O Flaming Lips é certamente uma das bandas mais incompreendidas e intencionalmente incompreensíveis do rock atual. Não bastasse sua sonoridade única – que varia da psicodelia pura até o pop rock mais careta – os caras ainda emendam uns projetos inusitados, como essa tal
regravação do mítico álbum "Dark Side of The Moon", originalmente lançado pelo Pink Floyd.
Para falar a verdade, não chega a ser uma ideia tão ousada assim. O Easy Star All-Stars, por exemplo, já tinha feito um
tributo do DSoTM em versão dub. Uma mistura bizarra, mas com resultado final bem interessante (sem falar que é um convite irrecusável para quem curte viagens astrais sob efeito de aditivos).
Mas no caso do Flaming Lips, a homenagem merece maiores reflexões. Logo de cara, você saca que o barato não é normal. Pois não se trata somente de tocar músicas de outrem num estilo alternativo, mas de criar uma coisa completamente diferente em cima do material alheio. É como se tivessem feito um disco novo do Flaming Lips só que usando o "Dark Side" como referência – igual naqueles episódios de Dia das Bruxas dos Simpsons em que eles fazem sátiras de filmes usando o universo próprio do desenho como fio condutor. E isso acaba desvirtuando o sentido original da coisa e atribuindo-lhe um novo sentido, seja para fins cômicos, seja para inspirar um
touche de genialidade (ou excentricidade).
É interessante como é óbvia essa ruptura que os caras fazem com o Pink Floyd, e isso se nota logo na primeira faixa. Lá você encontra, quase intocável, a introdução Speak to Me, com a batida do coração e o ruidoso silêncio que logo se converte em um barulho sibilante que premedita a música seguinte. Depois, isso aí vira uma tremenda zoação. A baladinha Breathe de repente vira um noise rock totalmente sujo perto da candura inebriante do original.
Em seguida, a faixa On The Run, uma música que já tinha uma pegada eletrônica, ganhou uma cara mais atual. Para falar a verdade, essa daí não tem nada a ver com a original. Só quem realmente manja de Dark Side vai sacar em alguns detalhes que constam na versão floydiana, como o som de helicóptero, o efeito na guitarra que simula um zunido de um carro de corrida e os
samples com frases soltas, reinterpretadas à risca pelo músico e ator Henry Rollins. Talvez os mais puristas possam fazer birra deste remake.
Depois temos Time, que também sofreu algumas alterações. Primeiro foi a troca dos despertadores disparando por um alarme. Depois, uma mudança no tempo da música, que a tornou uma antitese do que fizeram com Breathe, já que tiraram aquela pegada mais pesada e deixaram soturno e minimalista. Para piorar, ainda perdeu o maravilhoso solo do David Gilmour.
Diferentemente, em The Great Gig in The Sky, eles adotaram um esquema mais conservador, estilo Libertadores, sem inventar muito. A mudança mais significativa foi a troca do arranjo de piano pela guitarra distorcida e o vocal a cargo da cantora Peaches.
Já em Money, a música mais conhecida do disco, os caras extraíram o famoso
loop de dinheiro e apostaram na voz robotizada e algo que parece ser uma bateria eletrônica. Ficou com cara de música dos anos 80, o que foi uma péssima ideia, na minha opinião.
Mas os caras acertaram na belíssima Us and Them. Parece que a música caiu como uma luva para o Flaming Lips. Mesmo simples, os arranjos são bem legais e mostram o que a banda tem de melhor. Na sequência Any Colour You Like, eles resolveram não mudar muito também.
Em Brain Damage, eles apostaram no clima menos energético e mais denso, sendo que desta vez o resultado ficou bastante interessante. E, assim, o CD termina bem, mas sem brilho, com Eclipse.
Conhecendo bem o Flaming Lips, percebe-se que talvez os caras tenham reparado que não há como fazer um cover do Dark Side of The Moon ficar melhor do que o original. Para mim, o álbum é uma das maiores obras-primas já inventada pela música pop. Tentar superá-lo seria cair no vazio e fazer um remake modernoso, como tantos outros que já existem por aí, seria pouco para a mente efervescente da banda. Certamente eles devem ter apostado que o melhor era criar um barato tão inesperado e impactante quanto foi o DSoTM na época de seu lançamento, lá em 1973, e nesse quesito eles realmente mandaram bem – como sempre. Ou, então, eles fizeram isso só para chamar atenção do outro álbum que eles lançaram no ano passado, o Embryonic, e, de quebra, levar junto a parentada do
Stardeath and White Dwarfs, que participaram da parte instrumental do tributo.
O fato é que se você for ouvir querendo comparar com o original, vai certamente quebrar a cara, pois a versão do Pink Floyd continua sendo disparada a melhor. Porém, se for ouvir pensando como mais uma proposta diferente do Flaming Lips, a experiência é até respeitável, embora ainda fique aquém de outros álbuns deles, como o excelente
"Yoshimi Battles the Pink Robots". "Dark Side" é o tipo de mestre que dificilmente perderá para seu discípulo.