13 de novembro de 2009

Jogos para sempre: Day of the Tentacle




Pode perguntar pra qualquer marmanjo com mais de 20 anos: 9 em cada 10 vão dizer que a melhor geração de videogames foi a dos anos 90. E sem aquele papo ranhento de saudosismo da adolescência. É algo mais factual: a referida década, para os nerds, equivale à geração de Pelé para o futebol brasileiro. Foi o auge do videogame-arte, que não tinha aquele amadorismo do Atari, tampouco o apego doentio à realidade da gen atual. Era tudo feito na base do suor, do amor à camisa e da criatividade dos programadores. Naquela época, o esquema era totalmente diferente: o jogador era obrigado a extrair o máximo de sua massa cinzenta – ao invés usá-lo para ficar admirando a qualidade gráfica do fiapo do vinco da calça do figurante.

Digo isso porque recentemente rejoguei o "Day of The Tentacle", certamente um dos games mais legais da história. Como um bom adventure, gênero praticamente morto nos dias atuais, a mecânica consiste em descobrir pistas durante a jogatina para resolver quebra-cabeças. E para isso não precisava de uma jogabilidade revolucionária (pois era jogado pelo mouse) para divertir, só uma boa e envolvente história já resolvia a parada com maestria.

O jogo começa na mansão-hotel do Dr. Fred, um cientista maluco que despeja lixo tóxico de seu laboratório secreto sem remorso. Até que um tentáculo roxo, que estava hospedado no local junto com seu amigo tentáculo verde, entra em contato com a química e sofre uma mutação genética que lhe dá braços e uma monstruosa inteligência malígna, que pretende usar para dominar o mundo. Dr. Fred, então, captura os dois tentáculos e prepara o procedimento de morte. O verde, que não tinha nada a ver com isso, chama os três personagens principais – o nerd Bernard Bernoulli, o metaleiro Hoagie e a psicótica Laverne – para ajudá-lo. Só que eles acabam soltando também o maléfico e terrorista tentáculo roxo, que sai para botar seu plano em ação.

O que torna o dia do tentáculo diferente de outros excelentes adventures, como "Full Throttle" e "Sam & Max", é a possibilidade de alterar o espaço-tempo de acordo com suas ações históricas. Explicando melhor, para poder deter o tentáculo roxo, Dr. Fred envia os três de volta para o começo do dia para que evitem que o tentáculo roxo se torne um mutante do mal. Só que o processo de transposição temporal dá errado e Hoagie é enviado ao passado, Laverne para o futuro e Bernard volta para o presente. Assim, por exemplo, quando Hoagie altera a bandeira norte-americana para uma em forma de tentáculo, automaticamente, no futuro, elas são trocadas nos mastros das casas. Isso torna a solução de certos quebra-cabeças muito mais desafiante, porque as possibilidade de interação são inúmeras.

O game teve como co-autor Tim Schafer, que também foi responsável pela série "A Ilha dos Macacos", "Full Throttle" e "Grim Fandango". Recentemente, ele trabalhou no game Brütal Legend, que mistura adventure com elementos de ação, estratégia e missões à la GTA. Não sei se é tão bom quanto os outros jogos que ele tem no currículo. Mas o fato é que hoje parece quase impossível criar bons adventures como nos anos 90, quando a LucasArts apostava uma boa grana no gênero. Porém, na virada do milênio, os jogos de tiro para PC começaram a reinar e ficamos só na saudade (dos tempos em que saíam bons adventures).

3 de novembro de 2009

Microrresenhas da Mostra de SP 2

PIXO (PIXO) - 2009 - Brasil
Documentário de João Wainer e Roberto T. Oliveira revela a cara da pichação em São Paulo. Jovens vindos da periferia percorrem a cidade, sobem em prédios e escalam muros para se divertir e chocar a burguesia com suas letras ininteligiveis. O filme não toma partido, não os mostra como vândalos nem artistas, mas deixa claro a falta de perspectiva para essa juventude.
Avaliação: Excelente

31 de outubro de 2009

Se eu soubesse, não iria.

Era Agosto quando eu joguei uma ideia na mesa de bar. "Acho que a gente devia ir pra Oktoberfest". Era uma mesa de bar, a sugestão foi muito bem aceita. Era Setembro e ninguém havia sequer mexido um pau para tentar colocar a ideia de Agosto em pratica.
Como fui eu quem fez todo o brainstorm, deixei a parte burocrática para os outros.
No meio de Setembro nós só tínhamos a certeza de que queríamos ir, e que talvez no ano seguinte não teríamos tanta preguiça para resolver toda a logística de uma viagem longa.

Mas eu estava obstinado. Fui resolver o primeiro problema, que era o da hospedagem. Vinte e sete superquinzes depois consegui um quarto de hotel para cinco pessoas por um preço absurdamente salgado. Não poderíamos pagar aquela quantia se o quarto fosse para doze pessoas, quanto menos cinco!
Mas com mais 7 ligações, encontrei a luz. Uma acomodação nas montanhas catarinenses que (como garantiu a dona da pousada) não corria risco de deslizamento. Um preço que combinava com nosso orçamento de bolso furado, e um depósito na conta bancária mais tarde tínhamos onde dormir e transporte ida e volta garantido para 6 pessoas.
Faço muito bem em lembrar que saímos no lucro com o lance do transporte. Andamos bem mais do que aquilo que pagamos. Na ida o ônibus quebrou, tivemos que passar por Curitiba para trocar de carroça e uma viagem que deveria durar aproximadamente 10 horas levou 15 para terminar. No ônibus a conta das horas perdidas (e ainda não podendo usar as pernas e por cima disso completamente sóbrios) colaborou para a frustração e raiva gigântica que sentíamos daquele motorista filho de uma meretriz.

Na chegada a Blumenau providenciamos um par de táxis, despachamos as malas, fizemos contato com os locais e demais turistas e descobrimos que o taxista era de Porto Alegre e torcia pro Flamengo! Não entraríamos naquele táxi de novo tão cedo, e logo rumamos para o centro, ladeira abaixo, onde, no Tunga, a festa estava começando a ficar quente.
Como manda a tradição, logo tomamos posse de um tirante e uma caneca cada. Eu poderia mentir e dizer que foi uma busca árdua e cheia de elementos sagrados, envolvendo toda a misticidade de estar presente na Festa da Cerveja, mas a real é que uns vinte e cinco reais resolveram essa parada, e o próximo passo era gastar esse mesmo valor e uns trocados mais na próxima hora em forma de líquido dourado chope. Ainda sobrou dinheiro para comprar um chapéu de poderes mitológicos que garantia ao usuário um boom de ânimo.

De tarde a festa é na rua. Alguns bares, muitas chopeiras, muita gente, música alta. De noite não é diferente, mas a festa sai da rua e vai para a Vila Germânica/PROEB. Na primeira noite Jesus nos mostrou o caminho, e ainda bem que ele estava lá, porque foi uma peregrinação de uns 50 minutos para chegar. Seria pouco se houvessem lugares para comprar mais cerveja no caminho. Como não tinha, o jeito foi ir meio seco, urinando quando necessário ou em químicos ou nas vielas, perdendo a embriaguez gota por gota.

Quando chegamos na Vila tive uma noção melhor do evento. Três galpões abarrotados. Se cada galpão tivesse um tema, o tema dos três seria cerveja. Chopes artesanais ou Brahma. Nas filas para trocar a ficha por combustível vários flertes. "Me pega um chopp?" era a frase mais inteligente para se dizer. Mas qual chope pegar? Eisenbahn? Bierland? Opa Bier? Todos tinham a mesma artilharia: um pilsen, um escuro, um de trigo, um de vinho (para as moças), mais fermentado, menos... Que se dane a química da coisa, você já chega lá no estado de não querer se preocupar com o sabor, mas os artesanais realmente eram a melhor opção, principalmente levando em conta que pra tomar chope Brahma aqui em São Paulo você pode ir no bar homônimo.

Foram dois dias e noites da mesma coisa. Acorda. Um almoço pra forrar. Festa na rua. Fila para pegar chope na rua. Caminhada pra vila. Fila para comprar entrada na vila. Festa na Vila Germânica. Fila pra comprar o chope. As mesmas músicas (todas curiosamente rimando com "pega no meu pau"). 04:30 a música acabava. 05:00 paravam de vender fichas. 6:00 paravam de servir chopp e davam a noite por encerrada. Tomamos chuva na volta nos dois dias, e íamos procurar um jeito de voltar para nosso quarto, entoando cânticos que denunciavam nossa paulistanidade, correndo, ou como eu gosto de pensar, simplesmente estando bêbados.

No último dia um almoço, arrumar as malas e se preparar mentalmente para encarar 10 horas de viagem. Na volta o ônibus não quebrou. Nos despedimos dos amigos no metrô, e cada um foi tocar sua vida. A caneca, o tirante, os espólios voltaram na mala, evidências de um acontecimento que não pode ser encarado com leviandade. Essa viagem está marcada na memória. Superou minhas expectativas, que eram muito altas. É uma pena ter que esperar tanto tempo para fazer isso acontecer de novo. A volta é arrasadora. Se eu soubesse, não iria. Agora resta esperar.
Hoje é fim de Oktober.

29 de outubro de 2009

Microrresenhas da Mostra de SP

BANANAS! (BANANAS!) - 2009 - Suécia
O documentário narra a batalha judicial entre trabalhadores de um bananal na Nicarágua e a empresa americana dona da plantação. No centro da discussão, o uso ilegal de um pesticida nocivo à saúde. O diretor Fredrik Gertten conseguiu tirar leite de pedra, pois o assunto torna difícil obter boas imagens, mas a figura do excêntrico advogado Juan Dominguez deu brilho à história.
Avaliação: Muito bom

FIQUE CALMO E CONTE ATÉ SETE (ARAM BASH VA TA HAFT BESHMAR) - 2008 - Irã
Drama conta a história de um garoto que espera o retorno do pai após este ter levado clandestinamente algumas pessoas para fora do Irã. Paralelamente, um homem que faz contrabando de produtos vê seu casamento se deteriorar. O filme tem o melhor do cinema iraniano: belas imagens e o uso inteligente e criativo da câmera. Mas a narrativa se perde em alguns momentos.
Avaliação: Bom

19 de outubro de 2009

10 razões para não acreditar em listas

Em tempos de crise, a jogada de marketing mais marota do jornalismo é produzir listas sobre qualquer coisa só para turbinar as vendas e conquistar o bolso do leitor incauto. O assunto não importa, muito menos sua legitimidade, o que importa é que haja uma lista. Mas será que elas merecem o tanto de atenção que recebem?

Conheça agora os dez motivos para não acreditar em listas:

10) Tirando as listas de coisas mensuráveis (do tipo "os maiores prédios do mundo"), qualquer outro critério de escolha pode ser contestado, por mais cartesiano que pareça. No ranking da FIFA, por exemplo, sempre tem uma seleção brincalhona entre os melhores, neste caso a Croácia, embora seja utilizada uma fórmula de física quântica para calcular os pontos.

9) Questões culturais tem influencia direta no resultado. A escolha das mulheres mais bonitas do mundo podem ter resultados diferentes se for feita no Japão ou no Brasil. E os filmes que os europeus assistem nem sempre são os mesmos que os americanos gostam.

8) Listas baseadas em média de notas normalmente não dão muito certo. Ou como explicar que o nada criativo GTA IV esteja em segundo lugar no GameRankings?

7) O critério de uma lista pode até ser científico, mas eles não resistem aos "ses". Nada contra dizer que Pelé é melhor que Maradona porque ganhou mais títulos e fez mais gols. Mas e se Pelé tivesse jogado na Europa? E se o campeonato brasileiro fosse minimamente mais organizado nos anos 60? Como ele jogaria no esquema tático pós-Carrossel Holandês? Ou com o nariz cheio de pó?

6) Como já mostrava o filme "Alta Fidelidade", o que importa numa lista são os cinco primeiros. O resto poderia ser embaralhado que dava na mesma.

5) A maior prova de que muitas listas são feitas de qualquer jeito é o famoso caso do jogador moldavo Masal Bugduv, que foi incluído na lista das 50 maiores promessas do futebol pelo The Times sendo que ele sequer existe. Bugduv não passava de um "hoax", termo usado na internet para "pegadinha do Mallandro".

4) Listas nada mais são do que um reflexo do presente. Na eleição dos melhores álbuns brasileiros, "Acabou Chorare", dos Novos Baianos, ganhou menos pela sua importância histórica do que pelo revival tropicalista que rolava há uns três anos por causa do retorno dos Mutantes. Se uma lista desta for feita novamente hoje, o resultado certamente será diferente.

3) Normalmente, listas são lotadas de obviedades. A de melhor álbum de todos os tempos sempre vai ter um dos Beatles, assim como o de melhor filme sempre será "Cidadão Kane". E quem não seguir esse dogma, corre o risco de ser crucificado e acusado de querer aparecer. Se é assim, para que fazer uma lista, então?

2) Quando a questão é fazer uma lista democrática, esbarra-se em um dilema: deixar o público eleger ou não? Se sim, corre-se o risco de ter o resultado facilmente adulterado na internet pelo pessoal do 4chan. Caso contrário, pode acontecer o que já foi relatado no item nº 3, já que jornalistas costumam pensar em bloco.

1) A função social de uma lista não é sua capacidade de emitir supostas premissas ou verdades, mas de causar confusão. Quanto mais pessoas discutirem e contestarem seu resultado em uma mesa de bar, melhor.

Portanto, siga essas recomendações e não acredite nela. A verdade é que listas são legais pra cacete, ainda mais quando podemos criar nossas próprias.

4 de outubro de 2009

Muito além do limite






De uns tempos para cá, a mina de ouro de Hollywood tem sido as animações pseudo-infantis em 3-D – digo "pseudo" porque, embora sejam voltadas para crianças, os roteiristas desses filmes adoram colocar piadinhas exclusivas para os adultos mais serelepes darem umas saborosas risadas. Isso levou praticamente todos os grandes estúdios a marcharem rumo ao Oeste em busca da fortuna prometida. Era praticamente uma garantia de grana fácil. Porém, o uso de fórmulas batidas criou uma terra sem lei e ordem. Quando viram que "Procurando Nemo" estava dando altos lucros, alguém teve a criativa ideia de lançar um filme chamado "Espanta Tubarões". Isso sem falar nas constantes sequências de franquias, mostrando que os produtores não estão muito a fim de gastar massa cinzenta para ganhar dinheiro.

Mas nesse universo mais na defensiva que futebol italiano, a Pixar continua sendo uma das poucas a trazer alguma inovação. Depois de "Wall-E", eles trataram de revolucionar novamente a linguagem das animações com "Up! - Altas Aventuras". No filme pós-apocalíptico do simpático robozinho lixeiro, a Pixar elevou as animações em 3-D a um novo patamar, se aproximando pela primeira vez dos filmes de arte: tiraram os diálogos (como no filme "Casa Vazia") e abusaram das referências. Já em "Up!", a narrativa é feita de maneira muito profunda, sendo conduzida pela própria psique do protagonista, ao invés da superficialidade dos tradicionais conflitos internos entre os personagens envolvidos.

O enredo conta a história do velhinho rabugento Carl. Ele vive sua vidinha pacata, sem grandes perspectivas, desde que sua mulher morreu. Para piorar, uma construtora quer colocar sua casa abaixo. Para fugir dos problemas, nada mais lógico que colocar balões em sua própria morada e ir voando até uma cachoeira perdida na América do Sul – lugar que sua esposa sempre quis conhecer. Só que, por acaso, um moleque escoteiro acaba pegando uma carona, alterando os planos de viagem.

A história é bastante simplória, como não haveria de ser diferente – afinal é um filme para crianças e não um "Akira". Mas a questão importante aqui é como ela é narrada. Nos primeiros dez minutos, a vida de Carl é mostrada desde que era um pirralho medroso e tímido até os últimos momentos de sua amada mulher. E tudo é contado de maneira belíssima, com uma espetacular trilha sonora, e abusando do dramalhão, como se fosse uma "Lista deSchindler" em CG.

E é aí que mora a diferença. Assim como em "Os Incríveis", a angústia do personagem transparece de maneira muito clara. Conhecemos na pele seus conflitos, deixando na cara seu apego ao passado. Mas, diferente do Sr. Incrível, Carl não tem como voltar aos velhos tempos – muito menos trazer sua mulher de volta. A solução que encontra é navegar a fundo em suas lembranças, personificada na casa onde moraram e que se torna o último elo com a sua falecida companheira. Porém, aos poucos, ele abandona esse apoio cego ao compreender que as recordações não passam disso: meras recordações.

Não é à toa que "Up" foi o primeiro filme de animação a abrir o Festival de Cannes. Os cinéfilos em geral são loucos por filmes sobre dramas pessoais psicologicamente complexos. E nesse caso, "Up!" cai como uma luva. É só uma pena que o vilão da história não seja tratado da mesma forma, parecendo mais um gênio louco do que um homem injustiçado. E os mais cri-cris podem reclamar de alguns furos mal explicados no roteiro, mas, poxa vida, isso é desenho animado e não neo-realismo.

28 de setembro de 2009

Reportagem in loco

Estou aqui em uma passagem rápida para avisar os (se é que ainda existem) leitores deste blog.

Nós do BcF ficamos impressionados com o castigo da natureza que o sul do país vem sofrendo. Por isso, daqui a duas semanas, vamos nos arriscar a fazer a cobertura desse acontecimento direto de Blumenau, onde coincidentemente rola a Oktoberfest. Talvez passemos por lá também...

Novas postagens a caminho.

Logo bateremos o recorde de publicar uns 10 textos no ano.

14 de setembro de 2009

Fixing a Hole: Beatles remasterizado

Há mais de 20 anos, mais precisamente em 1987, o catálogo em CD dos álbuns dos Beatles finalmente chegava às lojas, popularizando de vez essa então nova mídia e aposentando os velhos bolachões analógicos. Porém, a realidade mostrou-se mais implacável: a versão digital tinha um som ridículo. A maioria dos fãs sempre reclamou do som abafado e pouco nítido dos CDs em comparação aos LPs, como se estivessem ouvindo com um travesseiro na cabeça. Lógico que os saudosos chiaram como um disco mal prensado, porém nada foi feito para reverter essa questão, já que a marca Beatles é algo que sempre vende. Mas o sonho ainda não tinha acabado.

No último dia 9, uma nova edição de CDs remasterizados do Fab Four desfez essa cagada histórica da EMI. A gravadora montou uma equipe de engenheiros de som no mítico estúdio Abbey Road num projeto que durou quatro anos e contou com tecnologias mais avançadas de gravação e mixagem aliadas com equipamentos mais vintages. E tanto investimento e esforço por parte da major foi recompensado.

Ouvi dois álbuns em estéreo, Sgt. Peppers and the Lonely Heart’s Club Band e Abbey Road, e comparei com os CDs remasterizados pelo Dr. Ebbets que circulam na internet. E posso dizer que a qualidade está levemente melhor, o que é impressionante visto que a versão em questão é em 320 kbps, enquanto os do Ebbets são em FLAC.

Antes da análise em si, é importante abrir um parênteses. Dr. Ebbets é o pseudônimo de um misterioso engenheiro de som que, puto com a qualidade tosca dos CDs originais dos Beatles, resolveu fazer sua própria remasterização digitalizando, com equipamentos de alta qualidade, diversas versões de vinis que garimpava pelo mundo. Entre eles estão as caríssimas coleções audiófilas da MFSL (relançamentos em vinil gravados na metade da velocidade) e as edições japonesas e alemãs, elogiadas pelo excelente material de prensagem.

Até o momento, as versões digitais do Dr. Ebbets eram consideradas as melhores já produzidas. Tanto que, na web, um dos passatempos dos beatlemaníacos era trocar figurinhas sobre esses CDs e encontrar o cálice sagrado, a versão definitiva, do Fab Four. Pois bem, a busca terminou. Quando se sabe que o próprio Ebbets teceu elogios à remasterização e anunciou sua aposentadoria, isso tem um significado monstro para o universo da audiofilia.

De maneira geral, a remasterização corrigiu aquele que, na minha opinião, era um dos poucos defeitos das versões ebbetianas: os médios tinham pouco destaque se comparados aos ótimos graves e agudos. A razão dessa deficiência talvez seja da própria mixagem dos vinis, se levarmos em conta que eles foram gravados em apenas quatro canais, mas isso é pura especulação. O fato é que a nova versão deixou o som muito mais balanceado e agradável.

Logo no início de Sgt. Peppers, já dá para reparar a mudança. Na faixa-título, ouve-se com nitidez o ruído do público e da orquestra do clube dos corações solitários nos primeiros minutos de música. E a guitarra de George Harrison ganha destaque na parte do "Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band, We hope you will enjoy the show..." como nunca tinha ouvido antes. Em geral, usando um bom sistema de som (ou um bom fone) dá para ouvir com nitidez todos os instrumentos, até mesmo em "Being for the Benefit of Mr. Kite!" com sua mescla de sons étnicos. Isso devolveu ao "A Day in The Life" a beleza usurpada pela masterização antiga.

Se era notável a melhora em Sgt. Peppers, em Abbey Road o negócio foi mais ignorante. Para começar, a batida nas cordas do baixo em "Come Together" ficaram mais fortes, com muito mais punching. Aliás, em praticamente todas as músicas, o instrumento de Macca acaba se destacando. Fora isso, "Here Comes The Sun" ganhou mais vida, graças ao som nítido do arranjo de cordas ao fundo. 

Deixe estar
 
Pela amostra que ouvi, é fato dizer que a remasterização conseguiu honrar o legado dos Beatles, certamente a discografia mais importante da música pop. Mas é de se perguntar se não veio tarde demais. Como já havia dito em um texto anterior, a distribuição digital já é uma realidade difícil de ignorar (quer dizer, exceto para as majors). E o iTunes estava aí, abanando o rabinho e fazendo cara de dó. Não é segredo que Steve Jobs é louco pelos Beatles (o nome Apple não saiu do nada) e bem possivelmente faria de tudo para lançá-los na era do mp3. Mas a gravadora decidiu que ainda não é hora de entrar no mundo "legalize", embora seja certo que esse dia chegará.

Na real, acho que o que a EMI quer mesmo é ver até onde vai o CD. Antes do lançamento da nova versão, pensei aqui com meus botões: já que é um produto voltado para entusiastas e audiófilos (ou seja, para quem curte toda a experiência de ouvir música), por que os caras também não lançaram em SACD ou DVD-A? Para que ficar preso nos 44,1 Khz sabendo que um fã dos Beatles ou compraria de qualquer maneira ou baixaria na internet?

Só que, ouvindo a remasterização, pensei melhor. Se a EMI lançasse o catálogo dos Beatles em um outro formato, seria decretado oficialmente o fim do CD. Não que o SACD vá se tornar padrão algum dia, mas ficaria mais evidente que o CD está ficando ultrapassado em termos de qualidade de áudio e sua razão de ser se esvaziaria. Se o motivo pelo qual as pessoas ainda compram CDs é pelo seu som, e há uma defasagem quanto a isso, então é melhor partir logo para o mp3, que é muito mais prático. E dessa contestação, pode ser que um novo padrão surgisse, como aconteceu com as TVs HDTV e com o Blu-ray, apesar da popularização do Divx de baixa resolução.

Isso seria um tiro no pé das gravadoras. Elas teriam que adaptar todo o sistema de captação de áudio e de gravação que já está consolidado, o que acarretaria em todo um investimento que encareceria a produção (o que, aliás, é um entrave que o SACD ainda não conseguiu resolver). Por isso, é muito mais prático desenvolver tecnologias para melhorar a masterizaçao de um disco do que para criar um novo formato. E foi isso que a EMI fez com os Beatles. Apostou todas as suas fichas para mostrar que CDs ainda podem ter qualidade comparável aos de alta definição e que isso é bom tanto para os audiófilos quanto para o público médio. Se isso vai funcionar? Depende. Se eles continuarem prezando pela qualidade da masterização e abandonarem a prática nociva do loudness, talvez o público se toque das diferenças entre o mp3 e o lossless.
 
Mas pelo que tudo indica, esse relançamento dificilmente mudará o cenário atual. Fora os Beatles, há pouca coisa que ainda valha a pena pagar para ouvir -e isso é culpa da própria indústria pop, que está demasiadamente nivelada por baixo.
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