréstimos eles fizessem mais grana entrava. E isso inclui a famosa categoria subprime, como são conhecidos aqueles não conseguem honrar suas dívidas.
No outro front, os bancos de investimentos pegavam essas dívidas, davam um nome legal (como CDO) e transformavam em derivativos – ou seja, novos investimentos. Daí vinham os bancos de classificação de risco, que analisavam esses produtos e davam uma boa nota, normalmente AAA, a mais alta que existe. Detalhe inusitado: os bancos de classificação de risco eram financiados pelos próprios bancos de investimento que criavam a coisa toda, algo como colocar o alcoolatra para cuidar da cerveja. A consequência disso tudo é que os produtos foram adquiridos por uma porrada de gente achando que aquilo era um belo negócio.
Até que chegou a bendita hora em que os subprimes não conseguiram arcar com suas dívidas. E sem grana, os investimentos não tem retorno. E investimento sem retorno é igual a lixo. E isso pegou muita gente de calças curtas. O que aconteceu depois todos sabem: o mercado financeiro perdeu credibilidade e os investimentos começaram a derreter como sorvete no verão, até o fatífico dia 15 de setembro de 2008, quando as ações da Lehman Brothers se reduziram a pó e levou o pânico aos investidores.
Karl Marx poderia estar rindo à toa, mas era lógico que quem pagaria a conta seriam os pobres proletários. E quem achava que Wall Street seria punida exemplarmente para as futuras gerações, mais um erro conceitual. Eles não só estão em liberdade quanto continuam usufruindo dos bônus generosos que ganhavam nos tempos de bonança. E aqueles que especularam para que os investimentos virassem água ganharam uma grana violenta. E isso é só uma pequena parte na extensa lista de injustiças.
O fato é que se a Justiça não quis fazer seu serviço, o cineasta pelo menos fez sua catarse. Como numa boa reportagem jornalística, ele deu chance para o outro lado se justificar, sempre, é claro, colocando-os contra a parede sempre que necessário. Os cínicos profissionais malufizaram com maestria, enquanto os mais fracos pareciam não domar a arte da mentira.
Lógico que chega uma hora que esse maniqueísmo todo torna-se questionável, do tipo “nós contra eles”, tão típico dos filmes do Michael Moore. E Fergurson chega ao ápice da apelação ao entrevistar uma cafetina que aliciava garotas para os executivos, em festas regadas a bebidas, drogas e fantasias sexuais malucas. Esse é o tipo de moralismo barato que faz sucesso na imprensa sensacionalista – e possivelmente o público adora – mas é desnecessário pintar um cara de devasso quando há outras coisas a debater.
Pode-se também questionar a edição do filme, mas aí já é um outro papo, pois a tal da objetividade jornalística é uma das maiores farsas da indústria. E na real, o que importa mesmo é o grande potencial de mind-blowing que o documentário consegue provocar mesmo em quem já tem alguma ideologia definida. Permanecer inerte é uma opção só para quem realmente não entendeu nada.
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8 de abril de 2011
23 de dezembro de 2010
O Fim do Universo*
Quem lê com alguma frequência o blog e acompanha o cinetoscópio sabe que gosto dos filmes do Kevin Smith. Mas encontrar alguém que conheça bem sua filmografia por aqui é tarefa das complicadas, ainda que perfeitamente compreensível. Seus filmes são sobre absolutamente nada, e seus roteiros são basicamente sobre cultura pop, religião, sexo e algumas "dick and fart jokes", que estão mais para "dick and dick jokes". Ou seja, filmes cômicos, tragicômicos, romanticômicos ou religicômicos. Ele cria diálogos com a mesma preocupação que a minha agora em usar um termo que não existe. E assume isso muito naturalmente.
Eu costumo dizer que o Tim Burton sempre faz o mesmo filme, com os mesmos perfis de personagens, com a mesma direção de arte (principalmente figurino) com a mesma trilha sonora do Danny Elfman e com os mesmos atores, principalmente sua mulher e Johnny Depp, enquanto Tarantino usa os mesmos atores para os mesmos personagens em linhas narrativas alucinantes. Kevin Smith faz um pouco disso e um pouco daquilo. Usa os mesmos atores para os mesmos personagens e os mesmos atores para personagens diferentes, o que gera confusão para o olho destreinado, como nas piadas do Império do Besteirol Contra-ataca. Ele usa os personagens do View Askewniverse, ou o Universo da View Askew (nome de sua produtora), e tem como fio condutor Silent Bob (Bob Silencioso ou Bob Caladão) e Jay (Jay). Mas depois de Balconista II (Clerks II) essa porta praticamente se fechou.
Esse universo começou com o Balconista (Clerks), premiado por Cannes e Sundance, sobre dois trabalhadores de uma loja de conveniência e vídeo locadora. Depois veio Barrados no Shopping (Mallrats), insucesso de bilheteria, onde reaparecem Jay e Silent Bob para ajudar TS e Brodie a reconquistar suas namoradas. Segue para Procura-se Amy (Chasing Amy), em que a sabedoria de Bob ajuda Holden a entender seus sentimentos por uma lésbica, e passa por Dogma na tentativa de deter o Apocalipse. Depois vem o Império (Jay & Silent Bob Strike Back), onde nossos heróis procuram seus direitos de imagem depois de terem suas personas copiadas para gibis e filme e termina com Balconista 2 em que, para quem conhece a história do universo, há um ponto final na vida desses personagens. Mas de certa forma, também uma mudança de rumo na carreira do cara.
Talvez o filme mais conhecido dele por aqui seja "Pagando bem, que mal tem?", que é muito parecido com os do Askewniverse mas com personagens diferentes. O filme não garantiu um mercado maior para ele no Brasil, e o primeiro filme que ele dirigiu e não escreveu, Tiras em Apuros (Cop Out / A Couple of Dicks) mal passou pelo cinema, mesmo tendo no elenco Bruce Willis e Tracy Morgan. Mas a sensação que fica é que há uma rejeição enorme aos seus filmes, e isso acontece nos Estados Unidos também. Coisa que não tem nada a ver com elenco. Ele já colocou em seus filmes atores e comediantes do calibre de Alan Rickman, Ben Affleck, Matt Damon, Jason Lee, Chris Rock, George Carlin, Will Ferrell e o ignorante número de participações especiais para Impérido do Besteirol, entre elas Carrie Fisher e Mark Hamill (Hey kids! it's Luke Skywalker) (Aqui está a lista completa). Enfim, mesmo para o gênero "comédia", se ouve mais críticas que elogios. As pessoas acham que, pelo fato de o cara ter ganho o prêmio dos novos talentos em Sundance, viria a tona um novo gênio do cinema independente que fez um filme de 27 mil dólares render 3 milhões, e o que pensaram ter visto depois foi mais do mesmo
Mas a visão que existe para tudo que é independente na indústria do cinema e também da música é um pouco hipermétrope. As pessoas tem uma tendência incrível de achar que, exatamente por não seguir o mainstream, a coisa é mais difícil de realizar, e portanto o resultado final é melhor. É uma visão errada, preguiçosa e sem devida distância. Tudo que entra na categoria independente é bom para o processo criativo, porque sem dinheiro para investir o realizador se vê obrigado a procurar alternativas eficazes e inventivas, e que diversas vezes criam novas linguagens e efeitos, algo que no cinema toma maior efeito uma vez que não existe "hype" ou "modinha" e sim arrecadação em bilheteria. Isso, entretanto, não significa que o filme independente seja brilhante e excelente. Depois de um tempo assistindo filmes você aprende que existem filmes bons e ruins com recursos milionários e filmes bons e ruins com recursos escassos. Não é pelo orçamento ou pela (falta de) exposição na mídia que se deve julgar talento em entretenimento. E nisso a crítica falha monumentalmente. Quantos artigos alguém já não leu falando sobre tal filme e a "subjetiva inspiração baseada em filme/obra X de tal diretor"?.
Mesmo levando muita porrada, Kevin Smith foi vendo que o chão em que ele pisa hoje está bem além do lugar em que projetou estar na carreira. Começou a participar de Q&As sobre obra e vida. Palestras que viraram festivais de stand-up, onde ele fala de uma rixa com Tim Burton, sua história sobre um documentário com Prince, a fissura anal sem tratamento que ele sofreu e etc. Ele descobriu que tinha um número incontável (na época) de seguidores que gostariam de ouvir qualquer coisa que ele falasse, seja sobre bastidores do cinema, vida pessoal ou vida alheia, além dos projetos de quadrinhos para DC e Marvel.
O último de seus projetos "paralelos" parece ter se tornado o projeto principal. Uma rede de podcasts que tratam de diferentes assuntos, todos os dias da semana, todas as semanas (Smodcast Podcast Network). Ele sabe quem gosta e quem não gosta de seu trabalho, e depois de ouvir todo tipo de crítica resolveu mandar uma banana e voltar sua atenção para aqueles que se interessam em ouvi-lo. Dentro dessa rede, onde ele bate papo sobre notícias e atualidades com o produtor e amigo Scott Mosier, ou comenta as notícias do cinema com Ralph (Frank) Garman (faz algumas vozes no Family Guy e começou a carreira no Sexcetera), ou ainda faz incursões pelo mundo da reabilitação às drogas com Jason "Jay" Mewes, sobrou espaço para fazer um excelente e barato crossmedia para o lançamento de seu novo filme, de terror, "Red State", visando esse público milimetricamente definido.
O que Smith faz é abrir uma sessão de Q&A no Smodcastle, lugar em que ele grava os podcasts ao vivo, exibe um trecho do filme e sedia um debate entre ele, os presentes e algum membro da equipe de gravação, algo que ele define como escola de cinema de graça. Sem distribuidora para o novo longa, sua estratégia para lançar o filme é fazer um leilão, literalmente, assim que a projeção terminar no festival de Sundance em 2011. Quem pagar mais leva os direitos. Orçado em 5 milhões de dólares, o filme não participa da mostra competitiva, mas caso participasse, seria ainda mais bizarro. Já em seu twitter ele chegou a leiloar a exclusividade de pôsters do filme para quem quisesse hospedar a imagem em seu site e receber os devidos créditos dos outros sites. Os resultados foram arrecadações de quase 8 mil dólares para duas instituições. Metade dos sites que compraram os direitos (entre eles um site pornô), e outra metade dele próprio, igualando a oferta na doação.
Essa mudança de estilo vai fazer bem, e, tomara, mostrar que alguém com talento para escrever roteiros não precisa se limitar a gêneros. E para a crítica não limitar sua carreira só à comédia. Porque entre uma piada e outra existem ensinamentos de todo o tipo sobre como as pessoas se relacionam. Amizade, família, amor... "Existem milhões de mulheres bonitas no mundo, mas nem todas elas te levam lasanha no trabalho. A maioria só trai você".
Enfim, enquanto Janeiro não vem, fica a expectativa do que pode ser o penúltimo filme de Smith. Pelo fato de ser um filme de terror alguma distribuidora no Brasil talvez mostre um interesse maior que durante toda sua carreira. E por fim, em 2012, é a vez de "Hit Somebody", baseado em música homônima, chegar às telas. Kevin Smith completará 18 anos/10 filmes de carreira e provavelmente encerrará seu trabalho como roteirista/diretor por aí. Se espera que esses últimos filmes sejam um merecido ponto de exclamação em sua trajetória. Bem pouco depois do fim do universo.
*Em tempo, o teaser de Red State
Eu costumo dizer que o Tim Burton sempre faz o mesmo filme, com os mesmos perfis de personagens, com a mesma direção de arte (principalmente figurino) com a mesma trilha sonora do Danny Elfman e com os mesmos atores, principalmente sua mulher e Johnny Depp, enquanto Tarantino usa os mesmos atores para os mesmos personagens em linhas narrativas alucinantes. Kevin Smith faz um pouco disso e um pouco daquilo. Usa os mesmos atores para os mesmos personagens e os mesmos atores para personagens diferentes, o que gera confusão para o olho destreinado, como nas piadas do Império do Besteirol Contra-ataca. Ele usa os personagens do View Askewniverse, ou o Universo da View Askew (nome de sua produtora), e tem como fio condutor Silent Bob (Bob Silencioso ou Bob Caladão) e Jay (Jay). Mas depois de Balconista II (Clerks II) essa porta praticamente se fechou.
Esse universo começou com o Balconista (Clerks), premiado por Cannes e Sundance, sobre dois trabalhadores de uma loja de conveniência e vídeo locadora. Depois veio Barrados no Shopping (Mallrats), insucesso de bilheteria, onde reaparecem Jay e Silent Bob para ajudar TS e Brodie a reconquistar suas namoradas. Segue para Procura-se Amy (Chasing Amy), em que a sabedoria de Bob ajuda Holden a entender seus sentimentos por uma lésbica, e passa por Dogma na tentativa de deter o Apocalipse. Depois vem o Império (Jay & Silent Bob Strike Back), onde nossos heróis procuram seus direitos de imagem depois de terem suas personas copiadas para gibis e filme e termina com Balconista 2 em que, para quem conhece a história do universo, há um ponto final na vida desses personagens. Mas de certa forma, também uma mudança de rumo na carreira do cara.
Talvez o filme mais conhecido dele por aqui seja "Pagando bem, que mal tem?", que é muito parecido com os do Askewniverse mas com personagens diferentes. O filme não garantiu um mercado maior para ele no Brasil, e o primeiro filme que ele dirigiu e não escreveu, Tiras em Apuros (Cop Out / A Couple of Dicks) mal passou pelo cinema, mesmo tendo no elenco Bruce Willis e Tracy Morgan. Mas a sensação que fica é que há uma rejeição enorme aos seus filmes, e isso acontece nos Estados Unidos também. Coisa que não tem nada a ver com elenco. Ele já colocou em seus filmes atores e comediantes do calibre de Alan Rickman, Ben Affleck, Matt Damon, Jason Lee, Chris Rock, George Carlin, Will Ferrell e o ignorante número de participações especiais para Impérido do Besteirol, entre elas Carrie Fisher e Mark Hamill (Hey kids! it's Luke Skywalker) (Aqui está a lista completa). Enfim, mesmo para o gênero "comédia", se ouve mais críticas que elogios. As pessoas acham que, pelo fato de o cara ter ganho o prêmio dos novos talentos em Sundance, viria a tona um novo gênio do cinema independente que fez um filme de 27 mil dólares render 3 milhões, e o que pensaram ter visto depois foi mais do mesmo
Mas a visão que existe para tudo que é independente na indústria do cinema e também da música é um pouco hipermétrope. As pessoas tem uma tendência incrível de achar que, exatamente por não seguir o mainstream, a coisa é mais difícil de realizar, e portanto o resultado final é melhor. É uma visão errada, preguiçosa e sem devida distância. Tudo que entra na categoria independente é bom para o processo criativo, porque sem dinheiro para investir o realizador se vê obrigado a procurar alternativas eficazes e inventivas, e que diversas vezes criam novas linguagens e efeitos, algo que no cinema toma maior efeito uma vez que não existe "hype" ou "modinha" e sim arrecadação em bilheteria. Isso, entretanto, não significa que o filme independente seja brilhante e excelente. Depois de um tempo assistindo filmes você aprende que existem filmes bons e ruins com recursos milionários e filmes bons e ruins com recursos escassos. Não é pelo orçamento ou pela (falta de) exposição na mídia que se deve julgar talento em entretenimento. E nisso a crítica falha monumentalmente. Quantos artigos alguém já não leu falando sobre tal filme e a "subjetiva inspiração baseada em filme/obra X de tal diretor"?.
Mesmo levando muita porrada, Kevin Smith foi vendo que o chão em que ele pisa hoje está bem além do lugar em que projetou estar na carreira. Começou a participar de Q&As sobre obra e vida. Palestras que viraram festivais de stand-up, onde ele fala de uma rixa com Tim Burton, sua história sobre um documentário com Prince, a fissura anal sem tratamento que ele sofreu e etc. Ele descobriu que tinha um número incontável (na época) de seguidores que gostariam de ouvir qualquer coisa que ele falasse, seja sobre bastidores do cinema, vida pessoal ou vida alheia, além dos projetos de quadrinhos para DC e Marvel.
O último de seus projetos "paralelos" parece ter se tornado o projeto principal. Uma rede de podcasts que tratam de diferentes assuntos, todos os dias da semana, todas as semanas (Smodcast Podcast Network). Ele sabe quem gosta e quem não gosta de seu trabalho, e depois de ouvir todo tipo de crítica resolveu mandar uma banana e voltar sua atenção para aqueles que se interessam em ouvi-lo. Dentro dessa rede, onde ele bate papo sobre notícias e atualidades com o produtor e amigo Scott Mosier, ou comenta as notícias do cinema com Ralph (Frank) Garman (faz algumas vozes no Family Guy e começou a carreira no Sexcetera), ou ainda faz incursões pelo mundo da reabilitação às drogas com Jason "Jay" Mewes, sobrou espaço para fazer um excelente e barato crossmedia para o lançamento de seu novo filme, de terror, "Red State", visando esse público milimetricamente definido.
O que Smith faz é abrir uma sessão de Q&A no Smodcastle, lugar em que ele grava os podcasts ao vivo, exibe um trecho do filme e sedia um debate entre ele, os presentes e algum membro da equipe de gravação, algo que ele define como escola de cinema de graça. Sem distribuidora para o novo longa, sua estratégia para lançar o filme é fazer um leilão, literalmente, assim que a projeção terminar no festival de Sundance em 2011. Quem pagar mais leva os direitos. Orçado em 5 milhões de dólares, o filme não participa da mostra competitiva, mas caso participasse, seria ainda mais bizarro. Já em seu twitter ele chegou a leiloar a exclusividade de pôsters do filme para quem quisesse hospedar a imagem em seu site e receber os devidos créditos dos outros sites. Os resultados foram arrecadações de quase 8 mil dólares para duas instituições. Metade dos sites que compraram os direitos (entre eles um site pornô), e outra metade dele próprio, igualando a oferta na doação.
Essa mudança de estilo vai fazer bem, e, tomara, mostrar que alguém com talento para escrever roteiros não precisa se limitar a gêneros. E para a crítica não limitar sua carreira só à comédia. Porque entre uma piada e outra existem ensinamentos de todo o tipo sobre como as pessoas se relacionam. Amizade, família, amor... "Existem milhões de mulheres bonitas no mundo, mas nem todas elas te levam lasanha no trabalho. A maioria só trai você".
Enfim, enquanto Janeiro não vem, fica a expectativa do que pode ser o penúltimo filme de Smith. Pelo fato de ser um filme de terror alguma distribuidora no Brasil talvez mostre um interesse maior que durante toda sua carreira. E por fim, em 2012, é a vez de "Hit Somebody", baseado em música homônima, chegar às telas. Kevin Smith completará 18 anos/10 filmes de carreira e provavelmente encerrará seu trabalho como roteirista/diretor por aí. Se espera que esses últimos filmes sejam um merecido ponto de exclamação em sua trajetória. Bem pouco depois do fim do universo.
*Em tempo, o teaser de Red State
16 de novembro de 2010
Resenha semi-sóbria: Scott Pilgrim contra o Mundo
Scott Pilgrim contra o Mundo é um belo filme, cara, não deixe de assistir. Pode ser por torrent ou o que for, mas não deixe de assistir. Se você curte quadrinhos, rock alternativo, videogame, comédia non-sense, a merda que for, assista. Vai perder um dos filmes do ano, fácil.
O lance do Scott Pilgrim é que a história é do caralho. Quando um roteiro é bom, esqueça, o filme tem tudo para não ser ruim. É como já dizia o grande Lars Von Trier em seu Dogma 95. A pegada tem que ser a história, não os efeitos gráficos, aquele lance hollywoodiano de som surround 5.1 e cortes ultrarrápidos nas cenas, fazendo com que não se saiba o que está acontecendo, mas ao mesmo tempo não te deixando entediado pois todo aqueles estímulos sensoriais criam uma profusão de informações que não querem dizer nada, mas que para o seu cérebro parece um monte de coisa legal e o caramba. Apesar de que Scott Pilgrim tem tudo isso aí. Cortes, sons, cores, efeitos especiais e música no talo. Mas também tem uma puta história, como já dizia Lars Von Trier, então tá tudo numa boa.
Gastei um tempão elogiando a história, só que é importante dizer que tudo isso se deve graças ao gibi. Scott Pilgrim, o gibi, é tremendamente bem elaborado. Nele tem todos aqueles lances da juventude. A questão dos relacionamentos fracassados, do amor platônico, dos amigos que te chamam de perdedor, das jogatinas de videogame, da vontade de montar uma banda e sair por aí tocando e fazendo sucesso. Tema mais universal que esse não existe, é a jornada do herói pós-moderno. Mas ao mesmo tempo, a história é totalmente psicodélica. Basicamente, Scott Pilgrim é um cara que, pra ficar com uma mina misteriosa, Ramona Flowers, precisa derrotar seus sete ex-namorados do mal, que possuem poderes sobrenaturais e uma sede de vingança que sabe-se lá de onde tiraram. Some a isso diálogos bizarros e uma dose sagaz de referências nerds e temos aí um belo filme, segundo a cartilha de Kevin Smith.
Tendo uma base dessas, o filme só não ficaria bom se o diretor errasse muito na mão. Mas o lance é que Edgar Wright não só captou a essência do gibi, com seu realismo non-sense, como adaptou a linguagem dos quadrinhos pro cinema. Por exemplo, as onomatopeias são usadas pra valer. Assim, quando o telefone toca, além de ouvir o barulho do telefone tocando, você ainda pode ler o triiiiiim em letras estilizadas saindo do aparelho. Sem falar nos sinais visuais com comentários que aparecem de tempos em tempos, como se houvesse um narrador onisciente a zombar de tudo e de todos. E tem ainda as piadas que são tão rápidas e certeiras quanto nas tirinhas de três quadros.
Lógico que como em qualquer adaptação existem diferenças com o texto do gibi e do filme. Tanto que eles até fazem uma piada sobre isso. Tem uma hora em que um personagem hipster solta uma frase solta mais ou menos assim: “A HQ é muito melhor que o filme”. Esse personagem é tipo aquele crítico mongol que acha que tudo o que ele fala é supercool quando na verdade é um monte de merda em estado de putrefação, mas que muitos caras tão idiotas quanto acabam caindo no conto dele pois não percebem que ele está falando é merda, e das boas, não uma merda qualquer.
Essa crítica à crítica faz sentido, porque é óbvio que muitos fanboys ortodoxos vão reclamar dizendo que eles mudaram um monte de coisa da HQ. Lógico que sim, porra, a HQ é gigantesca e o filme tem duas horas. Você quer que os caras façam que nem no Sete Samurais ou no Dr. Jivago, que tem umas quatro horas de filme, com direito a intermission pra galera fazer uma pausa espiritual e depois voltar sem compromisso? Nada contra, porque são dois filmões, estão no meu top 10 de grande filmes. Mas isso não rola hoje em dia. Talvez se eles dividissem a história no meio, como no último Harry Potter, mas o risco parece ser muito alto, já que a produtora pode tanto lucrar em dobro quanto fracassar em dobro. O que foi até uma decisão acertada já que Scott Pilgrim não foi muito bem nas bilheterias americanas e correu o risco de não estrear no Brasil – embora, tecnicamente, tenha estreado só em São Paulo e, ainda por cima, em duas salas. Mas voltando ao tópico, penso que a história no cinema ficou bem amarrada, mesmo omitindo ou alterando o texto do gibi, fazendo com quem nunca tenha lido curta tanto o filme quanto quem já leu.
Tem ainda a trilha sonora. Tem Beck produzindo o som do Sex Bob-omb, a banda de garagem do Scott que tem o típico som sujo de banda de garagem. Tem Frank Black, do Pixies, tocando a excelente “I Heard Ramona Sing”. Tem o Metric fazendo a música do The Clash at Demonhead. Tem o Broken Social Scene como o Crash and The Boys. E tem o Plumtree, com a música que inspirou o nome do personagem-herói, pois o autor do gibi, Brian Lee O'Malley, além de ser um baita nerd também é fã de rock e chegou a conhecer de perto a cena alternativa de Toronto retratada na história.
Por fim, o espírito é esse. O filme é bom, a adaptação é boa, lógico que o gibi é melhor, mas não vamos cair nessa tolice de crítico de bosta que gosta de falar merda como se fosse um negócio legal pra cacete, a trilha sonora é do caralho, os atores são do caralho, com Michael Cera interpretando Michael Cera. De qualquer forma, cara, pode escrever: Scott Pilgrim certamente ainda será comentado e lembrado por muitos anos, seja dentro do circuito indie-cult, seja no mainstream (aposto mais no primeiro).
O lance do Scott Pilgrim é que a história é do caralho. Quando um roteiro é bom, esqueça, o filme tem tudo para não ser ruim. É como já dizia o grande Lars Von Trier em seu Dogma 95. A pegada tem que ser a história, não os efeitos gráficos, aquele lance hollywoodiano de som surround 5.1 e cortes ultrarrápidos nas cenas, fazendo com que não se saiba o que está acontecendo, mas ao mesmo tempo não te deixando entediado pois todo aqueles estímulos sensoriais criam uma profusão de informações que não querem dizer nada, mas que para o seu cérebro parece um monte de coisa legal e o caramba. Apesar de que Scott Pilgrim tem tudo isso aí. Cortes, sons, cores, efeitos especiais e música no talo. Mas também tem uma puta história, como já dizia Lars Von Trier, então tá tudo numa boa.
Gastei um tempão elogiando a história, só que é importante dizer que tudo isso se deve graças ao gibi. Scott Pilgrim, o gibi, é tremendamente bem elaborado. Nele tem todos aqueles lances da juventude. A questão dos relacionamentos fracassados, do amor platônico, dos amigos que te chamam de perdedor, das jogatinas de videogame, da vontade de montar uma banda e sair por aí tocando e fazendo sucesso. Tema mais universal que esse não existe, é a jornada do herói pós-moderno. Mas ao mesmo tempo, a história é totalmente psicodélica. Basicamente, Scott Pilgrim é um cara que, pra ficar com uma mina misteriosa, Ramona Flowers, precisa derrotar seus sete ex-namorados do mal, que possuem poderes sobrenaturais e uma sede de vingança que sabe-se lá de onde tiraram. Some a isso diálogos bizarros e uma dose sagaz de referências nerds e temos aí um belo filme, segundo a cartilha de Kevin Smith.
Tendo uma base dessas, o filme só não ficaria bom se o diretor errasse muito na mão. Mas o lance é que Edgar Wright não só captou a essência do gibi, com seu realismo non-sense, como adaptou a linguagem dos quadrinhos pro cinema. Por exemplo, as onomatopeias são usadas pra valer. Assim, quando o telefone toca, além de ouvir o barulho do telefone tocando, você ainda pode ler o triiiiiim em letras estilizadas saindo do aparelho. Sem falar nos sinais visuais com comentários que aparecem de tempos em tempos, como se houvesse um narrador onisciente a zombar de tudo e de todos. E tem ainda as piadas que são tão rápidas e certeiras quanto nas tirinhas de três quadros.
Lógico que como em qualquer adaptação existem diferenças com o texto do gibi e do filme. Tanto que eles até fazem uma piada sobre isso. Tem uma hora em que um personagem hipster solta uma frase solta mais ou menos assim: “A HQ é muito melhor que o filme”. Esse personagem é tipo aquele crítico mongol que acha que tudo o que ele fala é supercool quando na verdade é um monte de merda em estado de putrefação, mas que muitos caras tão idiotas quanto acabam caindo no conto dele pois não percebem que ele está falando é merda, e das boas, não uma merda qualquer.
Essa crítica à crítica faz sentido, porque é óbvio que muitos fanboys ortodoxos vão reclamar dizendo que eles mudaram um monte de coisa da HQ. Lógico que sim, porra, a HQ é gigantesca e o filme tem duas horas. Você quer que os caras façam que nem no Sete Samurais ou no Dr. Jivago, que tem umas quatro horas de filme, com direito a intermission pra galera fazer uma pausa espiritual e depois voltar sem compromisso? Nada contra, porque são dois filmões, estão no meu top 10 de grande filmes. Mas isso não rola hoje em dia. Talvez se eles dividissem a história no meio, como no último Harry Potter, mas o risco parece ser muito alto, já que a produtora pode tanto lucrar em dobro quanto fracassar em dobro. O que foi até uma decisão acertada já que Scott Pilgrim não foi muito bem nas bilheterias americanas e correu o risco de não estrear no Brasil – embora, tecnicamente, tenha estreado só em São Paulo e, ainda por cima, em duas salas. Mas voltando ao tópico, penso que a história no cinema ficou bem amarrada, mesmo omitindo ou alterando o texto do gibi, fazendo com quem nunca tenha lido curta tanto o filme quanto quem já leu.
Tem ainda a trilha sonora. Tem Beck produzindo o som do Sex Bob-omb, a banda de garagem do Scott que tem o típico som sujo de banda de garagem. Tem Frank Black, do Pixies, tocando a excelente “I Heard Ramona Sing”. Tem o Metric fazendo a música do The Clash at Demonhead. Tem o Broken Social Scene como o Crash and The Boys. E tem o Plumtree, com a música que inspirou o nome do personagem-herói, pois o autor do gibi, Brian Lee O'Malley, além de ser um baita nerd também é fã de rock e chegou a conhecer de perto a cena alternativa de Toronto retratada na história.
Por fim, o espírito é esse. O filme é bom, a adaptação é boa, lógico que o gibi é melhor, mas não vamos cair nessa tolice de crítico de bosta que gosta de falar merda como se fosse um negócio legal pra cacete, a trilha sonora é do caralho, os atores são do caralho, com Michael Cera interpretando Michael Cera. De qualquer forma, cara, pode escrever: Scott Pilgrim certamente ainda será comentado e lembrado por muitos anos, seja dentro do circuito indie-cult, seja no mainstream (aposto mais no primeiro).
31 de agosto de 2010
Filmes que assisti recentemente
Sinceramente não vi nenhum filme fodelão por aí, mas aparecem de vez em quando algumas boas surpresas e filmes melhores do que se pode espera deles. Por outro lado existem outros que entram em cartaz com um estardalhaço e não consigo entender o motivo. Eis alguns:
Juventude em Revolta - Um filme com Steve Buscemi, Ray Liotta, Zach Galifianakis e Michael Cera no papel principal. Acho que Michael Cera interpreta Michael Cera nos filmes. Os personagens dele sempre são muito parecidos e ele não deve ser muito diferente na vida real, mas o filme parece se aproveitar dessa visão que muita gente deve ter dele quando Cera interpreta também o alter ego do personagem principal na ajuda necessária que o adolescente Nick Twisp precisa para ficar com a menina que ele quer. Engraçado.
Invictus - Um filme do Clint Eastwood não necessariamente é um excelente filme, mas sempre se espera alguma coisa. Para Invictus não esperava muito e acabei vendo um filme bom. Quando fazem um filme sobre os aspectos mais nobres e enriquecedores do esporte (e existem muitos filmes assim) alguns conseguem passar mensagens interessantes. Na minha opinião o cinema não é feito para construir discurso, é feito para entreter. Invictus consegue entreter e deixar claro um ponto da história sem forçar esse caráter, digamos político, de alguns filmes. E isso já vale de alguma coisa. Ainda sobre Mandela, Luta Pela Liberdade, com Joseph Fiennes também vale uma sessão.
9 - Não, não o musical. Esse é uma animação sobre um mundo pós-apocalíptico onde todos os homens morreram vítimas da guerra contra máquinas e os únicos "sobreviventes" são bonecos que um cientista criou e deu vida. Nada de extraordinário, mas boa concorrência para os filmes que passam na TV ultimamente.
Onde Vivem os Monstros - Não gostei do filme. Não achei nada sensacional e ele demora para engrenar. Foi difícil prender minha atenção nos primeiros 20 minutos de filme e se um filme não consegue fazer isso logo no começo aquele menino pode tomar três tiros na cabeça, virar um zumbi ou aprontar várias confusões e isso simplesmente não vai conseguir trazer minha atenção de volta. Tudo bem, é um filme do Spike Jonze e o cara é um gênio, mas vamos com calma. Vou assistir de novo só para ter certeza.
O Desinformante - Que filme engraçado! Acho que como eu não tinha lido nenhuma sinopse ou resenha sobre o filme ou conhecesse a história, tive uma ideia diferente do que seria o filme e à medida que as coisas vão se revelando a trama fica mais engraçada e com bons diálogos, muito devido ao ótimo trabalho de Matt Damon. Outro bom filme de Steven Soderbergh.
Kick Ass - De novo nada de sensacional. As ações de promoção dos quadrinhos e do filme foram muito bem feitas, mas o filme não é nada disso que os críticos escreveram. Um filme legal pra assistir enquanto o tempo passa, e só. O cinema vive uma fase muito boa de adaptação. Adaptação das HQs para o cinema, dos video-games para o cinema, do cinema para os video-games e por aí vai. Isso é bom. Da mistura de elementos narrativos e gráficos surgem bons filmes, mas por enquanto isso é mais excessão que regra, e Kick-Ass segue a regra, e Scott Pilgrim provavelmente também seguirá.
Defendor - Essa história de herói que não tem poderes todo mundo conhece desde o Batman. Mas entre Kick-Ass e Defendor, gostei mais do segundo. Woody Harrelson interpreta um cara que beira a barreira do autismo e, para vingar sua mãe, se torna um vigilante atrás dos responsáveis pela morte dela. A infantilidade, ingenuidade e (depois de certo ponto) burrice do personagem cria a empatia que Kick-Ass não consegue ter. Woody Harrelson é um cara engraçado que mandou bem nesse filme.
A época dos filmes "grandes" está chegando e de novo não vi nada de muito interessante, mas com cinema nunca existe certeza.
Juventude em Revolta - Um filme com Steve Buscemi, Ray Liotta, Zach Galifianakis e Michael Cera no papel principal. Acho que Michael Cera interpreta Michael Cera nos filmes. Os personagens dele sempre são muito parecidos e ele não deve ser muito diferente na vida real, mas o filme parece se aproveitar dessa visão que muita gente deve ter dele quando Cera interpreta também o alter ego do personagem principal na ajuda necessária que o adolescente Nick Twisp precisa para ficar com a menina que ele quer. Engraçado.
Invictus - Um filme do Clint Eastwood não necessariamente é um excelente filme, mas sempre se espera alguma coisa. Para Invictus não esperava muito e acabei vendo um filme bom. Quando fazem um filme sobre os aspectos mais nobres e enriquecedores do esporte (e existem muitos filmes assim) alguns conseguem passar mensagens interessantes. Na minha opinião o cinema não é feito para construir discurso, é feito para entreter. Invictus consegue entreter e deixar claro um ponto da história sem forçar esse caráter, digamos político, de alguns filmes. E isso já vale de alguma coisa. Ainda sobre Mandela, Luta Pela Liberdade, com Joseph Fiennes também vale uma sessão.
9 - Não, não o musical. Esse é uma animação sobre um mundo pós-apocalíptico onde todos os homens morreram vítimas da guerra contra máquinas e os únicos "sobreviventes" são bonecos que um cientista criou e deu vida. Nada de extraordinário, mas boa concorrência para os filmes que passam na TV ultimamente.
Onde Vivem os Monstros - Não gostei do filme. Não achei nada sensacional e ele demora para engrenar. Foi difícil prender minha atenção nos primeiros 20 minutos de filme e se um filme não consegue fazer isso logo no começo aquele menino pode tomar três tiros na cabeça, virar um zumbi ou aprontar várias confusões e isso simplesmente não vai conseguir trazer minha atenção de volta. Tudo bem, é um filme do Spike Jonze e o cara é um gênio, mas vamos com calma. Vou assistir de novo só para ter certeza.
O Desinformante - Que filme engraçado! Acho que como eu não tinha lido nenhuma sinopse ou resenha sobre o filme ou conhecesse a história, tive uma ideia diferente do que seria o filme e à medida que as coisas vão se revelando a trama fica mais engraçada e com bons diálogos, muito devido ao ótimo trabalho de Matt Damon. Outro bom filme de Steven Soderbergh.
Kick Ass - De novo nada de sensacional. As ações de promoção dos quadrinhos e do filme foram muito bem feitas, mas o filme não é nada disso que os críticos escreveram. Um filme legal pra assistir enquanto o tempo passa, e só. O cinema vive uma fase muito boa de adaptação. Adaptação das HQs para o cinema, dos video-games para o cinema, do cinema para os video-games e por aí vai. Isso é bom. Da mistura de elementos narrativos e gráficos surgem bons filmes, mas por enquanto isso é mais excessão que regra, e Kick-Ass segue a regra, e Scott Pilgrim provavelmente também seguirá.
Defendor - Essa história de herói que não tem poderes todo mundo conhece desde o Batman. Mas entre Kick-Ass e Defendor, gostei mais do segundo. Woody Harrelson interpreta um cara que beira a barreira do autismo e, para vingar sua mãe, se torna um vigilante atrás dos responsáveis pela morte dela. A infantilidade, ingenuidade e (depois de certo ponto) burrice do personagem cria a empatia que Kick-Ass não consegue ter. Woody Harrelson é um cara engraçado que mandou bem nesse filme.
A época dos filmes "grandes" está chegando e de novo não vi nada de muito interessante, mas com cinema nunca existe certeza.
24 de maio de 2010
O Fim.
Lost acabou. Algumas pessoas estão felizes, outras não. Algumas acharam legal ter acabado porque estavam de saco cheio, outras gostaram do fato da série ter tido oportunidade de ter um ponto final. Outras acharam filhadaputagem o enredo final ou o simples fato de ter de dizer adeus à série, independente da forma como ela acabou.
Acho que estou no meio termo. Foi muito bom ver a série sobreviver à greve de roteiristas que colocou em xeque vários enlatados lá em 2008 (lembram?), e realmente, há muita criatividade da parte dos criadores e roteiristas. Mas eu não gostei do fim.
Depois de assistir o episódio final de 2 horas via live broadcast lembrei imediatamente da cena final de o Show de Truman. Não, a ilha não era um estúdio de tamanho extraordinário que pode ser visto do espaço. Estou me referindo ao número de pessoas que parou para assistir esse tão esperado episódio. Talvez também houvesse gente assistindo da banheira, mas acho que não.
O ponto é exatamente esse. Lost é um fenômeno da TV. Pessoas do mundo inteiro assistem. Isso significa que Lost foi uma série sensacional? Se você pensar em números e rentabilidade sim. Mas daí pra afirmar que Lost mudou a maneira de assistir TV já é um pouco de exagero. Talvez isso tenha acontecido no Brasil, onde as pessoas eram obrigadas a esperar dois meses por um episódio inédito de uma mesma temporada. Mas garanto que nos Estados Unidos as pessoas ainda assistem TV do mesmo jeito: com a bunda colada no sofá. Lost deve ser creditado como um pioneiro, mas isso não é reflexo apenas da qualidade da série.
Aqui no Brasil, por exemplo, tantas outras séries são tão disputadas para download quanto Lost. Prison Break, Heroes, House e tantas outras também tem (ou tiveram) bom público aqui. E para se ter uma noção global, Heroes é uma série com mais busca por torrent que Lost. Acontece que Lost tem um apelo gigante na mídia brasileira. A Globo tem os direitos mas não passa. O AXN só acertou a mão nessa última temporada com relação à datas de transmissão. Caiu na internet e pouco tempo depois foi parar em revista e jornal. Eu francamente não consigo me lembrar quantas capas e Super Interessante e o Link do Estadão não foram dedicadas a Lost. Ou seja, Lost pode ser unanimidade no Brasil, mas para cada público um gosto.
É interessante! Heroes é a série mais baixada no mundo, e foi cancelada. Nos Estados Unidos, onde o número de pessoas que assistem realmente conta, não era tudo isso. Prison Break tinha roteiristas fodidos de bom. As duas primeiras temporadas da série tinham ganchos (o que liga um episódio ao próximo) espetaculares. Inteligente pra caralho. Aí teve a greve dos roteiristas e foi queda livre. Mudaram uma cena final e o que seria o gancho da próxima temporada foi substituído pelo fim da série. Com Heroes é a mesma coisa. Sofreu o impacto da greve, a história foi piorando cada vez mais e agora não existe mais. E ainda assim, sem planejar, o final de Heroes ficou mais convincente que o final de Lost. Lost passou pelos mesmos problemas que as outras séries, mas teve a chance de se redimir. E isso eu achei legal.
Mas a grande sacada de Lost é ter ficado durante seis anos na TV discutindo bem e mal, carma, divinismo, flashbacks, flashforwards, eletromagnetismo, viagem no tempo, universos paralelos e todo tipo de ciência que gerou todo tipo de discussão entre nerds, geeks ou simples e fiéis seguidores (o que deve se encaixar entre nerds ou geeks).
E no fim, o que prende o espectador é a simples e pura emoção do drama, com uma sacada genial de subjetividade. Cada pessoa ficou com sua teoria do que foi Lost. Não faz meu tipo. Mas tiro o chapéu.
Acho que estou no meio termo. Foi muito bom ver a série sobreviver à greve de roteiristas que colocou em xeque vários enlatados lá em 2008 (lembram?), e realmente, há muita criatividade da parte dos criadores e roteiristas. Mas eu não gostei do fim.
Depois de assistir o episódio final de 2 horas via live broadcast lembrei imediatamente da cena final de o Show de Truman. Não, a ilha não era um estúdio de tamanho extraordinário que pode ser visto do espaço. Estou me referindo ao número de pessoas que parou para assistir esse tão esperado episódio. Talvez também houvesse gente assistindo da banheira, mas acho que não.
O ponto é exatamente esse. Lost é um fenômeno da TV. Pessoas do mundo inteiro assistem. Isso significa que Lost foi uma série sensacional? Se você pensar em números e rentabilidade sim. Mas daí pra afirmar que Lost mudou a maneira de assistir TV já é um pouco de exagero. Talvez isso tenha acontecido no Brasil, onde as pessoas eram obrigadas a esperar dois meses por um episódio inédito de uma mesma temporada. Mas garanto que nos Estados Unidos as pessoas ainda assistem TV do mesmo jeito: com a bunda colada no sofá. Lost deve ser creditado como um pioneiro, mas isso não é reflexo apenas da qualidade da série.
Aqui no Brasil, por exemplo, tantas outras séries são tão disputadas para download quanto Lost. Prison Break, Heroes, House e tantas outras também tem (ou tiveram) bom público aqui. E para se ter uma noção global, Heroes é uma série com mais busca por torrent que Lost. Acontece que Lost tem um apelo gigante na mídia brasileira. A Globo tem os direitos mas não passa. O AXN só acertou a mão nessa última temporada com relação à datas de transmissão. Caiu na internet e pouco tempo depois foi parar em revista e jornal. Eu francamente não consigo me lembrar quantas capas e Super Interessante e o Link do Estadão não foram dedicadas a Lost. Ou seja, Lost pode ser unanimidade no Brasil, mas para cada público um gosto.
É interessante! Heroes é a série mais baixada no mundo, e foi cancelada. Nos Estados Unidos, onde o número de pessoas que assistem realmente conta, não era tudo isso. Prison Break tinha roteiristas fodidos de bom. As duas primeiras temporadas da série tinham ganchos (o que liga um episódio ao próximo) espetaculares. Inteligente pra caralho. Aí teve a greve dos roteiristas e foi queda livre. Mudaram uma cena final e o que seria o gancho da próxima temporada foi substituído pelo fim da série. Com Heroes é a mesma coisa. Sofreu o impacto da greve, a história foi piorando cada vez mais e agora não existe mais. E ainda assim, sem planejar, o final de Heroes ficou mais convincente que o final de Lost. Lost passou pelos mesmos problemas que as outras séries, mas teve a chance de se redimir. E isso eu achei legal.
Mas a grande sacada de Lost é ter ficado durante seis anos na TV discutindo bem e mal, carma, divinismo, flashbacks, flashforwards, eletromagnetismo, viagem no tempo, universos paralelos e todo tipo de ciência que gerou todo tipo de discussão entre nerds, geeks ou simples e fiéis seguidores (o que deve se encaixar entre nerds ou geeks).
E no fim, o que prende o espectador é a simples e pura emoção do drama, com uma sacada genial de subjetividade. Cada pessoa ficou com sua teoria do que foi Lost. Não faz meu tipo. Mas tiro o chapéu.
5 de maio de 2010
Alice e a Fabulosa Máquina de Destruir Clássicos
A melhor moral que podemos tirar do novo filme da Alice é: nunca subestime a indústria do cinema. A coqueluxe que causou o simples fato de uma das historias mais legais da literartura ser filmada pelo Tim Burton, o mestre da estética visual do bizarro e da loucura, não está escrito, embora fosse imaginado. Queira ou não, Tim Burton era o cara certo para fazer essa adaptação. O problema é que talvez nem ele nem o público esperassem que o clássico de Lewis Carrol fosse reduzido a um monte de clichês pasteurizados no melhor estilo hollywoodiano.
O legal na história de Alice, o original, é tanto o nonsense e a insanidade do enredo – que, dizem as más línguas, influenciou os surrealistas e a galera da psicodelia dos anos 60 – quanto seu texto muitíssimo bem trabalhado, cheio de referências históricas, com uma pitada do humor inglês vitoriano e com uma absurda lógica matemática. Mas tudo isso se perdeu quando a Disney decidiu que era melhor criar uma outra história em cima dessa, e uma história muito mais fraca, diga-se de passagem.
A diferença mais visível é que Alice já não é mais uma garota de 7 anos, mas uma moça de 19 prestes a se casar. A partir dessa premissa, a roteirista (a mesma que escreveu Rei Leão e Bela e a Fera) resolveu brincar de futurologia: como seria Alice e o País das Maravilhas 12 anos depois dela ter caído no buraco? A princípio a ideia de fazer algo diferente é até boa, visto que todo mundo já deve conhecer a história e que o que não falta são adaptações para o cinema, mas a execução foi primária. Alice deixou de ser a menina curiosa que se deixa embarcar em um sonho psicodélico com coelhos falantes, gatos que evaporam ou lagartas fumadoras de nargilé. Agora, ela tem uma missão, seguindo a velha cartilha da Jornada do Herói, de Joseph Campbell. E para cumpri-la, precisa passar por um estágio de provação e mudar sua psique interior. Isso quem diz não sou eu, mas os próprios personagens do filme.
Voltando então ao livro. A Alice original era tremendamente esperta e contestadora, mas educada, e isso fazia parte de sua própria característica. Tanto que, embora todo o universo do País das Maravilhas fosse um mero sonho, paradoxalmente ela buscava um sentido lógico em tudo. E é nesse paradoxo que se estabelece a graça da obra. Tanto que um dos melhores capítulos do livro, quiçá da literatura juvenil mundial, é a do chá das cinco, em que Alice tenta estabelecer um diálogo com a Lebre de Março, o Chapeleiro Maluco e o Dormindongo, até que ela fica tão impaciente com a loucura deles que resolve sair de rolê. Parece até uma esquete do Monty Python de tão insano que é o negócio.
Esse tipo de humor do absurdo se perdeu na adaptação. Alice e os personagens do País das Maravilhas transparecem um ar carregado de melancolia, e tudo por causa da tirania da Rainha Vermelha. Aparentemente, só com a derrubada do seu regime que a alegria voltará a reinar nessas terras. Ora, pura patifaria. Nada disso impede um piadinha de efeito ou uma sacada irônica. Só para exemplificar, na época da ditadura militar surgiram mentes brilhantes no Brasil que usavam o humor para contestar a repressão do governo, como o Henfil, o Angeli e os irmãos Caruso. Esse tipo de reducionismo pode funcionar para crianças, mas para adultos, que eram a esmagadora maioria na sessão lotada em que fui em uma tarde chuvosa de domingo em São Paulo, isso beira o revoltante. Pelo menos, foi o que pensei.
Para não dizer que não falei das flores, Alice tem seus pontos altos. Apesar de tudo, a estética burtiana é do caramba. Quando se trata de personagens excêntricos, que transitam entre mundos sombrios e tenebrosos, estamos falando com o cara certo. Mas o problema é quando isso fica só no visual e se esquece do desenvolvimento do enredo, como se fosse um Avatar surrealista. É legal ver os efeitos em 3D e o cenário fantasioso, mas como fica a história? O que deveria ser o principal o pessoal resolve deixar de lado.
É preciso destacar também Mia Wasikowska, que ficou muito bem como a contestadora Alice, embora não convença fazendo cenas de ação; Johhny Depp, que mais uma vez fez como ninguém o papel de louco (se bem que ele só faz papel de louco); e Helena Bonham Carter, que mandou muito como a Rainha Vermelha.
O caso é que Hollywood perdeu uma oportunidade de ouro de fazer uma filme pra ficar na história. Ao invés disso, resolveram subestimar a inteligência do público e enterrar qualquer brilhantismo do livro do Lewis Carrol. Mesmo assim, Alice foi a maior bilheteria da Disney no Brasil. Nunca subestime a indústria do cinema.
O legal na história de Alice, o original, é tanto o nonsense e a insanidade do enredo – que, dizem as más línguas, influenciou os surrealistas e a galera da psicodelia dos anos 60 – quanto seu texto muitíssimo bem trabalhado, cheio de referências históricas, com uma pitada do humor inglês vitoriano e com uma absurda lógica matemática. Mas tudo isso se perdeu quando a Disney decidiu que era melhor criar uma outra história em cima dessa, e uma história muito mais fraca, diga-se de passagem.
A diferença mais visível é que Alice já não é mais uma garota de 7 anos, mas uma moça de 19 prestes a se casar. A partir dessa premissa, a roteirista (a mesma que escreveu Rei Leão e Bela e a Fera) resolveu brincar de futurologia: como seria Alice e o País das Maravilhas 12 anos depois dela ter caído no buraco? A princípio a ideia de fazer algo diferente é até boa, visto que todo mundo já deve conhecer a história e que o que não falta são adaptações para o cinema, mas a execução foi primária. Alice deixou de ser a menina curiosa que se deixa embarcar em um sonho psicodélico com coelhos falantes, gatos que evaporam ou lagartas fumadoras de nargilé. Agora, ela tem uma missão, seguindo a velha cartilha da Jornada do Herói, de Joseph Campbell. E para cumpri-la, precisa passar por um estágio de provação e mudar sua psique interior. Isso quem diz não sou eu, mas os próprios personagens do filme.
Voltando então ao livro. A Alice original era tremendamente esperta e contestadora, mas educada, e isso fazia parte de sua própria característica. Tanto que, embora todo o universo do País das Maravilhas fosse um mero sonho, paradoxalmente ela buscava um sentido lógico em tudo. E é nesse paradoxo que se estabelece a graça da obra. Tanto que um dos melhores capítulos do livro, quiçá da literatura juvenil mundial, é a do chá das cinco, em que Alice tenta estabelecer um diálogo com a Lebre de Março, o Chapeleiro Maluco e o Dormindongo, até que ela fica tão impaciente com a loucura deles que resolve sair de rolê. Parece até uma esquete do Monty Python de tão insano que é o negócio.
Esse tipo de humor do absurdo se perdeu na adaptação. Alice e os personagens do País das Maravilhas transparecem um ar carregado de melancolia, e tudo por causa da tirania da Rainha Vermelha. Aparentemente, só com a derrubada do seu regime que a alegria voltará a reinar nessas terras. Ora, pura patifaria. Nada disso impede um piadinha de efeito ou uma sacada irônica. Só para exemplificar, na época da ditadura militar surgiram mentes brilhantes no Brasil que usavam o humor para contestar a repressão do governo, como o Henfil, o Angeli e os irmãos Caruso. Esse tipo de reducionismo pode funcionar para crianças, mas para adultos, que eram a esmagadora maioria na sessão lotada em que fui em uma tarde chuvosa de domingo em São Paulo, isso beira o revoltante. Pelo menos, foi o que pensei.
Para não dizer que não falei das flores, Alice tem seus pontos altos. Apesar de tudo, a estética burtiana é do caramba. Quando se trata de personagens excêntricos, que transitam entre mundos sombrios e tenebrosos, estamos falando com o cara certo. Mas o problema é quando isso fica só no visual e se esquece do desenvolvimento do enredo, como se fosse um Avatar surrealista. É legal ver os efeitos em 3D e o cenário fantasioso, mas como fica a história? O que deveria ser o principal o pessoal resolve deixar de lado.
É preciso destacar também Mia Wasikowska, que ficou muito bem como a contestadora Alice, embora não convença fazendo cenas de ação; Johhny Depp, que mais uma vez fez como ninguém o papel de louco (se bem que ele só faz papel de louco); e Helena Bonham Carter, que mandou muito como a Rainha Vermelha.
O caso é que Hollywood perdeu uma oportunidade de ouro de fazer uma filme pra ficar na história. Ao invés disso, resolveram subestimar a inteligência do público e enterrar qualquer brilhantismo do livro do Lewis Carrol. Mesmo assim, Alice foi a maior bilheteria da Disney no Brasil. Nunca subestime a indústria do cinema.
5 de março de 2010
Podcast #3
Onde lançamos uma promoção, comentamos as indicações aos Oscars e chegamos a uma sincera conclusão.
Para sugestões, críticas, avatares e altas aventuras: barbiturico.blog@gmail.com
Siga-nos no iTunes.
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31 de janeiro de 2010
Uma resenha sobre Lost que no caminho se tornou um olhar triste e realista da TV no Brasil
Em poucos dias estreia a última temporada de Lost. Sempre chamada de “fenômeno” na TV, gostaria de aproveitar a oportunidade para analisar o caso. A série é encarada de tal forma porque realmente foi um fenômeno, mas não para a audiência americana. Apesar de ter começado com uma média excelente, que aos poucos foi diminuindo, o que chama a atenção é o número de pessoas fora dos Estados Unidos que assiste quase que simultaneamente os episódios novos.
O fato de Lost ser pioneiro no entretenimento online pirateado gratuito não é o objetivo que os produtores queriam atingir com a série, mas devemos dar crédito ao produtor J.J. Abrams pela iniciativa ousada. Lá pelos tantos de 2004 alguém que ligasse a TV nos Estados Unidos no prime-time estaria ou em um hospital ou em uma cena de investigação criminal. Não estou dizendo que algumas dessas séries não são boas, mas não há como negar que existe uma falta de criatividade no contexto geral que só pode ser corrigida pelo protagonista (na minha opinião, os casos de House e talvez Scrubs). Então chega um cara e fala de uma série sobre uma ilha que ninguém sabe onde fica e cheia de coisas estranhas, que depois de constatado o “fenômeno”, passou a ter conteúdo exclusivo para internet, onde exploravam outros ângulos da trama. Enfim, isso é tão fora do limite criativo dos diretores de programação que Lost teve uma certa rejeição por parte dos executivos quando foi lançada.
Mas aí está, de novo, Lost. Talvez a estréia televisiva mais aguardada dos últimos tempos. Vai ser catástrofe no ciberespaço, todo mundo querendo baixar o episódio, deus salve o P2P e o diabo a quatro. Parece que a temporada não terá interrupções, lançando um episódio por semana. A verdade é a seguinte: Quando Lost acabar, J.J. Abrams terá se tornado o Midas da televisão. O que tiver de sci-fi misterioso com a assinatura dele será visto como ouro (prova disso é Cloverfield, um lixo, mas um lixo “do mesmo criador de Lost”). Então, é hora da lição:
O brasileiro vai algum dia se acostumar com séries ou estamos fadados ao novelístico? Novelas são o oposto de séries como Lost. São episódios diários, longos, com temas que beiram a mediocridade, e todo jornal popular no país tem uma coluna que conta o que vai acontecer no próximo episódio. Imagine se alguém abrisse uma página na internet e lesse “Jack tem licença médica cassada e Hurley morre durante lipoaspiração no próximo episódio de Lost”. A novela tem 260 episódios em que as pessoas sabem o que vai acontecer, e mais 6 em que se desvendam mistérios do tipo “quem fica com quem”, “quem é malvado e vira bonzinho” e “quem é o assassino”. Isso é subestimar o público.
Tá bom, não é. As pessoas assistem os 266 episódios mesmo sabendo o que vai acontecer. Essa é a parte triste. O Brasil poderia fazer séries como Lost. Nossas emissoras tem estrutura para fazer séries como nos EUA, o que é um feito incrível, visto que o cinema nacional, por exemplo, nunca vai sonhar chegar perto de Hollywood. Mas o povo não quer. O povo quer é novela mesmo.
O fato de Lost ser pioneiro no entretenimento online pirateado gratuito não é o objetivo que os produtores queriam atingir com a série, mas devemos dar crédito ao produtor J.J. Abrams pela iniciativa ousada. Lá pelos tantos de 2004 alguém que ligasse a TV nos Estados Unidos no prime-time estaria ou em um hospital ou em uma cena de investigação criminal. Não estou dizendo que algumas dessas séries não são boas, mas não há como negar que existe uma falta de criatividade no contexto geral que só pode ser corrigida pelo protagonista (na minha opinião, os casos de House e talvez Scrubs). Então chega um cara e fala de uma série sobre uma ilha que ninguém sabe onde fica e cheia de coisas estranhas, que depois de constatado o “fenômeno”, passou a ter conteúdo exclusivo para internet, onde exploravam outros ângulos da trama. Enfim, isso é tão fora do limite criativo dos diretores de programação que Lost teve uma certa rejeição por parte dos executivos quando foi lançada.
Mas aí está, de novo, Lost. Talvez a estréia televisiva mais aguardada dos últimos tempos. Vai ser catástrofe no ciberespaço, todo mundo querendo baixar o episódio, deus salve o P2P e o diabo a quatro. Parece que a temporada não terá interrupções, lançando um episódio por semana. A verdade é a seguinte: Quando Lost acabar, J.J. Abrams terá se tornado o Midas da televisão. O que tiver de sci-fi misterioso com a assinatura dele será visto como ouro (prova disso é Cloverfield, um lixo, mas um lixo “do mesmo criador de Lost”). Então, é hora da lição:
O brasileiro vai algum dia se acostumar com séries ou estamos fadados ao novelístico? Novelas são o oposto de séries como Lost. São episódios diários, longos, com temas que beiram a mediocridade, e todo jornal popular no país tem uma coluna que conta o que vai acontecer no próximo episódio. Imagine se alguém abrisse uma página na internet e lesse “Jack tem licença médica cassada e Hurley morre durante lipoaspiração no próximo episódio de Lost”. A novela tem 260 episódios em que as pessoas sabem o que vai acontecer, e mais 6 em que se desvendam mistérios do tipo “quem fica com quem”, “quem é malvado e vira bonzinho” e “quem é o assassino”. Isso é subestimar o público.
Tá bom, não é. As pessoas assistem os 266 episódios mesmo sabendo o que vai acontecer. Essa é a parte triste. O Brasil poderia fazer séries como Lost. Nossas emissoras tem estrutura para fazer séries como nos EUA, o que é um feito incrível, visto que o cinema nacional, por exemplo, nunca vai sonhar chegar perto de Hollywood. Mas o povo não quer. O povo quer é novela mesmo.
19 de janeiro de 2010
E agora, mais filmes ruins
Estava em dúvidas sobre escrever este texto, tendo escrito há pouco um texto sobre filmes engraçados porém ruins e com um iminente podcast sobre os Oscars, mas a providência divina entrou no caminho. Primeiro o Golden Globe, depois uma conversa sobre bilheterias no Brasil e agora isso.
E a pergunta que não cala: Como definir um filme bom? A edição 274 da Revista Super Interessante publicou na coluna Respostas - "Qual a fórmula de sucesso dos blockbusters?", que o segredo está na "Saga do Herói", conceito de Joseph Campbell em O Poder do Mito sobre as etapas da jornada de evolução do personagem. Achei uma matéria muito infeliz. Se banalizarmos a Saga do Herói no mesmo nível da matéria, veremos que todos os personagens principais de todos os filmes que você assistiu passam por esse mesmo paradigma que eles criaram. Se analisarmos mensagens metafóricas, então, podem incluir até alguns pornôs na "fórmula de sucesso" descrita.
É uma matéria triste, mas nem por isso inútil. Dela podemos extrair duas perguntas:
1 - Se existe uma fórmula do sucesso, porque filmes fracassam?
2 - Se considerarmos "fórmula de sucesso" como "sucesso de arrecadação em bilheteria", porque os jornais ainda contratam críticos de cinema se o que interessa são os números?
Não cabe a mim responder a primeira pergunta. Onde quero chegar com a segunda? Em Avatar.
Assisti Avatar, em 3D, e o filme inteiro é clichê atrás de clichê. Se condições climáticas fossem tão previsíveis quanto o filme, ninguém morreria de chuva no Brasil. E filmes previsíveis são extremamente irritantes, principalmente pra quem está do meu lado, porque eu gosto de cantar a bola. "Olha, vai acontecer isso, vão fazer aquilo, vai aparecer o outro pra tentar te enganar, mas vai acabar daquele jeito mesmo". Posso dizer que o roteiro é fraco. A atuação, bem, vamos dizer que se alguém ganhar algum prêmio, vai ser o cara que desenvolveu e operou o software que gerou as cenas. Ainda assim, um filme 3D. Parabéns ao diretor, que "desenvolveu as câmeras 3D para gravar o filme". Parabéns é a caceta. Não existe um filme desse cara que eu olhe e fale "Puta filmão", T-2 é o que chega mais perto disso, e ainda fica atrás de muitos.
Agora, se for pra dar os parabéns para o cara pela publicidade que o filme ganhou, aí temos que admitir, esse cara é o melhor diretor do mundo. Quer dizer, ele tem as duas maiores bilheterias do mundo, e os dois filmes são um lixo. O problema é que são lixos com uma exposição gigante de mídia, porque tiveram custos muito altos e o cara segurou as pontas. Aí o curioso vai ver porque a porra do filme foi tão caro e descobre que foi caro porque o navio afundava de verdade na hora de gravar, o tanque de água era gigante e a camera 3D aparentemente funciona. Porra, o 3D existe desde a época que o Martin McFly voltou no tempo e quase trepou com a mãe dele. Não é a tecnologia do futuro no cinema, é a tecnologia do passado. Uma tecnologia do passado que só agora pode ser comercializada, só agora existe um jeito de lucrar com 3D. É um assunto tão comentado que não vai me surpreender se pintar por aí um 2 girls and a cup 3D também.
Fiquei surpreso com as críticas positivas que li. Mas que fiquem avisados aqueles que não asssistiram ao filme: Não é um filme bom. É um filme que está em evidência por causa de uma tecnologia que está em evidência. Prova disso é que no Brasil, onde não existem muitas salas 3D, Avatar foi ultrapassado por Alvin e os Esquilos 2.
Vale reforçar: Se você não foi assistir Avatar porque não era 3D, em 3D o filme continua a mesma merda, só que uma merda com profundidade. Se o mundo for justo em algum lugar de Los Angeles em março, Avatar não vai ganhar mais que um prêmio de efeitos especiais. Mas sabemos que não vai ser o caso.
E a pergunta que não cala: Como definir um filme bom? A edição 274 da Revista Super Interessante publicou na coluna Respostas - "Qual a fórmula de sucesso dos blockbusters?", que o segredo está na "Saga do Herói", conceito de Joseph Campbell em O Poder do Mito sobre as etapas da jornada de evolução do personagem. Achei uma matéria muito infeliz. Se banalizarmos a Saga do Herói no mesmo nível da matéria, veremos que todos os personagens principais de todos os filmes que você assistiu passam por esse mesmo paradigma que eles criaram. Se analisarmos mensagens metafóricas, então, podem incluir até alguns pornôs na "fórmula de sucesso" descrita.
É uma matéria triste, mas nem por isso inútil. Dela podemos extrair duas perguntas:
1 - Se existe uma fórmula do sucesso, porque filmes fracassam?
2 - Se considerarmos "fórmula de sucesso" como "sucesso de arrecadação em bilheteria", porque os jornais ainda contratam críticos de cinema se o que interessa são os números?
Não cabe a mim responder a primeira pergunta. Onde quero chegar com a segunda? Em Avatar.
Assisti Avatar, em 3D, e o filme inteiro é clichê atrás de clichê. Se condições climáticas fossem tão previsíveis quanto o filme, ninguém morreria de chuva no Brasil. E filmes previsíveis são extremamente irritantes, principalmente pra quem está do meu lado, porque eu gosto de cantar a bola. "Olha, vai acontecer isso, vão fazer aquilo, vai aparecer o outro pra tentar te enganar, mas vai acabar daquele jeito mesmo". Posso dizer que o roteiro é fraco. A atuação, bem, vamos dizer que se alguém ganhar algum prêmio, vai ser o cara que desenvolveu e operou o software que gerou as cenas. Ainda assim, um filme 3D. Parabéns ao diretor, que "desenvolveu as câmeras 3D para gravar o filme". Parabéns é a caceta. Não existe um filme desse cara que eu olhe e fale "Puta filmão", T-2 é o que chega mais perto disso, e ainda fica atrás de muitos.
Agora, se for pra dar os parabéns para o cara pela publicidade que o filme ganhou, aí temos que admitir, esse cara é o melhor diretor do mundo. Quer dizer, ele tem as duas maiores bilheterias do mundo, e os dois filmes são um lixo. O problema é que são lixos com uma exposição gigante de mídia, porque tiveram custos muito altos e o cara segurou as pontas. Aí o curioso vai ver porque a porra do filme foi tão caro e descobre que foi caro porque o navio afundava de verdade na hora de gravar, o tanque de água era gigante e a camera 3D aparentemente funciona. Porra, o 3D existe desde a época que o Martin McFly voltou no tempo e quase trepou com a mãe dele. Não é a tecnologia do futuro no cinema, é a tecnologia do passado. Uma tecnologia do passado que só agora pode ser comercializada, só agora existe um jeito de lucrar com 3D. É um assunto tão comentado que não vai me surpreender se pintar por aí um 2 girls and a cup 3D também.
Fiquei surpreso com as críticas positivas que li. Mas que fiquem avisados aqueles que não asssistiram ao filme: Não é um filme bom. É um filme que está em evidência por causa de uma tecnologia que está em evidência. Prova disso é que no Brasil, onde não existem muitas salas 3D, Avatar foi ultrapassado por Alvin e os Esquilos 2.
Vale reforçar: Se você não foi assistir Avatar porque não era 3D, em 3D o filme continua a mesma merda, só que uma merda com profundidade. Se o mundo for justo em algum lugar de Los Angeles em março, Avatar não vai ganhar mais que um prêmio de efeitos especiais. Mas sabemos que não vai ser o caso.
4 de janeiro de 2010
Comédias. *reeditado
Quando falamos de cinema no BcF nunca abordamos um dos gêneros primordiais, a comédia. Devo admitir que não sou um grande fã de comédias. Não é o estilo de filme que priorizo para comprar em DVD ou assistir no cinema, mas não negligencio completamente.
Desconsideradas as “comédias românticas politicamente corretas” (que não são comédias) gostaria de analisar alguns filmes da modalidade com relação a elenco e produtores. Essas pessoas não formam grupos como o Monty Python, que trabalhavam somente entre eles (e quando era necessário colocar uma mulher em cena lá estava Eric Idle para fazer as honras), mas raramente lemos nomes conhecidos nos créditos que já não tenhamos visto em outros filmes.
Nos tipos de comédia que assisto, sempre fica sensação de que um produtor está colocando um amigo dele pra trabalhar, dando uma chance para um desconhecido se tornar famoso pela arte de fazer rir. E notaremos que é isso mesmo o que acontece:
Adam Sandler fez Saturday Night Live, ficou famoso e montou a produtora dele, a Happy Madison (referência aos filmes Happy Gilmore – Um Maluco no Golfe e Billy Madison – Um Herdeiro Trapalhão). Na grande maioria dos filmes produzidos pela companhia de Sandler estão dois atores: Allen Covert e Peter Dante. Ambos são amigos de longa data de Sandler e escritores. Se Adam Sandler não bancasse os dois, eles iam demorar um pouco mais para aparecer por lá, se é que iam aparecer em qualquer lugar. Entre os filmes engraçados que os dois fizeram com a Happy Madison estão O Queridinho da Vovó (Grandma's Boy) e Programa Animal (Strange Wilderness).
Não por coincidência, quem também está nesses dois filmes é Jonah Hill (o gordo do Superbad – É Hoje). Quem bancou Jonah Hill na comédia foi Jude Apatow, diretor e escritor de O Virgem de 40 anos, Ligeiramente Grávidos, Segurando as Pontas (Pineapple Express) e etc. Hill trabalhou então com Steve Carell e Seth Rogen.
Seth Rogen está nos três últimos filmes citados. Também é comediante, escritor e produtor. Escreveu e atuou em Superbad ao lado de Bill Hader, mais um comediante/escritor que está, por exemplo, em Ressaca de Amor (Forgetting Sarah Marshall). O ator principal de Ressaca de Amor é Jason Segel, outro cara que apareceu em vários filmes de Apatow. Quando ele ainda era um ninguém fez uma ponta num filme muito bom: Procura-se Um Morto (Dead Man on Campus) onde ele lança uma frase que ficará marcada nos anais do cinema: “Don't fuck with my stuff”. Segel não tem a mesma visibilidade dos outros, aparece em papéis secundários nos filmes, como é o caso em Ligeiramente Grávidos. Outro que entra nessa lista é Justin Long, que trabalhou com Jonah Hill em Aprovados (Accepted) e Programa Animal, além de fazer uma ponta no último filme de Kevin Smith, Pagando bem que mal tem? (Zack and Miri Make a Porno), mais um filme com Rogen no elenco.
Então, como prometi que notaríamos, há de fato uma ligação entre esses comediantes. Eles produzem, escrevem, atuam, embarcam em projetos nuns dos outros além de trabalhar com outros produtores e tudo isso para que façam do riso um negócio muito lucrativo. Eu acho isso legal, não considero que muito trabalho na mão de poucos deixe o gênero estagnado. A variabilidade de temas e a abordagem de situações cotidianas e/ou absurdas aliadas com a capacidade de improviso desses atores para aprimorar roteiros é um atrativo.
Mas o importante de tudo isso é ver os amigos se ajudando. Fico pensando no Mike Myers quando ele fazia Wayne's World e hoje ninguém sabe o que aconteceu com o Garth (ainda bem que existe wikipedia). Bill e Ted – Dois Loucos no Tempo: O Ted virou Neo, mas o que aconteceu com o Bill? Outro ator que sumiu. O que aconteceu é que você não viu o Keanu Reeves chamar ele pra uma ponta no Matrix.
Não sei o motivo dessa camaradagem. Pode ter a ver com a supremacia judaica no humor estadunidense mas pode ser também que essas pessoas trabalhem entre eles porque conhecem suas capacidades e o quanto podem fazer um filme render. Ainda assim, achei que seria uma boa evidenciar essas relações, principalmente porque o texto na verdade é uma oportunidade para que eu cite meu gosto muitas vezes duvidoso para filmes. Felizmente as piadas variam mais que os atores nesses filmes, e eu recomendo os citados. E para não ficar faltando, indico também que conheçam o grupo de comédia Broken Lizard, com um gênero de comédia e estrutura sócio-política que lembra Monty Python (mas sem um cara travestido). Os filmes: Beerfest, Club Dread e Supertroopers. Lançaram recentemente Slammin' Salmon, outro filme que não vai dar as caras aqui no Brasil tão cedo.
Espero ter justiçado a comédia no Cinetoscópio.
* Estava satisfeito com o texto, mas hoje assisti Se Beber não Case (The Hangover) e tive uma epifania: Nas comédias, as piadas são o fator mais importante do filme, mas quanto mais você elabora a história, melhor fica. Ou seja: uma comédia, em sua essência, é igual a um filme pornô.
Coloquem esse na lista também.
Desconsideradas as “comédias românticas politicamente corretas” (que não são comédias) gostaria de analisar alguns filmes da modalidade com relação a elenco e produtores. Essas pessoas não formam grupos como o Monty Python, que trabalhavam somente entre eles (e quando era necessário colocar uma mulher em cena lá estava Eric Idle para fazer as honras), mas raramente lemos nomes conhecidos nos créditos que já não tenhamos visto em outros filmes.
Nos tipos de comédia que assisto, sempre fica sensação de que um produtor está colocando um amigo dele pra trabalhar, dando uma chance para um desconhecido se tornar famoso pela arte de fazer rir. E notaremos que é isso mesmo o que acontece:
Adam Sandler fez Saturday Night Live, ficou famoso e montou a produtora dele, a Happy Madison (referência aos filmes Happy Gilmore – Um Maluco no Golfe e Billy Madison – Um Herdeiro Trapalhão). Na grande maioria dos filmes produzidos pela companhia de Sandler estão dois atores: Allen Covert e Peter Dante. Ambos são amigos de longa data de Sandler e escritores. Se Adam Sandler não bancasse os dois, eles iam demorar um pouco mais para aparecer por lá, se é que iam aparecer em qualquer lugar. Entre os filmes engraçados que os dois fizeram com a Happy Madison estão O Queridinho da Vovó (Grandma's Boy) e Programa Animal (Strange Wilderness).
Não por coincidência, quem também está nesses dois filmes é Jonah Hill (o gordo do Superbad – É Hoje). Quem bancou Jonah Hill na comédia foi Jude Apatow, diretor e escritor de O Virgem de 40 anos, Ligeiramente Grávidos, Segurando as Pontas (Pineapple Express) e etc. Hill trabalhou então com Steve Carell e Seth Rogen.
Seth Rogen está nos três últimos filmes citados. Também é comediante, escritor e produtor. Escreveu e atuou em Superbad ao lado de Bill Hader, mais um comediante/escritor que está, por exemplo, em Ressaca de Amor (Forgetting Sarah Marshall). O ator principal de Ressaca de Amor é Jason Segel, outro cara que apareceu em vários filmes de Apatow. Quando ele ainda era um ninguém fez uma ponta num filme muito bom: Procura-se Um Morto (Dead Man on Campus) onde ele lança uma frase que ficará marcada nos anais do cinema: “Don't fuck with my stuff”. Segel não tem a mesma visibilidade dos outros, aparece em papéis secundários nos filmes, como é o caso em Ligeiramente Grávidos. Outro que entra nessa lista é Justin Long, que trabalhou com Jonah Hill em Aprovados (Accepted) e Programa Animal, além de fazer uma ponta no último filme de Kevin Smith, Pagando bem que mal tem? (Zack and Miri Make a Porno), mais um filme com Rogen no elenco.
Então, como prometi que notaríamos, há de fato uma ligação entre esses comediantes. Eles produzem, escrevem, atuam, embarcam em projetos nuns dos outros além de trabalhar com outros produtores e tudo isso para que façam do riso um negócio muito lucrativo. Eu acho isso legal, não considero que muito trabalho na mão de poucos deixe o gênero estagnado. A variabilidade de temas e a abordagem de situações cotidianas e/ou absurdas aliadas com a capacidade de improviso desses atores para aprimorar roteiros é um atrativo.
Mas o importante de tudo isso é ver os amigos se ajudando. Fico pensando no Mike Myers quando ele fazia Wayne's World e hoje ninguém sabe o que aconteceu com o Garth (ainda bem que existe wikipedia). Bill e Ted – Dois Loucos no Tempo: O Ted virou Neo, mas o que aconteceu com o Bill? Outro ator que sumiu. O que aconteceu é que você não viu o Keanu Reeves chamar ele pra uma ponta no Matrix.
Não sei o motivo dessa camaradagem. Pode ter a ver com a supremacia judaica no humor estadunidense mas pode ser também que essas pessoas trabalhem entre eles porque conhecem suas capacidades e o quanto podem fazer um filme render. Ainda assim, achei que seria uma boa evidenciar essas relações, principalmente porque o texto na verdade é uma oportunidade para que eu cite meu gosto muitas vezes duvidoso para filmes. Felizmente as piadas variam mais que os atores nesses filmes, e eu recomendo os citados. E para não ficar faltando, indico também que conheçam o grupo de comédia Broken Lizard, com um gênero de comédia e estrutura sócio-política que lembra Monty Python (mas sem um cara travestido). Os filmes: Beerfest, Club Dread e Supertroopers. Lançaram recentemente Slammin' Salmon, outro filme que não vai dar as caras aqui no Brasil tão cedo.
Espero ter justiçado a comédia no Cinetoscópio.
* Estava satisfeito com o texto, mas hoje assisti Se Beber não Case (The Hangover) e tive uma epifania: Nas comédias, as piadas são o fator mais importante do filme, mas quanto mais você elabora a história, melhor fica. Ou seja: uma comédia, em sua essência, é igual a um filme pornô.
Coloquem esse na lista também.
3 de janeiro de 2010
28 de dezembro de 2009
Mapa astral
2009 foi o ano da morte do Michael Jackson, do Patrick Swayze e do Lombardi, da posse de Barack Obama, da gripe suína, dos escândalos no Senado, do mensalão do DEM, do fracasso da COP-15, da escolha do Rio como sede das Olimpíadas e de uma porrada de outras coisas que passaram reto pelo BcF. Mas nem tudo foi desinformação e inutilidade, pois em 25 textos (um recorde pessoal) tratamos de coisas bem interessantes (ou tentativas de) ao longo do ano.
Como estamos no Brasil, 2009 começou, no blog, só em fevereiro. E começou nervoso, com uma peleja insana envolvendo a divisão de ingressos entre times do Paulistinha. Opiniões parciais e argumentos enviesados esquentaram o pseudo-debate, como numa boa mesa redonda da televisão. Logo em seguida, rolou um texto que colocou no mesmo ringue Marcelo Camelo e Little Joy, mas que acabou em empate técnico graças ao meu relativismo cultural pós-kantiano.
Em março, em tom solene e piegas, saiu do forno uma homenagem tardia aos quatro anos de morte de Hunter Thompson – pessoa que é uma espécie de guru deste blog – com direito a considerações do jornalista André Pugliesi nos comentários. Falando no figura, surgiu depois a resenha de uma partida qualquer do Paulistinha que não valia nada e que ficou muito pior que as narrações empolgantes e acuradas do Jornalista de Merda. Em seguida, uma análise inicial sobre a temporada de F-1 apontou, com o dedo em riste, que essa história de nova F-1 que anunciam todo ano não passa de pura patifaria. Essa opinião seria complementada num texto posterior.
Em abril, foi postada uma crônica sobre o ócio que teve como ponto alto a citação de um livro de Lourenço Mutarelli. No mesmíssimo mês, apareceu uma corajosa resenha sobre o mítico CD do Ronaldo e os Impedidos, que foi massacrado pela crítica especializada e por mim também. E emendando o assunto, largaram por aqui um texto sobre o julgamento do Pirate Bay alinhada com uma trivial crítica à indústria fonográfica, dando corda à velha história que nunca termina.
Prova disso é que, em maio, um post que não era um post serviu para complementar o papo anterior sobre as gravadoras com um desenho do tinhoso no clássico estilão "soviet way of life". E mudando totalmente de assunto, repousou-se aqui uma peça acusadora sobre a novela da saída dos times mexicanos da Taça Libertadores da América de 2009, colocando todo o carma negativo nas costas da Conmebol. E para terminar o mês, uma resenha do álbum de estreia do Fleet Foxes, mais uma dessas boas bandas que surgem por aí de vez em quando.
Depois disso, o blog entrou em recesso e só voltou em agosto, com um texto ao estilo Seinfeld, sobre o nada. E ficou por isso mesmo.
No nono mês do ano, a pauta sobre F-1 ressurgiu em uma análise de meio de temporada com direito a uma abertura no melhor estilo kafkiano de escrever: "Hoje pela manhã, estava me desfazendo da janta e lendo o jornal". Depois, uma resenha da tão alardeada remasterização do catálogo dos Beatles, cheia de especulações e falsas certezas.
Em outubro, sobrevoou por aqui um estudo sobre a nova geração das animações em 3-D, tendo como pano de fundo o filme "Up! - Altas Aventuras". Depois, no melhor estilo David Letterman, mostramos as dez razões para não acreditar em listas. E ainda sapecaram um relato emocionante sobre os medos e delírios na Oktoberfest 2009, na qual estive de corpo presente e mentalmente nem tanto.
Em novembro, uma opinião polêmica sobre jogos adventures dividiu o blog. As divergências foram levadas às últimas consequências com um texto que atravessou os confins da web 2.0: começou no Twitter, continuou no Orkut e terminou aqui, sem vencedores ou perdedores. Depois de a paz ser selada em um bar, voltamos ao ritmo normal com uma análise fria, porém sincera, sobre as causas do São Paulo não ter sido campeão brasileiro este ano.
Por fim, em dezembro, um texto que mistura filosofia de banheiro, gatos tocando piano, duas garotas e um copo e Kevin Smith. E para finalizar, mais uma resenha de álbuns, desta vez da estranhíssima Susan Boyle, que fez uns covers à la Emmerson Nogueira só que ao estilo Andrea Bocelli. E tem também esta retrospectiva que você está lendo agora.
É isso aí, moçada. 2009 já era, agora só em 2010.
Como estamos no Brasil, 2009 começou, no blog, só em fevereiro. E começou nervoso, com uma peleja insana envolvendo a divisão de ingressos entre times do Paulistinha. Opiniões parciais e argumentos enviesados esquentaram o pseudo-debate, como numa boa mesa redonda da televisão. Logo em seguida, rolou um texto que colocou no mesmo ringue Marcelo Camelo e Little Joy, mas que acabou em empate técnico graças ao meu relativismo cultural pós-kantiano.
Em março, em tom solene e piegas, saiu do forno uma homenagem tardia aos quatro anos de morte de Hunter Thompson – pessoa que é uma espécie de guru deste blog – com direito a considerações do jornalista André Pugliesi nos comentários. Falando no figura, surgiu depois a resenha de uma partida qualquer do Paulistinha que não valia nada e que ficou muito pior que as narrações empolgantes e acuradas do Jornalista de Merda. Em seguida, uma análise inicial sobre a temporada de F-1 apontou, com o dedo em riste, que essa história de nova F-1 que anunciam todo ano não passa de pura patifaria. Essa opinião seria complementada num texto posterior.
Em abril, foi postada uma crônica sobre o ócio que teve como ponto alto a citação de um livro de Lourenço Mutarelli. No mesmíssimo mês, apareceu uma corajosa resenha sobre o mítico CD do Ronaldo e os Impedidos, que foi massacrado pela crítica especializada e por mim também. E emendando o assunto, largaram por aqui um texto sobre o julgamento do Pirate Bay alinhada com uma trivial crítica à indústria fonográfica, dando corda à velha história que nunca termina.
Prova disso é que, em maio, um post que não era um post serviu para complementar o papo anterior sobre as gravadoras com um desenho do tinhoso no clássico estilão "soviet way of life". E mudando totalmente de assunto, repousou-se aqui uma peça acusadora sobre a novela da saída dos times mexicanos da Taça Libertadores da América de 2009, colocando todo o carma negativo nas costas da Conmebol. E para terminar o mês, uma resenha do álbum de estreia do Fleet Foxes, mais uma dessas boas bandas que surgem por aí de vez em quando.
Depois disso, o blog entrou em recesso e só voltou em agosto, com um texto ao estilo Seinfeld, sobre o nada. E ficou por isso mesmo.
No nono mês do ano, a pauta sobre F-1 ressurgiu em uma análise de meio de temporada com direito a uma abertura no melhor estilo kafkiano de escrever: "Hoje pela manhã, estava me desfazendo da janta e lendo o jornal". Depois, uma resenha da tão alardeada remasterização do catálogo dos Beatles, cheia de especulações e falsas certezas.
Em outubro, sobrevoou por aqui um estudo sobre a nova geração das animações em 3-D, tendo como pano de fundo o filme "Up! - Altas Aventuras". Depois, no melhor estilo David Letterman, mostramos as dez razões para não acreditar em listas. E ainda sapecaram um relato emocionante sobre os medos e delírios na Oktoberfest 2009, na qual estive de corpo presente e mentalmente nem tanto.
Em novembro, uma opinião polêmica sobre jogos adventures dividiu o blog. As divergências foram levadas às últimas consequências com um texto que atravessou os confins da web 2.0: começou no Twitter, continuou no Orkut e terminou aqui, sem vencedores ou perdedores. Depois de a paz ser selada em um bar, voltamos ao ritmo normal com uma análise fria, porém sincera, sobre as causas do São Paulo não ter sido campeão brasileiro este ano.
Por fim, em dezembro, um texto que mistura filosofia de banheiro, gatos tocando piano, duas garotas e um copo e Kevin Smith. E para finalizar, mais uma resenha de álbuns, desta vez da estranhíssima Susan Boyle, que fez uns covers à la Emmerson Nogueira só que ao estilo Andrea Bocelli. E tem também esta retrospectiva que você está lendo agora.
É isso aí, moçada. 2009 já era, agora só em 2010.
3 de novembro de 2009
Microrresenhas da Mostra de SP 2
PIXO (PIXO) - 2009 - Brasil
Documentário de João Wainer e Roberto T. Oliveira revela a cara da pichação em São Paulo. Jovens vindos da periferia percorrem a cidade, sobem em prédios e escalam muros para se divertir e chocar a burguesia com suas letras ininteligiveis. O filme não toma partido, não os mostra como vândalos nem artistas, mas deixa claro a falta de perspectiva para essa juventude.
Avaliação: Excelente
Documentário de João Wainer e Roberto T. Oliveira revela a cara da pichação em São Paulo. Jovens vindos da periferia percorrem a cidade, sobem em prédios e escalam muros para se divertir e chocar a burguesia com suas letras ininteligiveis. O filme não toma partido, não os mostra como vândalos nem artistas, mas deixa claro a falta de perspectiva para essa juventude.
Avaliação: Excelente
29 de outubro de 2009
Microrresenhas da Mostra de SP
BANANAS! (BANANAS!) - 2009 - Suécia
O documentário narra a batalha judicial entre trabalhadores de um bananal na Nicarágua e a empresa americana dona da plantação. No centro da discussão, o uso ilegal de um pesticida nocivo à saúde. O diretor Fredrik Gertten conseguiu tirar leite de pedra, pois o assunto torna difícil obter boas imagens, mas a figura do excêntrico advogado Juan Dominguez deu brilho à história.
Avaliação: Muito bom
FIQUE CALMO E CONTE ATÉ SETE (ARAM BASH VA TA HAFT BESHMAR) - 2008 - Irã
Drama conta a história de um garoto que espera o retorno do pai após este ter levado clandestinamente algumas pessoas para fora do Irã. Paralelamente, um homem que faz contrabando de produtos vê seu casamento se deteriorar. O filme tem o melhor do cinema iraniano: belas imagens e o uso inteligente e criativo da câmera. Mas a narrativa se perde em alguns momentos.
Avaliação: Bom
O documentário narra a batalha judicial entre trabalhadores de um bananal na Nicarágua e a empresa americana dona da plantação. No centro da discussão, o uso ilegal de um pesticida nocivo à saúde. O diretor Fredrik Gertten conseguiu tirar leite de pedra, pois o assunto torna difícil obter boas imagens, mas a figura do excêntrico advogado Juan Dominguez deu brilho à história.
Avaliação: Muito bom
FIQUE CALMO E CONTE ATÉ SETE (ARAM BASH VA TA HAFT BESHMAR) - 2008 - Irã
Drama conta a história de um garoto que espera o retorno do pai após este ter levado clandestinamente algumas pessoas para fora do Irã. Paralelamente, um homem que faz contrabando de produtos vê seu casamento se deteriorar. O filme tem o melhor do cinema iraniano: belas imagens e o uso inteligente e criativo da câmera. Mas a narrativa se perde em alguns momentos.
Avaliação: Bom
19 de outubro de 2009
10 razões para não acreditar em listas
Em tempos de crise, a jogada de marketing mais marota do jornalismo é produzir listas sobre qualquer coisa só para turbinar as vendas e conquistar o bolso do leitor incauto. O assunto não importa, muito menos sua legitimidade, o que importa é que haja uma lista. Mas será que elas merecem o tanto de atenção que recebem?
Conheça agora os dez motivos para não acreditar em listas:
8) Listas baseadas em média de notas normalmente não dão muito certo. Ou como explicar que o nada criativo GTA IV esteja em segundo lugar no GameRankings?
7) O critério de uma lista pode até ser científico, mas eles não resistem aos "ses". Nada contra dizer que Pelé é melhor que Maradona porque ganhou mais títulos e fez mais gols. Mas e se Pelé tivesse jogado na Europa? E se o campeonato brasileiro fosse minimamente mais organizado nos anos 60? Como ele jogaria no esquema tático pós-Carrossel Holandês? Ou com o nariz cheio de pó?
6) Como já mostrava o filme "Alta Fidelidade", o que importa numa lista são os cinco primeiros. O resto poderia ser embaralhado que dava na mesma.
5) A maior prova de que muitas listas são feitas de qualquer jeito é o famoso caso do jogador moldavo Masal Bugduv, que foi incluído na lista das 50 maiores promessas do futebol pelo The Times sendo que ele sequer existe. Bugduv não passava de um "hoax", termo usado na internet para "pegadinha do Mallandro".
4) Listas nada mais são do que um reflexo do presente. Na eleição dos melhores álbuns brasileiros, "Acabou Chorare", dos Novos Baianos, ganhou menos pela sua importância histórica do que pelo revival tropicalista que rolava há uns três anos por causa do retorno dos Mutantes. Se uma lista desta for feita novamente hoje, o resultado certamente será diferente.
3) Normalmente, listas são lotadas de obviedades. A de melhor álbum de todos os tempos sempre vai ter um dos Beatles, assim como o de melhor filme sempre será "Cidadão Kane". E quem não seguir esse dogma, corre o risco de ser crucificado e acusado de querer aparecer. Se é assim, para que fazer uma lista, então?
2) Quando a questão é fazer uma lista democrática, esbarra-se em um dilema: deixar o público eleger ou não? Se sim, corre-se o risco de ter o resultado facilmente adulterado na internet pelo pessoal do 4chan. Caso contrário, pode acontecer o que já foi relatado no item nº 3, já que jornalistas costumam pensar em bloco.
1) A função social de uma lista não é sua capacidade de emitir supostas premissas ou verdades, mas de causar confusão. Quanto mais pessoas discutirem e contestarem seu resultado em uma mesa de bar, melhor.
Portanto, siga essas recomendações e não acredite nela. A verdade é que listas são legais pra cacete, ainda mais quando podemos criar nossas próprias.
Conheça agora os dez motivos para não acreditar em listas:
10) Tirando as listas de coisas mensuráveis (do tipo "os maiores prédios do mundo"), qualquer outro critério de escolha pode ser contestado, por mais cartesiano que pareça. No ranking da FIFA, por exemplo, sempre tem uma seleção brincalhona entre os melhores, neste caso a Croácia, embora seja utilizada uma fórmula de física quântica para calcular os pontos.
9) Questões culturais tem influencia direta no resultado. A escolha das mulheres mais bonitas do mundo podem ter resultados diferentes se for feita no Japão ou no Brasil. E os filmes que os europeus assistem nem sempre são os mesmos que os americanos gostam.
8) Listas baseadas em média de notas normalmente não dão muito certo. Ou como explicar que o nada criativo GTA IV esteja em segundo lugar no GameRankings?
7) O critério de uma lista pode até ser científico, mas eles não resistem aos "ses". Nada contra dizer que Pelé é melhor que Maradona porque ganhou mais títulos e fez mais gols. Mas e se Pelé tivesse jogado na Europa? E se o campeonato brasileiro fosse minimamente mais organizado nos anos 60? Como ele jogaria no esquema tático pós-Carrossel Holandês? Ou com o nariz cheio de pó?
6) Como já mostrava o filme "Alta Fidelidade", o que importa numa lista são os cinco primeiros. O resto poderia ser embaralhado que dava na mesma.
5) A maior prova de que muitas listas são feitas de qualquer jeito é o famoso caso do jogador moldavo Masal Bugduv, que foi incluído na lista das 50 maiores promessas do futebol pelo The Times sendo que ele sequer existe. Bugduv não passava de um "hoax", termo usado na internet para "pegadinha do Mallandro".
4) Listas nada mais são do que um reflexo do presente. Na eleição dos melhores álbuns brasileiros, "Acabou Chorare", dos Novos Baianos, ganhou menos pela sua importância histórica do que pelo revival tropicalista que rolava há uns três anos por causa do retorno dos Mutantes. Se uma lista desta for feita novamente hoje, o resultado certamente será diferente.
3) Normalmente, listas são lotadas de obviedades. A de melhor álbum de todos os tempos sempre vai ter um dos Beatles, assim como o de melhor filme sempre será "Cidadão Kane". E quem não seguir esse dogma, corre o risco de ser crucificado e acusado de querer aparecer. Se é assim, para que fazer uma lista, então?
2) Quando a questão é fazer uma lista democrática, esbarra-se em um dilema: deixar o público eleger ou não? Se sim, corre-se o risco de ter o resultado facilmente adulterado na internet pelo pessoal do 4chan. Caso contrário, pode acontecer o que já foi relatado no item nº 3, já que jornalistas costumam pensar em bloco.
1) A função social de uma lista não é sua capacidade de emitir supostas premissas ou verdades, mas de causar confusão. Quanto mais pessoas discutirem e contestarem seu resultado em uma mesa de bar, melhor.
Portanto, siga essas recomendações e não acredite nela. A verdade é que listas são legais pra cacete, ainda mais quando podemos criar nossas próprias.
4 de outubro de 2009
Muito além do limite

De uns tempos para cá, a mina de ouro de Hollywood tem sido as animações pseudo-infantis em 3-D – digo "pseudo" porque, embora sejam voltadas para crianças, os roteiristas desses filmes adoram colocar piadinhas exclusivas para os adultos mais serelepes darem umas saborosas risadas. Isso levou praticamente todos os grandes estúdios a marcharem rumo ao Oeste em busca da fortuna prometida. Era praticamente uma garantia de grana fácil. Porém, o uso de fórmulas batidas criou uma terra sem lei e ordem. Quando viram que "Procurando Nemo" estava dando altos lucros, alguém teve a criativa ideia de lançar um filme chamado "Espanta Tubarões". Isso sem falar nas constantes sequências de franquias, mostrando que os produtores não estão muito a fim de gastar massa cinzenta para ganhar dinheiro.
Mas nesse universo mais na defensiva que futebol italiano, a Pixar continua sendo uma das poucas a trazer alguma inovação. Depois de "Wall-E", eles trataram de revolucionar novamente a linguagem das animações com "Up! - Altas Aventuras". No filme pós-apocalíptico do simpático robozinho lixeiro, a Pixar elevou as animações em 3-D a um novo patamar, se aproximando pela primeira vez dos filmes de arte: tiraram os diálogos (como no filme "Casa Vazia") e abusaram das referências. Já em "Up!", a narrativa é feita de maneira muito profunda, sendo conduzida pela própria psique do protagonista, ao invés da superficialidade dos tradicionais conflitos internos entre os personagens envolvidos.
O enredo conta a história do velhinho rabugento Carl. Ele vive sua vidinha pacata, sem grandes perspectivas, desde que sua mulher morreu. Para piorar, uma construtora quer colocar sua casa abaixo. Para fugir dos problemas, nada mais lógico que colocar balões em sua própria morada e ir voando até uma cachoeira perdida na América do Sul – lugar que sua esposa sempre quis conhecer. Só que, por acaso, um moleque escoteiro acaba pegando uma carona, alterando os planos de viagem.
A história é bastante simplória, como não haveria de ser diferente – afinal é um filme para crianças e não um "Akira". Mas a questão importante aqui é como ela é narrada. Nos primeiros dez minutos, a vida de Carl é mostrada desde que era um pirralho medroso e tímido até os últimos momentos de sua amada mulher. E tudo é contado de maneira belíssima, com uma espetacular trilha sonora, e abusando do dramalhão, como se fosse uma "Lista deSchindler" em CG.
E é aí que mora a diferença. Assim como em "Os Incríveis", a angústia do personagem transparece de maneira muito clara. Conhecemos na pele seus conflitos, deixando na cara seu apego ao passado. Mas, diferente do Sr. Incrível, Carl não tem como voltar aos velhos tempos – muito menos trazer sua mulher de volta. A solução que encontra é navegar a fundo em suas lembranças, personificada na casa onde moraram e que se torna o último elo com a sua falecida companheira. Porém, aos poucos, ele abandona esse apoio cego ao compreender que as recordações não passam disso: meras recordações.Mas nesse universo mais na defensiva que futebol italiano, a Pixar continua sendo uma das poucas a trazer alguma inovação. Depois de "Wall-E", eles trataram de revolucionar novamente a linguagem das animações com "Up! - Altas Aventuras". No filme pós-apocalíptico do simpático robozinho lixeiro, a Pixar elevou as animações em 3-D a um novo patamar, se aproximando pela primeira vez dos filmes de arte: tiraram os diálogos (como no filme "Casa Vazia") e abusaram das referências. Já em "Up!", a narrativa é feita de maneira muito profunda, sendo conduzida pela própria psique do protagonista, ao invés da superficialidade dos tradicionais conflitos internos entre os personagens envolvidos.
O enredo conta a história do velhinho rabugento Carl. Ele vive sua vidinha pacata, sem grandes perspectivas, desde que sua mulher morreu. Para piorar, uma construtora quer colocar sua casa abaixo. Para fugir dos problemas, nada mais lógico que colocar balões em sua própria morada e ir voando até uma cachoeira perdida na América do Sul – lugar que sua esposa sempre quis conhecer. Só que, por acaso, um moleque escoteiro acaba pegando uma carona, alterando os planos de viagem.
A história é bastante simplória, como não haveria de ser diferente – afinal é um filme para crianças e não um "Akira". Mas a questão importante aqui é como ela é narrada. Nos primeiros dez minutos, a vida de Carl é mostrada desde que era um pirralho medroso e tímido até os últimos momentos de sua amada mulher. E tudo é contado de maneira belíssima, com uma espetacular trilha sonora, e abusando do dramalhão, como se fosse uma "Lista deSchindler" em CG.
Não é à toa que "Up" foi o primeiro filme de animação a abrir o Festival de Cannes. Os cinéfilos em geral são loucos por filmes sobre dramas pessoais psicologicamente complexos. E nesse caso, "Up!" cai como uma luva. É só uma pena que o vilão da história não seja tratado da mesma forma, parecendo mais um gênio louco do que um homem injustiçado. E os mais cri-cris podem reclamar de alguns furos mal explicados no roteiro, mas, poxa vida, isso é desenho animado e não neo-realismo.
4 de maio de 2009
Um post que não é um post.
Como diria Cléber Machado, o texto a seguir "é um post mas não é". Ele sem dúvida é um texto, com direito a título e data de nascimento, o que o torna um post. Mas não é um post, pois não trata o tema com originalidade.
Ao invés de escrever um comentário sobre o último texto e dar minha opinião, resolvi escrever um texto novo. É o que na internet se conhece por "RE" diminutivo para reply. E se você realmente não sabia disso, provavelmente também não entendeu a piadinha do Cléber Machado, o que é muito triste.
Enfim, este assunto (a pirataria) é muito delicado e eu o trato da seguinte forma: Dadas as taxas elevadas para - o que eu vou chamar de - "consumo cultural" (ingresso de cinema e cd's, por exemplo) corre-se um risco muito grande de ver seu dinheiro indo pro lixo com algo que você talvez não se satisfaça. O que o consumidor quer é consumir um produto bom e evitar "investimentos de risco".
Há uma lista que roda por aí que compara os top 10 filmes pirateados com os top 10 sucessos de bilheterias. Tirando um ou dois blockbuster-estoura-boca-do-balão-filme-de-herói-dos-quadrinhos, a lista é completamente diferente uma da outra. Os filmes vistos em salas de cinema são em sua maioria filmes que passam do julgamento "bom ou ruim" pois tem um número assíduo de fãs. Estes mesmos fãs, inclusive, são os que mais procuram o material na internet para matar a curiosidade. Ao mesmo tempo eles promovem a pirataria e ajudam na arrecadação.
Outra razão para a diferença entre as listas é o fato de o próprio estúdio investir pesado em títulos de retorno garantido. Acabam sem fazer grandes propagandas virais de outros títulos. Isso afeta a arrecadação de bilheteria no mercado interno (EUA). Sem arrecadação o filme não consegue abertura em mercados estrangeiros com as distribuidoras, o público fica sem filme, o público apela para a pirataria. O caminho da pirataria é sempre esse.
O mesmo acontece com a música. Eu realmente acredito na idéia de que uma pessoa compra um produto original bom porque reconhece em algum ponto sua qualidade. O PirateBay é uma casualidade da guerra. Depois será o Mininova e o Isohunt, e por fim, o próprio Google. Eles não são cúmplices, de uma certa forma, ao fornecer resultados de pesquisa de torrents? Facilitadores do crime?
E aí está o ponto de partida do desenho no outro post. E eu termino com um também:
Ao invés de escrever um comentário sobre o último texto e dar minha opinião, resolvi escrever um texto novo. É o que na internet se conhece por "RE" diminutivo para reply. E se você realmente não sabia disso, provavelmente também não entendeu a piadinha do Cléber Machado, o que é muito triste.
Enfim, este assunto (a pirataria) é muito delicado e eu o trato da seguinte forma: Dadas as taxas elevadas para - o que eu vou chamar de - "consumo cultural" (ingresso de cinema e cd's, por exemplo) corre-se um risco muito grande de ver seu dinheiro indo pro lixo com algo que você talvez não se satisfaça. O que o consumidor quer é consumir um produto bom e evitar "investimentos de risco".
Há uma lista que roda por aí que compara os top 10 filmes pirateados com os top 10 sucessos de bilheterias. Tirando um ou dois blockbuster-estoura-boca-do-balão-filme-de-herói-dos-quadrinhos, a lista é completamente diferente uma da outra. Os filmes vistos em salas de cinema são em sua maioria filmes que passam do julgamento "bom ou ruim" pois tem um número assíduo de fãs. Estes mesmos fãs, inclusive, são os que mais procuram o material na internet para matar a curiosidade. Ao mesmo tempo eles promovem a pirataria e ajudam na arrecadação.
Outra razão para a diferença entre as listas é o fato de o próprio estúdio investir pesado em títulos de retorno garantido. Acabam sem fazer grandes propagandas virais de outros títulos. Isso afeta a arrecadação de bilheteria no mercado interno (EUA). Sem arrecadação o filme não consegue abertura em mercados estrangeiros com as distribuidoras, o público fica sem filme, o público apela para a pirataria. O caminho da pirataria é sempre esse.
O mesmo acontece com a música. Eu realmente acredito na idéia de que uma pessoa compra um produto original bom porque reconhece em algum ponto sua qualidade. O PirateBay é uma casualidade da guerra. Depois será o Mininova e o Isohunt, e por fim, o próprio Google. Eles não são cúmplices, de uma certa forma, ao fornecer resultados de pesquisa de torrents? Facilitadores do crime?
E aí está o ponto de partida do desenho no outro post. E eu termino com um também:
6 de abril de 2009
Tempo para nada.
Muitas pessoas reclamam de “ter rotina” argumentando que o tempo passa mais rápido que o normal. Esta é a invenção do século. O tempo continua sendo contado por horas, e o dia sempre se forma das mesmas vinte e quatro delas. O raciocínio dos rotineiros é na verdade a derivação da ideia de que não existe tempo suficiente para se realizar todas as tarefas desejadas. O tempo é, em alguns casos, superestimado. Poucas pessoas percebem isso exatamente porque lhes falta tempo.
Difícil é o tempo de sobra. Quando não temos rotina e tarefas a coisa complica. É preciso pensar com cuidado tudo o que vamos fazer, pois devemos levar em conta a importância do ato caso fôssemos rotineiros. “Eu posso fazer isso, mas se eu fosse uma pessoa ocupada, sem tempo, provavelmente não o faria”.
Isso me aconteceu há algum tempo, e seguindo o pensamento acima resolvi ler um livro. Achei que um livro não seria perda de tempo caso eu não tivesse tempo para ler livros, pela importância cultural da coisa.
Não podia ser um livro da prateleira (empoeirada), pois isso me daria a sensação de que poderia ler um livro a qualquer hora que não aquela em que eu tinha tempo livre. Só o fato de achar que eu não perderia tempo era pouco, então como bom sovina que sou, decidi comprar um livro novo, e partir do princípio que caso eu decidisse cerrar a leitura antecipadamente não só perderia meu tempo (que exatamente por estar sobrando se tornou muito mais valioso) como também arcaria com o desperdício monetário.
Escolhi “A arte de produzir efeito sem causa”, do Lourenço Mutarelli, que trata justamente de um cara que perde o emprego e começa a ter tempo livre demais. É uma leitura simples e rápida. Júnior, o personagem principal, fica louco à medida que perde interesse nas coisas e começa a fazer nada (este é um trocadilho muito bom). No fim das contas eu gostei do livro. Não tinha lido nada do Mutarelli ainda, e o interesse só apareceu por causa d'O Cheiro do Ralo que vi no cinema. O melhor Selton Mello. O Mutarelli acerta o personagem aí: Todo mundo é um pouco louco, fetichista e paranóico com alguma coisa.
Quando sobrar tempo leio mais alguma coisa dele.
Difícil é o tempo de sobra. Quando não temos rotina e tarefas a coisa complica. É preciso pensar com cuidado tudo o que vamos fazer, pois devemos levar em conta a importância do ato caso fôssemos rotineiros. “Eu posso fazer isso, mas se eu fosse uma pessoa ocupada, sem tempo, provavelmente não o faria”.
Isso me aconteceu há algum tempo, e seguindo o pensamento acima resolvi ler um livro. Achei que um livro não seria perda de tempo caso eu não tivesse tempo para ler livros, pela importância cultural da coisa.
Não podia ser um livro da prateleira (empoeirada), pois isso me daria a sensação de que poderia ler um livro a qualquer hora que não aquela em que eu tinha tempo livre. Só o fato de achar que eu não perderia tempo era pouco, então como bom sovina que sou, decidi comprar um livro novo, e partir do princípio que caso eu decidisse cerrar a leitura antecipadamente não só perderia meu tempo (que exatamente por estar sobrando se tornou muito mais valioso) como também arcaria com o desperdício monetário.
Escolhi “A arte de produzir efeito sem causa”, do Lourenço Mutarelli, que trata justamente de um cara que perde o emprego e começa a ter tempo livre demais. É uma leitura simples e rápida. Júnior, o personagem principal, fica louco à medida que perde interesse nas coisas e começa a fazer nada (este é um trocadilho muito bom). No fim das contas eu gostei do livro. Não tinha lido nada do Mutarelli ainda, e o interesse só apareceu por causa d'O Cheiro do Ralo que vi no cinema. O melhor Selton Mello. O Mutarelli acerta o personagem aí: Todo mundo é um pouco louco, fetichista e paranóico com alguma coisa.
Quando sobrar tempo leio mais alguma coisa dele.
30 de julho de 2008
Sobre verdades, filmes e anéis de fumaça.
Uma das poucas coisas insignificantes porém engraçadas com a qual me deparei em minhas duas décadas de existência foi a noção de que as pessoas "aprendem" as coisas com o cinema. É sempre a mesma história de alguém que conta um acaso (eu gosto das pessoas que contam acasos), e para apoiar sua observação, para mim tantas vezes indiferente, confirma a fonte: “Eu vi num filme”.
Acho isso cem por cento sensacional. Cinema é globalizado, com exceção talvez da China, onde os filmes não podem passar, e eu concordo com a censura de lá, uma vez que a China é a nova União Soviética (para o cinema pelo menos. 007 precisa de um inimigo) mas ainda não estudei detalhadamente a história do cinema a ponto de saber se foi a censura na China que proibiu o cinema ou se o cinema entrou em conflito com a política do país gerando censura. Enfim, a exceção são os chineses e os hindus, não por (falta de) censura na Índia, mas simplesmente porque filmes hindus são ruins.
O gosto pelo cinema, neste caso, é doentio. Uma doença séria mas de fácil diagnóstico, principalmente por ser uma questão de bom senso. As pessoas parecem acreditar que tudo no cinema é verdade. No cinema brasileiro, tiros e traficantes e violência. Nos Estados Unidos um simples “é igual a gente vê nos filmes”, sobre o tratamento que outrem recebeu ao visitar tal país, apesar de nunca sabermos de verdade de qual filme se está falando. Uma vez fiz um daqueles anéis de fumaça com um cigarro e um amigo disparou “Você está assistindo muitos filmes de Hollywood”. Este é o ponto intrigante para mais uma retórica postagem neste blog tão mal-cuidado, mas, pelo que me consta no número de acessos, querido.
Se o cinema é a arte de retratar verdade levada a sério, o discurso é meio uníssono, não? Mas a verdade está para quem? Eu acho que não tenho condições de falar se Tropa de Elite é um filme franco e moro do lado do Rio de Janeiro, então como alguém pode afirmar que uma coisa é verdadeira porque assistiu em um filme? Ainda mais, como alguém pode dizer que é o filme de Hollywood que me inspira a praticar um ato tão despatriota quanto fazer anéis de fumaça. Que porra alienadora, não é mesmo?
Acho isso cem por cento sensacional. Cinema é globalizado, com exceção talvez da China, onde os filmes não podem passar, e eu concordo com a censura de lá, uma vez que a China é a nova União Soviética (para o cinema pelo menos. 007 precisa de um inimigo) mas ainda não estudei detalhadamente a história do cinema a ponto de saber se foi a censura na China que proibiu o cinema ou se o cinema entrou em conflito com a política do país gerando censura. Enfim, a exceção são os chineses e os hindus, não por (falta de) censura na Índia, mas simplesmente porque filmes hindus são ruins.
O gosto pelo cinema, neste caso, é doentio. Uma doença séria mas de fácil diagnóstico, principalmente por ser uma questão de bom senso. As pessoas parecem acreditar que tudo no cinema é verdade. No cinema brasileiro, tiros e traficantes e violência. Nos Estados Unidos um simples “é igual a gente vê nos filmes”, sobre o tratamento que outrem recebeu ao visitar tal país, apesar de nunca sabermos de verdade de qual filme se está falando. Uma vez fiz um daqueles anéis de fumaça com um cigarro e um amigo disparou “Você está assistindo muitos filmes de Hollywood”. Este é o ponto intrigante para mais uma retórica postagem neste blog tão mal-cuidado, mas, pelo que me consta no número de acessos, querido.
Se o cinema é a arte de retratar verdade levada a sério, o discurso é meio uníssono, não? Mas a verdade está para quem? Eu acho que não tenho condições de falar se Tropa de Elite é um filme franco e moro do lado do Rio de Janeiro, então como alguém pode afirmar que uma coisa é verdadeira porque assistiu em um filme? Ainda mais, como alguém pode dizer que é o filme de Hollywood que me inspira a praticar um ato tão despatriota quanto fazer anéis de fumaça. Que porra alienadora, não é mesmo?
1 de julho de 2008
Retaliação crítica
Depois de um bimestre em reclusão, resolvi dar a cara pra bater e falar um pouco de cinema. Quando começamos a pensar na idéia de tags para o blog eu imaginei que depois de Beberronia, a mais utilizada por mim seria um páreo duro entre Apitolândia e Cinestocópio. Como mal tive tempo para tocar o Barbitúrico, errei em todas as previsões.
Mas sobre cinema, andei lendo muitas críticas a vários filmes por aí, e descobri que ou meu gosto é completamente diferente do “padrão” ou os críticos de cinema são muito ruins, e convenhamos, essas duas constatações são possíveis, quiçá prováveis.
Primeiro vou bater nos críticos, e depois penso sobre meu caso. Sobre o lançamento do filme Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, um(a) audaz qualquer disse: “O melhor filme da série depois de Templo da Perdição” (o segundo filme, para os não-iniciados). Está completamente enganado quem diz isso, a não ser que queira opinar de forma sarcástica que este último é o pior filme da série. Convenhamos que mesmo com o Data dos Goonies o Templo da Perdição é o pior dos quatro. Mas eu gosto de alguns lances do Spielberg, do tipo brincar com a sombra do personagem. Ele colocou isso em todos os filmes da série. Kubrick trabalha o silêncio perturbador em todos os seus filmes, também. É a assinatura em película dos caras, e as vezes acho que ninguém nota as sutilezas nem um pouco importantes dos filmes, mas acham que podem falar das coisas importantes com propriedade. O cinema está nos mínimos detalhes. “Só perde para o melhor da série, ‘O Templo da Perdição’...” Se foder, viu!
Outra coisa que me chateia é falarem bem de Juno. Ele só pode ser considerado um bom roteiro se levarmos em conta que foi escrito por uma stripper. Nada de muito engraçado no filme, nem muito dramático, resultando em um filme X. Poderia muito bem dizer também que indicar Ellen Page ao Oscar foi uma decisão tão bizarra quanto dar o prêmio para aquela mulher do Dreamgirls, uma cantora que quer ser mas não é famosa interpretando uma cantora que quer ser mas não é famosa. Realmente, deve ter sido um laboratório difícil pra entrar na personagem...
Esta animação que está para estrear, Wall-E. Como ninguém disse ainda que é um claro plágio ao filme um Robô em Curto Circuito (a.k.a. Johnny 5) ?

Está aí a prova contundente de que os críticos não sabem sobre cinema. Ficam querendo classificar filmes como “cults”, “blockbusters”, “features” e outros epítetos (usei só pra lembrar do blog antigo mesmo) escrotos. E o pior é que as pessoas gostam dessa onda de Cult e tudo mais. É realmente irritante uma pessoa que só assiste esses filmes. Essas pessoas costumam achar que por assistir esse tipo específico de filme fogem do processo de alienação, mas o que acontece é justamente o contrário.
Para mim, só houve um rei Cult na história do cinema. E o nome desse cara é Kevin Smith. Ele criou uma história usando vários elementos da cultura pop (e a cultura pop não é “cult” para quem curte os filmes “cult”) e fez um filme que realmente rendeu dinheiro na bilheteria. Fez os “cults” considerarem um filme “cult”, mesmo com elementos “não-cult”, e quem estava pouco se fodendo para se o filme era cult ou não foi assistir um filme realmente muito bom, que rendeu uma grana boa nas bilheterias e mesmo com todas as características de um filme “blockbuster” “não-cult” foi considerado “cult”. Esses caras não sabem porra nenhuma de cinema. Igual os críticos que recomendam os filmes para eles.
Mas sobre cinema, andei lendo muitas críticas a vários filmes por aí, e descobri que ou meu gosto é completamente diferente do “padrão” ou os críticos de cinema são muito ruins, e convenhamos, essas duas constatações são possíveis, quiçá prováveis.
Primeiro vou bater nos críticos, e depois penso sobre meu caso. Sobre o lançamento do filme Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, um(a) audaz qualquer disse: “O melhor filme da série depois de Templo da Perdição” (o segundo filme, para os não-iniciados). Está completamente enganado quem diz isso, a não ser que queira opinar de forma sarcástica que este último é o pior filme da série. Convenhamos que mesmo com o Data dos Goonies o Templo da Perdição é o pior dos quatro. Mas eu gosto de alguns lances do Spielberg, do tipo brincar com a sombra do personagem. Ele colocou isso em todos os filmes da série. Kubrick trabalha o silêncio perturbador em todos os seus filmes, também. É a assinatura em película dos caras, e as vezes acho que ninguém nota as sutilezas nem um pouco importantes dos filmes, mas acham que podem falar das coisas importantes com propriedade. O cinema está nos mínimos detalhes. “Só perde para o melhor da série, ‘O Templo da Perdição’...” Se foder, viu!
Outra coisa que me chateia é falarem bem de Juno. Ele só pode ser considerado um bom roteiro se levarmos em conta que foi escrito por uma stripper. Nada de muito engraçado no filme, nem muito dramático, resultando em um filme X. Poderia muito bem dizer também que indicar Ellen Page ao Oscar foi uma decisão tão bizarra quanto dar o prêmio para aquela mulher do Dreamgirls, uma cantora que quer ser mas não é famosa interpretando uma cantora que quer ser mas não é famosa. Realmente, deve ter sido um laboratório difícil pra entrar na personagem...
Esta animação que está para estrear, Wall-E. Como ninguém disse ainda que é um claro plágio ao filme um Robô em Curto Circuito (a.k.a. Johnny 5) ?

Está aí a prova contundente de que os críticos não sabem sobre cinema. Ficam querendo classificar filmes como “cults”, “blockbusters”, “features” e outros epítetos (usei só pra lembrar do blog antigo mesmo) escrotos. E o pior é que as pessoas gostam dessa onda de Cult e tudo mais. É realmente irritante uma pessoa que só assiste esses filmes. Essas pessoas costumam achar que por assistir esse tipo específico de filme fogem do processo de alienação, mas o que acontece é justamente o contrário.
Para mim, só houve um rei Cult na história do cinema. E o nome desse cara é Kevin Smith. Ele criou uma história usando vários elementos da cultura pop (e a cultura pop não é “cult” para quem curte os filmes “cult”) e fez um filme que realmente rendeu dinheiro na bilheteria. Fez os “cults” considerarem um filme “cult”, mesmo com elementos “não-cult”, e quem estava pouco se fodendo para se o filme era cult ou não foi assistir um filme realmente muito bom, que rendeu uma grana boa nas bilheterias e mesmo com todas as características de um filme “blockbuster” “não-cult” foi considerado “cult”. Esses caras não sabem porra nenhuma de cinema. Igual os críticos que recomendam os filmes para eles.
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