24 de Maio de 2009

A frota das raposas

Sempre fui cismado com essas novas bandas que mal aparecem e já são eleitas pela crítica as melhores coisas que já surgiram desde os Ramones, ou coisa que o valha. Na maioria dos casos, nunca entendi o porquê de tanto hype com grupos que parecem acrescentar muito pouco em termos de sonoridade e qualidade musical, e que ficam naquela mesmice do rock atual, como Yeah Yeah Yeahs!, TV on the Radio, CSS, Bloc Party, entre outros. E nem foi por falta de vontade pessoal. Arctic Monkeys, por exemplo, eu ouvi de cabo a rabo e não achei grande coisa (exceto pela música "A Certain Romance", que é de longe a mais legal dos caras). Lógico que há algumas boas exceções, e entre elas está a nova sensação do folk-rock americano, o Fleet Foxes.

Apesar de ainda não ter caído nas graças da crítica musical brasileira, o lançamento do primeiro CD do Fleet Foxes no ano passado fez um tremendo estrago lá fora. A Mojo chamou-a de "a próxima grande banda da América". A igualmente britânica Uncut e o Pitchfork também alçaram o álbum como um dos melhores de 2008. Só para não dizer que não houve unanimidade, a queridinha da galera NME resolveu dar um 7, o que talvez explique um pouco a apatia da imprensa brasileira especializada.

Lógico que é de se desconfiar de tanto elogio. Já cansei de cair do cavalo por causa dessa armadilha da indústria. Mas é preciso reconhecer o talento dos caras em, pelo menos, conseguir fazer algo diferente do que se vê por aí. Tanto que é difícil definir o Fleet Foxes. Pode-se dizer que é uma banda de folk-rock americano, com a harmonia de até quatro vocais dando o clima das músicas -no melhor estilo que consagrou o Beach Boys antes do Pet Sounds- e elementos do folk celta, do rock progressivo dos anos 70 e até do indie rock.

A mistura de tudo isso, obviamente, resulta em algo muito estranho. Na primeira audição, parece uma coisa meio místico-religiosa, no melhor estilo Enya, que logo te remete a imagens de montanhas, celeiros, pastos e essas coisas bucólicas. Por isso, Fleet Foxes é daquelas bandas em que é preciso ouvir diversas vezes para começar a fazer sentido. Na verdade, é mais fácil ouvir do que explicar.

Essa estranheza fica evidente logo na primeira música, "Sun It Rises", que começa com um coral típico do cancioneiro rural americano. Depois ela caminha para um folk lento e melódico à la Nick Drake e, quando os intrumentos vão pouco a pouco ganhando peso e dominando a parada, o ritmo é quebrado bruscamente. Uma jogada velha, mas certeira.

Na música seguinte, "White Winter Hymnal", a banda traz para o folk a pegada do rock atual, com arranjos que fazem lembrar o Arcade Fire, mas com a harmonia da canção sendo conduzida através dos vocais reverberados. O inusitado é que a música tem um verso apenas. Mesmo assim, é facilmente a melhor faixa do CD. Até imagino nos shows o pessoal cantando essa música, repetindo em coro: "I was following, I was following, I was following...".

Em "Ragged Wood", vê-se mais uma mostra de que os caras não se fixaram só em referências do passado. A faixa começa bem rápida e elétrica, como se os Beach Boys resolvessem fazer um cover de Interpol, só para ficar no campo das analogias esdrúxulas. Até que, repentinamente, a música muda completamente de ritmo, parecendo que acabou e deu lugar à outra. Também figura entre as melhores do álbum.

Outros destaques são "Quiet Houses" e seu verso hipnótico ("Lay me down, lay me down"), a inebriante "He Doesn't Know Why", a melancólica "Your Protector", com uma pegada que lembra Jethro Tull, e "Oliver James", que poderia facilmente se passar por uma música do Neil Young.

Ainda é muito cedo para dizer se o Fleet Foxes vai realmente entrar no hall das grandes bandas. Lógico que o disco tem seus altos e baixos, como qualquer outro. E os melhores momentos acontecem quando eles resolvem aplicar a atmosfera bucólica no indie rock. E os piores quando eles abandonam suas referências e mergulham de cabeça num excesso de coro reverberado místico, como em uma trilha sonora de yoga.

Mas, no geral, todos os méritos são merecidos. E é preciso lembrar que é o primeiro disco deles e, portanto, ainda há muito para evoluir. Por isso, ainda não dá para chamá-los de novos gênios do folk-rock e colocá-los num pedestal ao lado do Bob Dylan, Van Morrison e Crosby, Stills, Nash e Young. Mas, certamente, estão bem acima de Mallu Magalhães e outros espécimes que fazem a alegria da moçada cult.

14 de Maio de 2009

Gol contra à la Oséas da Conmebol

Agora está decidido. A Conmebol anunciou que São Paulo e Nacional (URU) passarão direto para as quartas-de-final da Copa Libertadores da América após a saída de Chivas e San Martin, ambos do México, da competição. Com o fim da novela, só nos resta o óbvio: colocar a culpa em alguém. E a minha escolhida é a Conmebol.

Primeiramente por uma questão prática: qual a razão de colocar times mexicanos na Libertadores senão pela questão financeira? É sabido até pelo reino mineral que se um time mexicano vencer a competição, ele não irá disputar o Mundial de Clubes, já que representa a Concacaf. Então para quê esse crossover? Só para ganhar uma grana, como em Mortal Kombat vs DC. Se a Conmebol fosse mais esperta, daria um jeito de colocar equipes da MLS no torneio e faturar um tusta (e não é de se duvidar que isso aconteça, principalmente quando se lembra que o Japão já disputou a Copa América).

Segundamente, pela sua inépcia em resolver a questão. É verdade que diversas opções foram colocadas na roda, mas sempre havia um empecilho. Primeiro pensaram em transferir o jogo de ida dos times mexicanos para a Colômbia, mas o país de Pablo Escobar não quis, com medo de que a gripe suína fosse trazida pelos jogadores. A mesma desculpa esfarrapada foi dada pelo Chile e Peru. Mas, mesmo sabendo que essa premissa era falsa, a entidade sul-americana não moveu um mol de palha para demovê-los dessa ideia. O México até sugeriu receber a partida em portões fechados, como já estava rolando no campeonato local, mas o São Paulo e o Nacional disseram que não pisam no país nem à base de porrada. A decisão é polêmica, mas em se tratando de atletas, todo cuidado com a saúde é pouco.

Com o impasse, a Conmebol teve a infeliz ideia de realizar jogo único no Brasil e no Uruguai e os mexicanos, logicamente, disseram não. E realmente não faz nenhum sentido eles gastarem com transporte e hospedagem para entrarem em campo em situação de teórica desvantagem. A entidade, então, mandou os chicanos para escanteio e classificou automaticamente os times sul-americanos para as quartas-de-final. O interessante é que essa decisão conseguiu ferrar todos os quatro times, logicamente com maior malefício aos mexicanos, já que eles jogaram seis partidas de bobo -assim como faziam desde 1998. Enquanto isso, os outros dois times não faturarão com a renda dos ingressos e dos direitos televisivos.

Por causa disso, a Conmebol vai criar esse tremendo mal estar entre as duas confederações -presumindo, é claro, que a Concacaf vai assumir as dores da FMF, que preferiu sair fora de todo esse circo. Daqui para frente, México na Copa América só no Winning Eleven.

4 de Maio de 2009

Um post que não é um post.

Como diria Cléber Machado, o texto a seguir "é um post mas não é". Ele sem dúvida é um texto, com direito a título e data de nascimento, o que o torna um post. Mas não é um post, pois não trata o tema com originalidade.

Ao invés de escrever um comentário sobre o último texto e dar minha opinião, resolvi escrever um texto novo. É o que na internet se conhece por "RE" diminutivo para reply. E se você realmente não sabia disso, provavelmente também não entendeu a piadinha do Cléber Machado, o que é muito triste.

Enfim, este assunto (a pirataria) é muito delicado e eu o trato da seguinte forma: Dadas as taxas elevadas para - o que eu vou chamar de - "consumo cultural" (ingresso de cinema e cd's, por exemplo) corre-se um risco muito grande de ver seu dinheiro indo pro lixo com algo que você talvez não se satisfaça. O que o consumidor quer é consumir um produto bom e evitar "investimentos de risco".

Há uma lista que roda por aí que compara os top 10 filmes pirateados com os top 10 sucessos de bilheterias. Tirando um ou dois blockbuster-estoura-boca-do-balão-filme-de-herói-dos-quadrinhos, a lista é completamente diferente uma da outra. Os filmes vistos em salas de cinema são em sua maioria filmes que passam do julgamento "bom ou ruim" pois tem um número assíduo de fãs. Estes mesmos fãs, inclusive, são os que mais procuram o material na internet para matar a curiosidade. Ao mesmo tempo eles promovem a pirataria e ajudam na arrecadação.

Outra razão para a diferença entre as listas é o fato de o próprio estúdio investir pesado em títulos de retorno garantido. Acabam sem fazer grandes propagandas virais de outros títulos. Isso afeta a arrecadação de bilheteria no mercado interno (EUA). Sem arrecadação o filme não consegue abertura em mercados estrangeiros com as distribuidoras, o público fica sem filme, o público apela para a pirataria. O caminho da pirataria é sempre esse.

O mesmo acontece com a música. Eu realmente acredito na idéia de que uma pessoa compra um produto original bom porque reconhece em algum ponto sua qualidade. O PirateBay é uma casualidade da guerra. Depois será o Mininova e o Isohunt, e por fim, o próprio Google. Eles não são cúmplices, de uma certa forma, ao fornecer resultados de pesquisa de torrents? Facilitadores do crime?

E aí está o ponto de partida do desenho no outro post. E eu termino com um também:

27 de Abril de 2009

Obrigado por nada, indústria fonográfica

Na sexta-feira passada (17 de abril), a justiça sueca sentenciou os donos do site de torrents Pirate Bay a um ano de prisão por cumplicidade na violação de direitos autorais. Eles também deverão pagar multa de US$ 3,65 milhões às gravadoras, aos estúdios cinematográficos e às desenvolvedoras de games que entraram com o processo contra o site por perdas e danos. Os advogados de defesa deverão recorrer da decisão.

Apesar de toda a expectativa contrária, pelo menos da minha parte, a decisão já era esperada. Dentro dos tribunais, representantes da indústria fonográfica ganham de goleada da turma pró-download. O pioneiro Napster foi também um dos primeiros a experimentar o que é ser intimado pelas gravadoras. Em 1999, época em que a conexão discada era a lei, o criador do programa, Shawn Fanning foi condenado por violar copyrights e seu servidor foi fechado. Alguns anos depois, o Napster retornou das cinzas, mas totalmente desfigurado (pago e servindo de capacho da indústria), como se tivesse sofrido uma lobotomia. Limewire, Grokster, Morpheus e outros programas P2P também não tiveram muita sorte nos julgamentos e tiveram que ser desativados. Recentemente, no Brasil, a comunidade Discografias não aguentou a pressão das majors e teve que ser fechada -mas parece que está retornando aos poucos.

O caso do Pirate Bay tinha tudo para integrar essa lista -e de fato integrou. Mas a sagacidade dos réus levou esse julgamento a um novo patamar. Se o motor do site era a coletividade, nada mais lógico que os usuários ajudarem conjuntamente na defesa do site. Uma das ofensivas começou com a criação de um blog para acompanhar o andamento do caso, só que tudo narrado de um jeito muito sarcástico, como se tudo o que acontecesse lá fosse fruto de um grande circo -o que não deixa de ser verdade. Só é uma pena que boa parte dos textos tenha sido deletada.

Durante o processo, ficou evidente a ignorância das gravadoras quando o assunto é internet. O Pirate Bay teve até que chamar um especialista para explicar como funciona o sistema Bittorrent, explicando o porquê deles não poderem ser considerados culpados pelos downloads ilegais e que sua extinção não significaria o fim dos downloads. Seria o mesmo que acusar o Google de incitar a violação de direitos autorais só porque divulga links de sites de mp3. Coisas da web 2.0.

Para exemplificar melhor esse quadro e ainda fazer uma graça, a defesa usou o bizarríssimo argumento King Kong, que foi bastante comentado nos blogs: "É preciso haver uma ligação entre os perpetradores do crime e os usuários. Esta ligação ainda não foi comprovada. O promotor precisa mostrar que Carl Lundström (um dos criadores do PB) interagiu pessoalmente com o usuário King Kong, que pode muito bem ser encontrado nas selvas do Camboja". Pelo que eu li por aí, qualquer relação com a tese Chewbacca, do South Park, não é mera especulação.

Do outro lado, John Kennedy, presidente do grupo de gravadoras que entrou na justiça, deu seus argumentos contrários à distribuição ilegal de músicas na internet. Ele disse que as vendagens de CDs caíram, nos últimos dez anos, de US$ 27 bilhões para US$ 18 bilhões. Em 2001, o CD mais vendido daquele ano tinha comercializado 13 milhões de unidades, enquanto que, em 2008, o campeão Coldplay havia vendido só a metade disso. Certamente, a culpa é das pessoas que baixam arquivos pela internet e não a incompetência estratégica da indústria. Faltou pouco para o pessoal do tribunal passar uma sacolinha de doações para as pobres majors.

Este é o fim?
É chover no molhado dizer que a indústria fonográfica está em uma eterna crise. Acho que os fatos dizem por si. Mas não exatamente uma crise econômica, como se pode ver, e sim uma crise de identidade. Desde o começo da década, os analistas mais conservadores já davam como certo o fim da mídia física. Com o advento da banda larga, as coisas só pioraram para o lado dos produtores. Porém, ao que tudo indica, as gravadoras ainda estão aí, firmes e fortes.

É fato dizer que as gravadoras ainda vendem discos por causa de alguns poucos puristas, como eu, que preferem ouvir músicas em seu estado de natureza (entenda-se Lossless) a mp3 ultracomprimidos de 128 kbps, que conseguem fazer o prato de uma bateria soar como um "tssss" constante. Só isso pode explicar, já que os artistas não ganham nada por vendagem de discos mas por royalties, e mesmo assim eles ainda conseguem ser roubados. Portanto, comprar disco original só porque gosta da banda é um grande erro de lógica.

O fato é que as gravadoras precisam mirar no público certo, e o público certo é aquele que compra discos pela qualidade do produto e não porque está na moda, como se fazia anteriormente. É aquele mesmo cara que pode ficar horas discutindo a qualidade superior do vinil sobre o CD, ou que pretende trocar toda a sua coleção de DVD pela de Blu-ray. Nesse sentido, comercializar discos de qualidade superior, como a EMI pretende fazer com a remasterização do catálogo dos Beatles, é uma boa para ganhar uma sobrevida -inclusive quando se sabe que na internet já rolam arquivos em FLAC de alta qualidade dos LPs dos Fab Four que dão uma surra nos CDs lançados em 1987. E para o resto da patota, o negócio é investir em downloads pagos.

Confesso que até eu ri quando surgiu essa história de pagar para baixar músicas, mas hoje vejo que é um negócio tão louco que pode até dar certo. O Radiohead, o iTunes e o site Trama Virtual mostraram que isso é possível, cada um usando seu modelo, o que dá margem para a criação de outros métodos de comercialização via internet.

Agora, o que é imoral é o fato das majors investirem pesado para coibir a distribuição de músicas, sejam elas pagas ou não, e tratarem os usuários como criminosos periculosos, como faz nosso amigo abaixo.

Desenho feito por Dylan Horrocks. Tradução desconhecida

15 de Abril de 2009

Jogador é jogador, músico é músico e jogador-músico é jogador-músico

Já ouvi o Washington cantando sertanejo, o Rogério tocando Pink Floyd e até o Pelé cantarolando em prol das criancinhas. De fato, futebol e música são tão próximos quanto Jorge Ben e o Flamengo. Mas, na crônica esportiva, poucos chegaram a estabelecer um elo definitivo entre esses dois universos, sendo que minha memória só consegue alcançar o nome de Ronaldo, goleiro ídolo/garoto-problema do Corinthians nos anos 90.

Em 1997, quando ainda atuava pelo time paulista, ele decidiu formar uma banda, alcunhada Ronaldo e os Impedidos, e que resultou em um álbum homônimo. É de se perguntar como é que ele conseguia treinar, ficar em concentração, jogar nos fins de semana e ainda sair em turnê, mas isso poucos podem responder. O caso é que a audaciosa empreitada artística provou de uma vez por todas que não é juntando duas coisas legais, como futebol e rock, que necessariamente vai resultar em algo bom.

Isso porque, no conjunto da obra, a qualidade musical do disco não passa do mediano, porém há um detalhe sórdido: o peso do lado exótico nisso tudo. Assim como essas bandas nada a ver de hoje em dia, como Cansei de Ser Sexy, Ronaldo e os Impedidos estavam envoltos por uma aura de ruidosa curiosidade, como se as pessoas se perguntassem: "Isso é para valer ou estão tirando uma com a minha cara?" Aos incautos, só restava arriscar e nem todos devem ter levado isso numa boa.

Por exemplo, parece faltar consistência ao som da banda. Tanto que um amigo meu disse, com absoluta razão, que parece aqueles grupos que tocam nos barzinhos de rock da 13 de Maio, em São Paulo. Não que isso seja muito ruim, mas também não é bom. Os Impedidos parecem ficar entre o blues, passando pelo hardrock dos anos 70 e desaguando vergonhosamente no pop rock dos anos 90, em que se mistura o pior do ska, do punk e do hardrock em um massa amórfica sem sabor. Mas para dizer que não falei das flores, o guitarrista solo é muito bom e consegue se destacar facilmente. Mas, no geral, sinto que faltou o dedo de um bom produtor nessa história.

O que impressiona mesmo são as letras, embora ainda não tenha certeza de quem seja o autor (inclusive, faltam informações confiáveis desse CD na internet. Sem falar que é impossível achá-lo no Mercado Livre, o que dá a impressão de ser tão raro quanto o mítico LP Racional, do Tim Maia). Lógico que é preciso levar em conta que o que estava em voga na época eram bandas como Companhia do Pagode, Tiririca e Katinguelê, então é difícil fazer uma comparação minimamente justa.

Em "Linda Mulher", a canção que abre o álbum, a banda faz uma homenagem ao filme Uma Linda Mulher (O RLY?). Na música, Ronaldo canta as agruras e os sonhos das mulheres da vida, com direito a uma frase filosófica: "Preço está no que se perde e não no que se vende", colocando uma pimenta na lógica marxista de que o trabalhador vende sua força de trabalho ao dono dos meios de produção. Nesse caso, a profissional estipula o preço não tomando como base seu valor produtivo, mas naquilo que ela poderia fazer se não estivesse trabalhando, o que não faz nenhum sentido.

Na segunda faixa, "Ouro no Dente", Ronaldo parece tratar de coisas ocultas, como aparições macabras no meio da noite em plena encruzilhada. Saca só o clima sinistro: "Começou a escurecer, fiquei com medo/ Sai correndo e me perdi", narra o ex-goleiro, ao ritmo de rock blues. Mas o detalhe inusitado é que o tal tinhoso tinha "ouro no dente". Lógico que o goleiro, que não é bobo nem nada, não ficou para perguntar e picou a mula sem olhar pra trás, deixando a besta-fera comendo poeira.

Na música seguinte, infelizmente, a banda destroi o clássico "Proud Mary", do Creedence Clearwater Revival, em uma versão bem mal-feita, então não vou nem comentar. Mas, em seguida está a canção de trabalho deles, "O Nome Dela", uma música de amor e amnésia (alcóolica, provavelmente). Tudo leva a crer que o cara estava tão loki que não lembrava nem do nome da garota e, certamente, tomou um pé na bunda da tal desconhecida -caso contrário, ela fez um péssimo negócio. Em se tratando de melodia é a melhor música do álbum, já que adota aqueles elementos básicos para uma canção de sucesso: refrão pegajoso, riff simples que atravessa a música inteiro, e o uso correto de backing vocals.

Na única balada do disco, "Mesmo que eu me engane", Ronaldo mostra estar mais angustiado do que um goleiro na hora do gol. Na real, essa música de amor, enfeitada só pelos acordes de violão, parece uma continuação da anterior, como se a sobriedade tivesse batido como uma pedra pesada, já que nessas horas o lamento é seu melhor amigo.

E para barbarizar, em "Rockixe"*, o polêmico goleiro parece rasgar o verbo para falar do universo das drogas, como o haxixe, que há anos alimenta o rock. Ao que parece, é uma canção cifrada e sem sentido, como fazia Bob Dylan antes de virar um coroa pé-no-saco. Portanto, isso pode derivar de acordo com as interpretações, mas um trecho específico parece mostrar qual é a real disso tudo: "Eu sou o anjo do inferno que chegou pra lhe buscar / Vim de longe, vim duma metamorfose / Numa nuvem de poeira que pintou pra lhe pegar". Muito tenso.

Como já foi dito aqui, o CD não tem nada de genial, nem mesmo uma canção que te faça cantarolar por horas a fio. Talvez por isso tenha vendido, segundo dados não-oficiais, cerca de 40 mil cópias, o que era igual a nada na era pré-mp3. Não sei ao certo o que aconteceu com as unidades não vendidas (há quem diga que elas foram enterradas em um deserto no Novo México, EUA), mas é bem provável que as poucas que foram adquiridas possam valer ouro no mercado negro. Ou isso, ou os compradores já se livraram de seus exemplares há bastante tempo.

Edit: Clique aqui para baixar o álbum completo.

*Descobri agora que essa música na verdade é do Raul Seixas.

6 de Abril de 2009

Tempo para nada.

Muitas pessoas reclamam de “ter rotina” argumentando que o tempo passa mais rápido que o normal. Esta é a invenção do século. O tempo continua sendo contado por horas, e o dia sempre se forma das mesmas vinte e quatro delas. O raciocínio dos rotineiros é na verdade a derivação da ideia de que não existe tempo suficiente para se realizar todas as tarefas desejadas. O tempo é, em alguns casos, superestimado. Poucas pessoas percebem isso exatamente porque lhes falta tempo.

Difícil é o tempo de sobra. Quando não temos rotina e tarefas a coisa complica. É preciso pensar com cuidado tudo o que vamos fazer, pois devemos levar em conta a importância do ato caso fôssemos rotineiros. “Eu posso fazer isso, mas se eu fosse uma pessoa ocupada, sem tempo, provavelmente não o faria”.

Isso me aconteceu há algum tempo, e seguindo o pensamento acima resolvi ler um livro. Achei que um livro não seria perda de tempo caso eu não tivesse tempo para ler livros, pela importância cultural da coisa.

Não podia ser um livro da prateleira (empoeirada), pois isso me daria a sensação de que poderia ler um livro a qualquer hora que não aquela em que eu tinha tempo livre. Só o fato de achar que eu não perderia tempo era pouco, então como bom sovina que sou, decidi comprar um livro novo, e partir do princípio que caso eu decidisse cerrar a leitura antecipadamente não só perderia meu tempo (que exatamente por estar sobrando se tornou muito mais valioso) como também arcaria com o desperdício monetário.

Escolhi “A arte de produzir efeito sem causa”, do Lourenço Mutarelli, que trata justamente de um cara que perde o emprego e começa a ter tempo livre demais. É uma leitura simples e rápida. Júnior, o personagem principal, fica louco à medida que perde interesse nas coisas e começa a fazer nada (este é um trocadilho muito bom). No fim das contas eu gostei do livro. Não tinha lido nada do Mutarelli ainda, e o interesse só apareceu por causa d'O Cheiro do Ralo que vi no cinema. O melhor Selton Mello. O Mutarelli acerta o personagem aí: Todo mundo é um pouco louco, fetichista e paranóico com alguma coisa.

Quando sobrar tempo leio mais alguma coisa dele.

29 de Março de 2009

Começo de temporada.

Imagino eu que nenhum começo de temporada seja tão aguardado quanto o da Fórmula 1. Durante sua pausa, não existe categoria no automobilismo que cubra a falta. Mas, ainda assim, a Fórmula 1 consegue ser um dos esportes menos atrativos em terras brasileiras. A primeira corrida deste ano aconteceu às 3:00 da matina, horário similar às próximas três corridas. Depois, para os interessados, será necessário o esforço de religiosamente acordar às nove horas da manhã por um bom tempo por muitos domingos. Francamente, para acompanhar as corridas é preciso gostar muito da coisa.

"2009 é um ano de mudanças na F1", e essa frase é mais rodada que o peão do baú da felicidade. Na minha modesta opinião, essa é a maior balela. As coisas continuam iguais fora das pistas, com a mesma disputa política intensa entre FIA, FOM e FOTA, cujos interesses, quando afunilados, são os mesmos: Tornar a categoria rentável e ganhar dinheiro com ela.

Nas pistas também não há diferenças. O piloto tem um papel secundário na corrida. Quem ganha corridas hoje são os projetistas e construtores dos carros. Prova disso foi a corrida da Austrália, terminada a poucos instantes.

Largando em primeiro, Jenson Button teve o trabalho de não bater em ninguém na primeira curva e terminar a corrida tão sossegado quanto começou. Rubinho, que largou em segundo, espelhou o sentimento de todo brasileiro atento à Rede Globo: Sono! Cochilou, perdeu a largada e foi correr atrás do prejuízo. O Rubinho, na verdade, é a principal evidência do que lhes disse sobre ganhar corridas. Mesmo com um desempenho horrível, bastou um pouco de sorte para que, ao final de 58 longas voltas, ele terminasse a corrida no mesmo lugar que começou. É verdade que muito se deve ao erro de Kubica ao tentar ultrapassar Vettel à três voltas do fim, tirando ambos da corrida. Mas se analisarmos os últimos campeões da competição, alguém ousaria dizer quem é o melhor piloto entre Alonso, Hamilton, Raikkonem ou Massa? Todos, é claro, são muito bons pilotos, mas nenhum deles possui uma característica de pilotagem única e autêntica que o tenha levado ao título. Havia, sim, um carro superior.

Talvez o apelo da Fórmula 1 tenha mudado agora pois as equipes com melhores carros agora são outras. Enquanto estiverem proibidos os testes, ter mais ou menos dinheiro para pesquisa e desenvolvimento pode não valer nada. Acredito que será muito difícil ver este ano o que se viu na Ferrari dos últimos anos, com começos irregulares e supremacia entre construtores ao final. BrawnGP, Toyota, Williams e Sauber estão com uma chance de ouro nas mãos para finalmente peitar Ferrari e McLaren. A Renault parece ser a Williams de alguns anos atrás, quando entrou em declínio, e eu não apostaria minhas fichas nela.

Sempre achei uma grande babaquice ver alguém torcer por uma escuderia, como muitos fanáticos fazem. Na minha cabeça a competição na F1 sempre teve um sentido patriótico voltado para o piloto, e não equipe. Mas acho que é hora de repensar isso. Se algum brasileiro ganhar o campeonato este ano, com certeza se deverá mais ao carro que ele guia do que sua habilidade.

No mais, a tal expectativa que se cria com o começo da temporada, como disse no começo do texto, é um pouco exagerada. Pouca coisa mudou ou vai mudar na F1. Talvez a grande mudança deste ano foi a temporada não ter começado com a transmissão do Galvão Bueno. Mas quem quiser acompanhar o mundo da velocidade este ano vai contar com os mesmos de sempre: Galvão, Reginaldo Leme, Luciano Burti e Lito Cavalcanti no Sportv, com um ou dois pitacos do Rei, Claudio Carsughi.

Olhando daqui, ficar acordado pra ver a primeira já foi até demais.

24 de Março de 2009

Clássico é clássico

Às vezes penso que, no Campeonato Paulista, os jogos valem muito mais do que o torneio em si. É como se a representatividade das partidas não fosse inerente à questão do próprio valor simbólico do certame, no conceito bourdiano. Trocando em miúdos, a real é que os times grandes parecem não ligar muito se serão campeões ou não do Paulistão. Eles querem mais é ganhar clássicos e ficar de bem com a torcida, para que façamos gozações com a galera.

Só para ficar no campo da exemplificação, o caso do Brasileirão é totalmente diferente, já que cada ponto disputado vale ouro. Um jogo contra o Ipatinga, dependendo das circunstâncias, pode se tornar uma grande decisão. Uma bizarrice típica do futebol, impossível de se explicar para não-iniciados.

Mas a questão não é essa. O fato é que na última semana todo mundo queria ver Corinthians e Santos, principalmente quando se contava com os dois jogadores mais hypes do ano, aliado a uma treta insana entre dirigentes dos dois clubes com relação ao percentual de ingressos para o visitante, coisa que já tinha rolado outrora com o mesmo timealvinegro paulista -só que ao contrário.

A peleja começou tensa, como era de se esperar tratando de um clássico. Tudo indicava que, uma hora ou outra, as coisas seriam resolvidas na mais pura porradaria. Entradas violentas já soavam tão civilizadas quanto um aperto de mão. Um volante corintiano resolveu cumprimentar o jovem Neymar ao estilo Al Capone, com um amistoso tapa na cara, mas o juizão não entendeu e resolveu dar falta.

Quando o jogo ficava morno, Douglas jogou a bola na área e pensou: "Seja o que Deus quiser". Por sorte, Dentinho testou a bola e Fábio Costa nem ousou mexer um músculo.

Com um gol a menos no placar, Santos decidiu ir para cima, como manda a mais elementar das leis do futebol. O problema é quando se precisa trocar mais de três passes seguidos do meio campo para frente. Aí, as coisas complicam. Já o adversário da capital tentava a sorte, sem sucesso, com constantes chuveirinhos na área. Era lamentável o desperdício. E isso só esfriou as coisas.

Ronaldo, um dos mais endinheirados jogadores em campo, aparentava estar perdido, tanto que me fez lembrar de Alex Rondón, aquele atacante do São Paulo que costumava sumir no meio do jogo e que, quando menos se esperava, já tinha saído do clube (lembro que isso aconteceu algumas vezes naquela temporada). Porém, meia hora depois que o jogo havia começado, Ronaldo retornou ao seu estado típico, recebeu a bola na área e chutou rente à trave esquerda, mas seu abdômen estava em posição de impedimento.

Depois disso, a torcida voltou a tirar uma pestana. Nada demais aconteceu até que, aos 40 minutos, Neymar, que também havia tomado uns goles de chá de sumiço, fez que nem o Oliver Tsubasa: olhou, pensou, limpou e chutou forte. Porém, o goleiro espalmou. O barato estava com gostinho de reação pois, logo em seguida, Lúcio Flávio passou todo torto para a área, Roni cortou na base do carrinho com elegância e Kléber Pereira arrematou com força, mas em cima de Felipe. Para piorar, o bandeirola assinalou o impedimento e o juizão aproveitou para soprar o apito de fim de etapa.

Após o primeiro tempo, a emoção foi zero. A exceção foi o final, digno de uma tragicomédia, quando o árbitro fanfarrão resolveu reverter um lateral para o Santos, depois desreverteu e ainda deu um minuto de acréscimo para o Corinthians fazer gol sem goleiro. Haja coração.

E para terminar, a tão esperada treta rolou pra valer, mas não em campo. Lá na área VIP, Marcelo Teixeira, o Corleone da Baixada, foi trocar insultos com torcedores rivais, num belo exemplo de fair play. Em retribuição, os corintianos deram chutes e pontapés ao estilo Chong Li na cúpula da famiglia. Do outro lado do estádio, uma confusão entre os próprios santistas foi o suficiente para a polícia desser o sarrafo na galera. O código entre eles era "senta a borracha no cara de preto e branco" e a coisa facilmente degringolou. De repente, um batalhão policial surgiu do nada e a situação foi dominada.

C'est la vie. Tomar porrada em clássico é como pegar congestionamento em dia de chuva em São Paulo. É só relaxar e pensar: carpe diem.

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